- Anuncie
- Assine

 
 
 
Sociedade // Home
 
- Edição Atual
- Anteriores
 
- Imagens
- Frases
- Urgente
- Moda
- Estilo
- Fernanda Barbosa
- Paulo Borges
- Agito
- Aconteceu
- Celebridade
- Reportagens
 
- Cinema
- Música
- Livros
- Teatro
- Gastronomia
- Televisão
 

Atualize-se com a
IstoÉ Gente!




- Fale Conosco
- Expediente
- Anuncie
- Assine
- Loja 3
 







O ano de Eliana Tranchesi
Nas comemorações dos 50 anos da Daslu, a empresária conta como tornou-se "uma craque" em dar a volta por cima

TEXTO GISELE VITÓRIA

KIKO FERRITE

Descalça, Eliana Tranchesi pisou na areia fofa de Trancoso, na Bahia, com a sensação de que fazia isso pela primeira vez. O sorriso de profunda alegria foi compartilhado com a família e os amigos próximos. No réveillon que anunciava os primeiros momentos de 2008, ela ganhava a alforria médica para caminhar na praia após cumprir um ano de tratamento contra um câncer no pulmão. "Você não tem idéia do prazer que eu senti naquele momento. Foi maravilhoso", diz a empresária, dona da Daslu, a butique brasileira que tornou-se case mundial de luxo. Os efeitos da quimioterapia a impediam de andar descalça, pela fragilidade de seu sistema imunológico. "Meus pés estavam tão finos que ficaram machucados", conta.

No ano em que a Daslu completou 50 anos, Eliana redescobriu a vida. Coisas simples como ver o sol e acompanhar o tempo de vida de uma flor, tornaram-se detalhes cheios de significado. A empresária venceu um câncer descoberto pouco tempo depois da Operação Narciso, da Polícia Federal, há quase três anos, e superou seu pior momento. Nas comemorações de cinco décadas da butique, Eliana movimentou a marca com uma energia esfuziante. Realizou o primeiro desfile da Chanel no Brasil, trouxe Tom Ford, montou sua primeira loja em um shopping center - o Cidade Jardim -, organizou exposições e, depois de casar a filha Luciana Tranchesi, fecha o ano com o lançamento de uma nova grife.

Idealizada por seus filhos, a 284 foi inaugurada no espaço da Daslu na terca-feira 25, com a presença de Naomi Campbell, que assina uma coleção da marca. Um mês antes, a primeira coleção já havia sido apresentada no Rio Claro Summer, na boate The Week, com a presença do amigo Valentino. 284 é um número simbólico para a família por ter sido o primeiro endereço da Daslu - Domingos Leme, 284, na Vila Nova Conceição. É essa marca que sacramenta a presença efetiva de seus herdeiros no negócio. "O fato de a gente ir para a frente, sem ficar lamentando, faz com que a gente dê certo", diz Eliana. "Essas dificuldades todas que passamos fizeram a gente abrir caminhos e esses caminhos levam as coisas a darem certo. São caminhos bons." Na terça-feira 25, um dia depois de seu aniversário, Eliana estava radiante na inauguração da grife. Ela sorria vendo a alegria da filha Luciana Tranchesi e de Heleninha Bordon, filha da sua fiel parceira, a diretora da Daslu, Donata Meirelles. "Olha a carinha delas de felicidade. Foi assim que eu também comecei", dizia. Animadíssima, contou sua última boa nova: foi convidada para palestrar em Moscou sobre o case Daslu, em 27 de maio. O réveillon se aproxima e Eliana deve ir novamente para Trancoso e as areias brancas seus pés, agora bem mais fortalecidos, irão tocar para seguir em frente em 2009.

Superação
"Aqueles tempos foram muito difíceis e ainda são, mas eu cresci na Daslu, abri uma nova loja de 2.300 metros quadrados, nos consolidamos como marca e como o departament store brasileiro. Aqui não tem Sack's porque a Daslu é forte. Nós somos para o Brasil o que a Harrods é para Londres. Uma referência. É maravilhoso pensar no que estava acontecendo comigo há dois anos, há quatro anos, e como nós estamos hoje. Isso é bárbaro. Nós tivemos aqueles problemas e, na estação seguinte, já começamos a focar na moda nacional. Como não podíamos fazer pedidos internacionais, falei com a Donata: 'Dô, vamos fazer pedidos de marcas nacionais, vamos escolher os bacanas da moda brasileira. A Daslu nacional ficou mais importante depois da crise que enfrentou. Quando voltaram as importações, a gente continuou crescendo."

Força
"Os meus problemas aos olhos dos outros podem ter sido imensos. Para mim eles foram grandes, mas não foram essenciais. As crianças ficaram fortes. Eu pensava na época: 'Vou superar, porque as coisas importantes Deus não me tirou. Se tivesse tido problemas com meus filhos, se tivesse visto neles problemas de caráter, pobreza de espírito, isso sim me mataria. Não o que me aconteceu. O que me aconteceu pode acontecer com qualquer brasileiro. A gente tem que consertar o que está errado, crescer e ter futuro. Eu dei estrutura para meus filhos. (a filha Luciana Tranchesi, 19 anos, entra na conversa: 'Sempre foi muito fácil para a gente lidar com esses problemas. Eu era pequena, minha irmã Marcela tinha 13 anos quando aconteceu a Operação Narciso. Eu estava começando no colegial e foi fácil de lidar com as dificuldades. Pessoas perguntavam como eu conseguia. Meu mundo não caiu').

RÔMULO FIALDINI
Eliana e a diretora, Donata Meirelles, na escadaria de entrada da Villa Daslu, em São Paulo

Personalidade
"Todas as coisas que me aconteceram me deram oportunidade para crescer. Sempre. Tudo o que parecia à primeira vista um obstáculo foi um estepe para eu subir e fazer outra coisa melhor. Tive que mudar de endereço, tive problemas de zoneamento, e, no fim, mudei para este espaço, muito melhor. Eu queria ter feito Sociologia, fiquei superirritada com meu pai (o advogado Carlos Albuquerque, falecido há dois anos), que não deixou. Fiz outra coisa tão bem quanto, dei trabalho para tanta gente. Acho que fui muito justa como patroa. Escutei desde pequena a minha mãe falar da diferença social do Brasil. Era um discurso natural na minha família."

Duas vidas
"Sempre tive duas vidas. Posso estar uma semana no castelo do Valentino, em Versalhes, jantando com a Stella MCartney, com tudo do século 18, num lugar que você pensa que voltou no tempo (ela esteve lá em fevereiro). Você acha que está dentro de um filme. Aí chega o Mick Jagger, e eu estou vivendo tudo isso, me sentindo bem, prestando atenção aos detalhes, nas velinhas que o Valentino acende por todo o jardim. Aí venho para o Brasil, eu vou aqui na favela do Coliseu, e você pensa que eu não estou feliz lá também? Vejo o que as mães estão fazendo, entro na casinha delas. Recentemente estive em Embu para conhecer o projeto de um grupo de missionários amigos da minha cozinheira, a Vanilda. Você pensa que eu cheguei lá e comecei a chorar? Não. Falei: 'Vamos fazer alguma coisa?'"

Responsabilidade social
"Temos a obrigação de ajudar quem trabalha conosco. O empresário tinha que ter essa consciência. As pessoas atiram pedra na Daslu, mas o que fizeram pela sua empregada? O que você fez pela pessoa que dependia de você e você não ajudou? Não dá para pôr a cabeça no travesseiro se os seus filhos têm tudo e os dela não têm e estava na tua mão colocar. A vida não é só pão, arroz e feijão. Tem que ter um escape, comprar uma bobagem que você tem vontade. Logo que mudei para cá, eu fui ao Natal da favela do Coliseu. Aquilo foi tão chocante, foi o Natal mais triste da minha vida. No mesmo dia, eu cheguei para o jantar na casa do Cícero, meu irmão, e foi aquela coisa linda, com Papai Noel. Eu ficava pensado: meu Deus, aquela gente toda, como será que eles estão? Hoje se você for lá tem uma quadra de esportes que antes não tinha, um galpão, uma sala com 22 computadores. No primeiro Natal, a gente levou 400 brinquedos, mas nos olhos das crianças tinha muita tristeza e nos das mães também. Eles estavam ali, recebendo, mas não estavam de coração. No ano seguinte, já foi diferente e no Natal passado eu já estava completamente integrada ali. Eu via esperança na cara das crianças e das mães. Eu recebo desenhos e cartinhas das crianças. A gente tem uma moça que trabalha de manhã, por conta da Daslu, fazendo lição com as crianças que vão na escola de tarde."

''Todas as coisas que me aconteceram me deram oportunidade de crescer''
ELIANA TRANCHESI

Contrastes
"Lido bem com os contrastes porque trato bem de quem eu posso. Não tenho crise de consciência, porque meus empregados ganham bem, porque ajudo a todos da maneira que posso. Dou o que acho que eles não teriam nas outras empresas. Amor, de verdade. Pergunto: 'O que você precisa? Como sua vida vai ficar melhor?' Não posso escutar da mocinha que serve café que a casa dela desabou, não dá. Como posso comprar o sapato da Chanel se a casa dela desabou? Amo os sapatos da Chanel, mas tenho que ter cuidado com quem está do meu lado. Se for para dar salário de fome, eu prefiro não ter empregado. A gente deu mais de 100 casas próprias para empregados. Responsabilidade social nem estava na moda quando começamos isso. Aprendi com a minha mãe, ela sempre fez isso, ela sempre teve tudo, mas sempre a vi dar uma vida digna para quem dependia dela. Vários estão aqui: a Lili, que trabalha conosco como auxiliar de escritório, nasceu na casa da minha mãe."

Eliana mãe
"Nas coisas importantes eu sou rígida. Quando minha mãe morreu eu ainda não tinha filhos, mas a vida inteira ela me passou ensinamentos. Ela tinha vontade de passar todo esse conhecimento antes de morrer. Eu não sou de pegar no pé com coisa sem importância, dou a maior liberdade. Nunca determinei que roupa eles usassem, horário. Eu queria que fossem bons alunos, não mentissem. A única coisa de que eu tenho pavor é mentira. Também tenho horror de gente pobre de espírito que não fala no olho do outro, não cuprimenta. Adoro as pessoas que trabalham comigo. Criei o filho da minha babá. Ela entrou lá em casa quando o Dinho tinha meses. Luiza engravidou quando eu estava grávida da Marcela. Eu disse: ' Você não vai tirar o bebê de jeito nenhum. Você vai tê-lo na minha casa. Vou criá-lo como meu filho.' Ele ia para a escola com elas, fazia natação, fazia inglês, foi criado junto comigo e com meus filhos. Pra mim seria muito mais grave se meus filhos desprezassem o Pedro em algum momento. Mas foi natural deles, nada foi imposto. Esses valores, pra mim, sempre foram muito mais importantes, e me deram força a vida inteira para superar todos os problemas."

Suíça
"Paguei 70 milhões de impostos no ano passado. Graças a Deus eu vendo luxo para pessoas que querem comprar luxo - e comprariam luxo fora do Brasil - e emprego brasileiros. Veio aqui este ano uma moça da Arábia Saudita e comprou cinco habillé, um monte de Chanel, e queria saber se a gente tinha alguma conta fora para ela depositar. Disse: 'Não, amor! O depósito é nessa conta aqui.' A Daslu é uma Suíça porque não tem nada, nada irregular. Até o cabide para fornecedor tem que ter nota. Posso falar de cabeça fria. Vem gente de fora aqui porque está atrás da edição de moda da Daslu. A gente não tem que se orgulhar? Você viu a revista Estella (do Sunday Telegraph, de Londres)? Meus filhos passaram o Carnaval em Londres e viram, por acaso, numa banca. "Mãe, você está aqui!", eles me ligaram. (Eliana é tida como um dos cinco poderosos players da moda em novos mercados mundiais). Eu havia conversado com a jornalista quando estava em Paris e nem sabia o que ia sair."

WALDEMIR FILETTI/ AG. ISTOÉ

''Foi maravilhoso pisar na areia depois de um ano (após o fim da quimioterapia). Meus pés estavam tão finos que ficaram machucados''

ELIANA, SOBRE O DIA EM QUE COMEMOROU, EM TRANCOSO (BA), A LIBERAÇÃO MÉDICA PARA ANDAR DESCALÇA

Reconhecimento no Exterior
"O Tom Jobim falava isso: no Brasil, as pessoas que fazem muito sucesso os outros questionam o porquê. E eu sinto isso na pele.

Quando viajo pra fora, 15 vezes por ano, sou reconhecida por ingleses, franceses. 'Oi, você é a Eliana da Daslu. Eu já te vi numa matéria.' Eu tenho mais reconhecimento desse cara de fora do que tenho aqui. Lógico que há exceções. Quem convive comigo e, em geral, os clientes têm muito respeito. Eles vêem nossa qualidade."

Poder
"A gente nunca imagina como é poderosa no sentido de influenciar as pessoas. E o poder de dar a volta por cima - nisso, eu fiquei craque. Fiz Ph.D., posso criar um MBA. Mas sempre tive esse poder, graças a Deus. É que as coisas em si, não são tão importantes. Lógico que adoro a Daslu, acho tudo isso importantíssimo, mas os problemas que eu tive não foram a morte. Dou tanto valor para o outro lado que acho que consigo suplantar. Na vida tem sido assim."


Copyright © 2008 - Editora Três Ltda. - Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.
ContentStuff Media Solutions | Gestão de Conteúdo | CMS