Personalidade do ano • Home• Revista 17/12/2007
Gilberto no paraíso
Um dos maiores novelistas do Brasil, o autor comemora o sucesso da novela paraíso tropical, prepara-se para, depois do réveillon em Nova York, começar uma minissérie sobre Tom Jobim e conta que pensa em escrever menos

TEXTO ROSANGELA HONOR - FOTOS ALEXANDRE SANT'ANNA/ AG. ISTOÉ

Gilberto não digita uma tecla do computador antes de fazer um check-up: “É como um atleta, você fica morrendo de medo de pifar”
Quatro vezes por semana, Gilberto Braga pega o elevador do prédio onde mora, no Arpoador, com vista deslumbrante para o Morro Dois Irmãos, para fazer uma das atividades que mais aprecia: caminhar no calçadão de Ipanema em meio a tantos cariocas anônimos, que, assim como ele, fazem daquele hábito um prazer. Ali, ouvindo o barulho do mar e observando as pessoas, o autor se sente à vontade. “Eu não suportaria viver só em guetos. Cercar-me só de ricos, ou de artistas, ou de famosos, ou de gays. Gosto de conviver com pessoas de todos os tipos”, diz, com seu delicioso bom humor. Um dos novelistas mais importantes da teledramaturgia brasileira, este ano Gilberto bateu, mais uma vez, recordes de audiência e prendeu a atenção de milhões de brasileiros que assistiram aos desmandos do vilão Olavo, interpretado magistralmente por Wagner Moura, as falcatruas da impagável Bebel, de Camila Pitanga, e às batalhas da heroína Lúcia, de Glória Pires.

Se o sucesso alcançado pelo folhetim envaidece esse carioca de 61 anos, nascido no bairro de Vila Isabel, ter a sensação do dever cumprido ao final de cada história “é a melhor sensação do mundo”. Acostumado a conviver com a pressão da audiência, Gilberto Braga não digita uma tecla do computador instalado em seu escritório antes de fazer um check-up. “É como um atleta, você fica morrendo de medo de pifar”, compara. Afinal, durante os oito meses em que a novela está no ar, o autor “pára” a sua vida para se dedicar exclusivamente ao trabalho. “Não me permito coisa nenhuma a não ser trabalhar”, diz ele, que aprendeu a conviver com a tensão e não consegue relaxar mesmo depois de 34 anos de carreira. Ver os números do Ibope é uma das primeiras coisas que faz diariamente assim que acorda. “Não perco o sono porque tomo remédio para dormir, infelizmente”, conta. Mas admite que, após tantos, não consegue nem ver uma roupa que usou durante o período em que estava debruçado sobre as teclas escrevendo uma novela. Com as críticas, aprendeu a lidar. “Sou a favor de que todos dêem suas opiniões.”

Brilhante

Ver os números do Ibope é uma das primeiras coisas que faz diariamente assim que acorda. “Não perco o sono porque tomo remédio para dormir, infelizmente”, diz o autor

Autor de 17 novelas, quatro minisséries, entre as quais, sucessos incontestáveis como Dancin’ Days, Vale Tudo, Celebridade, Anos Rebeldes e Anos Dourados, Gilberto Braga já sentiu o gosto do fracasso em 1981, quando escreveu a novela Brilhante. “Foi um susto, as pessoas detestaram e eu estava atrapalhado mesmo”, reconhece. Também ficou triste quando o público rejeitou O Dono do Mundo, que ele achava ótima. “Eu fiz as correções necessárias, mas foi triste”, recorda. Mesmo assim, afirma não ter nenhuma frustração. “Não penso nisso. Ainda mais no horário de verão, em Ipanema? Vira essa boca pra lá!”, brinca ele, que tem aproveitado os primeiros meses de férias para fazer uma das coisas de que mais gosta: caminhar pelas ruas do bairro, comprar presentes para os amigos, ir ao cinema e se exercitar em uma das academias mais badaladas da cidade. Ao contrário de muitas pessoas, freqüentar academia para ele é um prazer. “Adoro bater papo, converso o tempo todo, o personal tem que me controlar para eu parar de falar um pouco”, conta.

Outra delícia para Gilberto Braga é receber amigos em casa. Como não costuma almoçar porque acorda tarde, o novelista se habituou a comer alguma salada por volta das cinco da tarde. Há alguns anos inaugurou um novo horário de almoço para os amigos: marca às quatro da tarde e começa a servir a refeição às seis. “Os mais íntimos acabam ficando até meia-noite e a gente tem a impressão que já são cinco da manhã.” Nos próximos dias, receberá um grupo de escritores para um baião-de-dois nesse horário. Mas, indagado se gosta de se aventurar na cozinha, é taxativo. “Adoro comer, só isso. Detesto aquele papo de quem cozinha bem: ‘você faz um refogado assim, assim’, eu não quero nem saber o que é refogado”, ironiza ele, que adora vinhos, mas, admite, não entende nada sobre o assunto. “Aqui em casa compro os que o vendedor recomenda e me dou bem. Nos restaurantes fico nas mãos do sommelier”, confessa. Conta que teve problemas por conta disso uma vez, em Nova York. “O rapaz me recomendou um que custava 400 dólares. Chamei o gerente e dei esporro. Quem paga 400 dólares por uma garrafa de vinho sabe beber, não pede ajuda”, diz.

"EU NÃO SUPORTARIA VIVER EM GUETOS. CERCAR-ME SÓ DE RICOS, OU DE ARTISTAS, OU DE GAYS. GOSTO DE CONVIVER COM PESSOAS DE TODOS OS TIPOS"
Gilberto Braga

Gilberto Braga está saboreando comoW ninguém seus momentos de férias antes de se debruçar em seu novo projeto, uma minissérie sobre a vida de Tom Jobim. “Começarei a pensar nisso quando estiver mais descansado. Chega de pressão, né? Preciso de um respiro”, diz ele, que pretende passar o Ano-Novo em Nova York com seu companheiro, Edgar Moura. Apesar da tensão vivida a cada trabalho, o autor afirma que aposentadoria é uma palavra que nem passa pela sua cabeça. “De modo algum, só penso em escrever menos”, afirma. Questionado se faz a linha supersticioso, Gilberto Braga brinca com a situação. “Sou tipicamente daquela linha ‘yo no creo em brujas, pero que...’. Enfim, cartesiano, agnóstico.” Assim é Gilberto Braga, como ele mesmo gosta de se definir, “um cidadão comum, aliás comuníssimo”.