
Dá nó na garganta ver crianças alimentadas à base de água com açúcar, a Garapa do título do novo documentário de José Padilha. É chocante a absoluta miséria em que vivem as três famílias do Ceará, cuja rotina o diretor de Tropa de Elite e Ônibus 174 registra em granuladas imagens em preto e branco. Inevitável tachar esse visual de "estética da pobreza", embora seja louvável a ideia de abordar o drama da fome a partir da uma perspectiva microscópica. O cineasta se apoia em dados estatísticos para ilustrar a gravidade da situação no Brasil e no mundo, mas seu filme não vai além do retrato da calamidade.
Padilha perdeu uma oportunidade. Apresenta uma realidade lastimável, porém não se dispõe a discutir suas razões, traçar seu histórico ou mostrar o que tem sido feito (ou se pode fazer) para combatê-la. O desemprego castiga os homens, enquanto as mulheres largam as crianças em meio à imundície. A miséria é exposta no vácuo, fora de contexto. Garapa comove, mas sua narrativa anda em círculos e não chega a lugar algum. (10 anos) Suzana Uchôa Itiberê