 |
12/03/2001
|
ESPECIAL
Os trinta dias de choro de Núbia Ólive
| Silvana
Garzaro |
 |
“ É
a história mais triste da minha vida. Aos 14 anos, meu pai descobriu
que eu não era mais virgem. Fui tirada dos estudos e praticamente
trancada na fazenda dele. Aos 16, fui morar num pensionato, em Uberaba.
Era bonita, andava de mobilete e tinha um namorado 32 anos mais
velho.
Certo
dia, em 1991, quando eu tinha 17 anos, foi noticiado que havia um
caso de aids em Uberaba e que suspeitavam de uma morena que andava
de shortinho, dona de uma mobilete. Uma equipe de tevê invadiu o
pensionato me acusando de transmitir a doença para outras pessoas.
Chorei e gritei muito. Imagina, vivia numa fazenda! Nem imaginava
o que era aids. Disseram que não colocariam a matéria no ar se eu
fizesse o teste. Topei.
O
sangue seria levado para Belo Horizonte e o resultado sairia em
30 dias. Fui discriminada em Uberaba. Era xingada na rua, não fui
mais ao colégio e tive de vender a mobilete. Foram 30 dias de choro.
Fiquei preocupada em estar com o vírus. Tinha tido relações com
dois garotos e não havia me cuidado. Quando fui ao laboratório saber
o resultado do exame, o envelope estava aberto. Meu caso virou uma
questão pública. O teste deu negativo, mas levei um sermão do médico,
uma aula do que era aids.
A raiva
que senti de quem me acusou era maior que a alegria de estar com
a saúde em dia. Liguei para o repórter que me caluniou. Ele me pediu
desculpas. Se fosse hoje, eu processava. Já pedi exame anti-HIV
para algumas pessoas com quem me relacionei. E já houve alguém que,
antes de me dar um beijo, me pediu um exame. Ele tinha 56 anos e
eu, 22. A minha reação não foi: ‘Pô, o cara tá desconfiando que
eu sou suja, que tenho aids’. Seria ignorância. Fiz os exames, transamos
uma semana depois e ficamos juntos por seis meses.
Há
quatro anos correu um boato nos bastidores do meio artístico de
que eu estaria com aids. Havia emagrecido, estava com 51 kg. Ria
dos comentários. Sabia que não fazia parte do grupo de risco. Já
havia feito parte, mas na adolescência. Saí nua em 17 capas de revistas.
Nas duas novelas em que participei apareci nua. Sou praticamente
rotulada no sexo. Mas, graças a Deus, nunca tive uma doença venérea.”
Núbia
Ólive, 27 anos, modelo, solteira
<<voltar
|