Entrevista • Home• Revista 12/6/2007
Domingos de Oliveira
''Gil ainda não conseguiu ser um bom ministro''
ROSANGELA HONOR

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Fotos: ALEXANDRE SANT'ANNA
"Amo meus netos, mas não quero ficar tão ligado a eles, quanto fiquei à minha filha (a atriz Maria Mariana)", diz Domingos de Oliveira

Quando tinha 12 anos, Domingos de Oliveira cultivava um hábito incomum a um menino daquela idade. Entre seus cadernos e livros, um tinha dedicação especial: um caderninho no qual registrava suas críticas de cinema. "Eu era muito besta, nasci com essa mania de escritor", brinca, sentado numa poltrona da sala de seu apartamento no Leblon, no Rio. Este ano, o diretor do cultuado Todas as Mulheres do Mundo comemora 50 anos de carreira com a cabeça cheia de projetos. Um deles é o filme Carreiras - inspirado na peça Corpo a Corpo, de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha - que estréia na sextafeira 22 no Rio, Brasília e São Paulo. Na mesma noite em que estiver sendo exibido nas salas de cinema, o filme poderá ser visto no Canal Brasil. Aos 70 anos, o cineasta, escritor e dramaturgo está mais ativo do que nunca. Até julho, ele concilia o cinema com o show Canções da Minha Vida, apresentado aos domingos. Casado há 25 anos com a atriz Priscilla Rozembaum, pai da atriz Maria Mariana e avô de quatro netos, Domingos acha uma indignidade ter que envelhecer e morrer.

Ainda acha que política não é a coisa mais importante do mundo?
Completamente. É dever absoluto de todo homem trabalhar arduamente para ajudar a melhorar a sociedade brasileira, que é cruel e desigual. E um dos modos menos eficientes de se fazer bem à sociedade hoje em dia é a política. A política está comprovadamente desmoralizada, assim como o Estado. É um caminho que acaba com os melhores homens. Não duvido das boas intenções de Fernando Henrique e de Lula. Eles puderam e podem fazer muito pouco.

Como tem acompanhado os escândalos políticos?
Tenho visto com vergonha e espanto a vulgarização e a oficialização do cinismo. A moral dos governantes é uma coisa que influencia diretamente a moral do povo, e isso é muito triste. Política é um caminho furado. Eu ficaria muito triste se um filho meu quisesse fazer política. Se você quiser fazer bem à sociedade, existem outros modos, muito mais eficientes. Um bom médico faz muito bem à sociedade. Até um grande artista pode fazer modificações na sociedade e mexer com as consciências.

Qual a sua avaliação sobre o ministro Gilberto Gil?
Eles são todos a mesma coisa. Quando você chega lá em cima passa a ser um disputador de verbas. Seja você quem for. Seja Fernando Henrique, Gil ou Lula. Passa a ser um homem de números e incapaz de um planejamento inteligente e realmente democrático, que faz bem a todos e ao País. O Gil, coitado, simpatizo muitíssimo, mas ainda não conseguiu ser um bom ministro.

Houve avanços em relação ao cinema?
Pouquíssimos. Quase nenhum no sentido da racionalização, da criação de um plano inteligente para desenvolver o cinema e o teatro. Os caras só pensam em poder. O poder é afrodisíaco e corruptor. Não digo que Gil seja um corrompido, ele não está podendo fazer nada. O nosso País não dá nenhuma importância à arte. O governo Lula acha que arte é uma coisa secundária e sem importância social, a julgar pela verba que é repassada ao Ministério. A arte é indispensável tanto quanto os hospitais e a saúde pública.

Qual a sua proposta?
Armar condições para que o cinema brasileiro seja viável, que sua renda pague e até ultrapasse seu custo, se o filme for bom. Defendo o caminho do edital do filme pronto: eu faço filme do meu bolso, se meu filme for bom o governo me apóia, paga minhas dívidas. Se meu filme for ruim, me manda tomar banho. Isso é mais seguro do que o que se faz agora. Você trabalha não para agradar ao público, mas ao produtor, ao patrocinador. Isso é uma coisa doentia que se instalou no mercado. Você oferece filme barato para uma distribuidora, uma produtora, eles riem na sua cara. Não é interessante que o filme seja barato, mas que o filme seja caro para que eles possam tirar na produção.

Por que optou por falar das relações entre homem e mulher, diferentemente dos cineastas de sua geração?
Todos eles estavam fazendo o dever de casa, fazendo cinema político. Era compreensível, naquele tempo se podia acreditar que seria possível se fazer uma sociedade mais justa através da revolução, depois ficou claramente demonstrado que o buraco é mais embaixo, que não é bem assim. Nunca pude segui-los porque as relações humanas, particularmente a relação homem/ mulher, mas não só, são as coisas mais importantes que o homem tem. Elas englobam a política, são muito maiores. Tenho um sentimento muito romântico nesse sentido. Até hoje tenho a sensação de que, quando um casal que realmente se ama vai para a cama, a terra treme.

A relação "homem/mulher" mudou muito nos últimos anos?
Minha geração assistiu à falência do casamento como solução de vida definitiva. Fala-se muito da monogamia seriada, que é você casar várias vezes. Estudo isso desde que me conheço. Já fui aos céus e aos infernos por amor, me casei apenas cinco vezes. Gostaria de ter me casado 10. Me dou muito bem com as mulheres, tenho uma intimidade com elas que não sei bem de onde vem. Dizem que quando converso com uma mulher, a quem fui apresentado na mesma hora, converso como quem já comeu. As pessoas foram ficando cada vez menos capazes de entender um ao outro, mais individualistas. O amor exige a plenitude, e hoje é difícil ter isso.

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