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05/02/2001
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Solidariedade
ZILDA
ARNS
“Merecemos o Nobel”
Ela reduziu a desnutrição e a mortalidade infantis,
é candidata do Brasil ao Prêmio Nobel da Paz e agora
entra em guerra contra o aborto
Cecília
Maia de Curitiba
| Felipe
Barra |
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“Nossos voluntários quase não têm o que comer e ainda
distribuem com os que têm menos” |
Indicada
ao Prêmio Nobel da Paz, a coordenadora da Pastoral da Criança,
Zilda Arns, 66 anos, saca uma de suas frases preferidas, desde que
começou o trabalho com crianças desnutridas, há
18 anos: A solidariedade é a chave de tudo.
Para
quem duvidou do sucesso do programa baseado no voluntariado, ela
reuniu 145 mil voluntários em todo o País que, a cada
mês, atendem um milhão de famílias e acompanham
um milhão e meio de crianças de zero a 6 anos.
É
um verdadeiro trabalho de formiguinha, que reduziu a desnutrição
e a mortalidade infantis a menos da metade dos índices nacionais
nas comunidades atendidas pela Pastoral.
Viúva,
médica pediatra e sanitarista, irmã de três
freiras e dois padres, dona Zilda tinha tudo para seguir a carreira
religiosa. Sou uma missionária e gosto da minha liberdade,
diz ela, que divide seu tempo entre a Pastoral e os cinco filhos
e nove netos.
Pela
primeira vez, a coordenadora da Pastoral da Criança se prepara
para entrar numa briga. Quer mudar a decisão da última
Conferência Nacional de Saúde que aprovou em dezembro
uma moção em favor do aborto. Em Curitiba, onde fica
a sede da Pastoral, Zilda Arns recebeu Gente para
a seguinte entrevista:
A
Conferência Nacional de Saúde, que aprovou a moção
a favor da legalização do aborto, reuniu 2.200 profissionais
da área. Por que a senhora quer mudar o resultado?
A conferência estava marcada para terminar às cinco
da tarde. Várias delegações estaduais já
tinham ido embora. Restavam 300 pessoas e eles colocaram em votação
tema tão polêmico. Foi uma situação previamente
armada, uma tramóia grande. Estou pedindo que o Congresso
promova um plebiscito para rediscutir o assunto e vou denunciar
o que aconteceu ao Conselho Nacional de Saúde.
A
posição da igreja contra os métodos anticoncepcionais
não está ultrapassada?
A Igreja tem como objetivo preservar a vida. Por isso apóia
o planejamento familiar com a anticoncepção natural.
Quem
é voluntário no Brasil?
Noventa por cento dos voluntários são pobres e a grande
maioria, mulheres. São pessoas que quase não têm
o que comer e ainda distribuem com os que têm menos. Temos
também mulheres da classe média no trabalho de capacitação.
Algumas delas viviam com enxaquecas, dores nas costas e várias
outras doenças. Tudo acabou depois do trabalho na Pastoral.
Acho que elas não tiveram mais tempo para reclamar da vida.
As
crianças das classes média e alta precisam de uma
pastoral para cuidar do emocional?
Sim, e muito. Elas estão muito egoístas, ganham tudo
o que querem e não têm limites. Muitos pedem para que
a gente estenda o atendimento da Pastoral para humanizá-las.
Há três anos a direção mundial dos escoteiros
me pediu para que a Pastoral fosse ponto de estágio para
os escoteiros. Começamos a usá-los nas favelas, ajudando
nas tarefas, brincando com os pobres e apresentando teatros de bonecos.
No início os pais levavam os filhos com medo de eles serem
maltratados. Hoje os escoteiros estão ensinando as crianças
pobres a serem lobinhos. Essa experiência, desenvolvemos em
Curitiba e Fortaleza. Mas não pretendemos ampliar a Pastoral
para além das comunidades pobres.
| Felipe
Barra |
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| “Nenhum
governo colaborou tanto como o atual" |
A
senhora esteve no Timor Leste, onde também será implantada
uma pastoral da criança.
O problema da criança desnutrida aqui já não
é suficiente?
Nós estamos apenas transferindo tecnologia e não recursos.
Ou seja, formamos líderes comunitários para dez países
da África e da América do Sul. Em todos eles o índice
de mortalidade infantil foi reduzido.
Qual
é o segredo do sucesso?
Um deles é a mística da Pastoral, que une as pessoas
com o objetivo de fazer alguma coisa para que o mundo seja melhor.
Outro ponto importante é o custo. No último ano, gastamos
86 centavos de real por criança/mês.
O
presidente Fernando Henrique Cardoso é acusado de dar pouca
importância à área social. A senhora concorda?
A pastoral da criança vai fazer 18 anos e tem convênios
com o governo desde 1997. Nenhum governo colaborou tanto como o
atual.
O
ministro José Serra, um dos maiores defensores da indicação
da Pastotal ao Prêmio Nobel, é um dos candidatos à
Presidência da República. A pastoral vai se engajar
nessa campanha?
É verdade que o ministro dobrou os nossos recursos. Ele é
muito inteligente e sabe ver o que vai dar certo. Mas a Pastoral
é suprapartidária e vai continuar assim. Somos independentes.
A
senhora quer ganhar o Nobel?
Se for para mostrar o exemplo para o mundo, acho que merecemos,
porque está dando certo em todo o País. Estamos promovendo
a educação para a paz.
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