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| O autor de Cheiro do Ralo se concentra agora nos tormentos de um só personagem |
O HOMEM é um ser patético. Não há redenção para a mediocridade. A classe média está condenada a uma existência angustiada e sem perspectivas. Essa visão pessimista (ou realista) da condição humana ganha contornos grotescos na obra do quadrinista e escritor Lourenço Mutarelli. Se em Cheiro do Ralo o autor promovia um desfile de tipos derrotados, doentes e sofridos, agora, em A Arte de Produzir Efeito sem Causa (Companhia das Letras, 208 págs., R$ 39,50), ele concentra todos os tormentos em um só personagem, Júnior. Acompanhar sua degradação física e mental é uma experiência perturbadora, porém fascinante.
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Júnior abandona a família e o emprego por causa de uma dupla traição. Abrigado na casa do pai, ele divide o tempo entre o sofá, o bar e as conversas com Bruna, a inquilina do apartamento e a quem o pai espia por um furo no armário. O enredo lança um mistério, com a chegada pelo correio de pacotes anônimos com estranhos recortes, entre eles uma nota de jornal sobre o episódio em que o escritor William Burroughs matou a mulher. É curioso como nem a charada o resgata da apatia, e Júnior entra em uma espiral esquizofrênica. Mutarelli brinda o leitor com um texto preciso, quase gráfico na forma como traduz em palavras a insanidade que consome o protagonista. Um pesadelo bizarro, mas belamente delineado.