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Marcos Valadão Rodolfo, o Nasi

05/02/2001

“Sou uma experiência viva do inferno”
O vocalista do Ira! conta como superou as drogas e
diz que a sociedade não está preparada para quem
se recupera da dependência

 OUÇA TRECHOS DA ENTREVISTA
ROCK IN RIO POLÊMICA IMATURIDADE
EXPOSIÇÃO GLOBO INFÂNCIA
REFERÊNCIAS NOME ROCK
MÚSICA PUNK TRANSA
SUBMUNDO LUTA FUTURO
FAMÍLIA PRESENTE

Rodrigo Cardoso

Silvana Garzaro

Nasi passeia de manhã com o cachorro na USP e curte a boa fase

O paulistano Marcos Valadão Rodolfo, 39 anos, é um brigador. Na adolescência brigou na rua para defender o irmão mais novo. Na escola, a briga era com diretores que tentavam impor regras. Nessa época, era comum vê-lo com uma camisa da banda Sex Pistols com a suástica estampada. Passou a ser conhecido como Nasi, em alusão a nazismo.

Como vocalista da banda Ira!, Nasi brigou com a Globo. A maior batalha vivida pelo músico, porém, foi contra a dependência de drogas. Por causa do vício do vocalista, o Ira! sumiu do mapa por uns tempos. Nasi internou-se numa clínica para dependentes químicos e venceu.

Pai de duas meninas, Carolina, 12 anos, e Melody, 10, ele está há quatro anos de cara limpa. Acorda às 8h, vai à padaria da esquina tomar café com leite e comer biscoito. De lá, ruma com o cachorro para a pista de atletismo da USP onde se exercita.

De volta à casa onde mora sozinho — ele nunca se casou e há dois anos namora uma engenheira elétrica — ele curte a boa fase do Ira!: são vinte anos de carreira, 10 CDs e uma dúzia de shows todo mês.

Como a música chegou até você?
Tive hepatite aos 7 anos. Ouvia música porque não podia levantar da cama. Na adolescência, me apaixonei pela Suzi Quatro (cantora de rock). Ainda não tinha transado, mas aquela mulher me enlouquecia! Minha primeira transa foi com 14 anos. Como acontecia com a maioria dos garotos, fui à zona e passei um tempo sem querer sair de lá.

Era muito moleque na adolescência?
Cresci brigando na rua. Tinha a gangue do Barão, Barãozinho, Macau, a turma da Japurá, da rua Paim. Fiz kung-fu e box. Me saía bem.

E, agora, perto dos quarenta, sobrou um pouco da molecagem?
No rock existe algo vampiresco de sugar a juventude alheia. Tem de ser moleque para fazer o que eu faço.

Como foi o Rock in Rio? Desde o Hollywood Rock de 1987, quando vocês brigaram feio com os organizadores, não se apresentavam em festival.
Entramos meio tímidos no Rock in Rio, mas roubamos a cena de muita banda. No Hollywood Rock, deveríamos ter feito uma hora e meia de show, mas os organizadores pediram para encerrarmos antes. Despirocamos. O Edgar quebrou a guitarra, eu falei um monte no microfone, destruímos o camarim. Vieram três seguranças para cima de mim, um barraco.

Silvana Garzaro

“Quando você usa drogas, as pessoas falam: ‘É o jeitão dele’"

O Ira! também ficou fora da Globo um bom tempo.
Fomos fazer um programa do Chacrinha e eles queriam que a gente se apresentasse com um gorro de Papai Noel na cabeça. Era 1986 e o programa já estava em decadência. O Leleco (José Aurélio Barbosa de Medeiros, filho de Chacrinha) era um jabazeiro tremendo. Para tocar no programa do pai dele, o Leleco, que era o diretor, exigia que a banda se apresentasse de graça numa casa de shows qualquer no subúrbio carioca. O programa do Chacrinha funcionava para cobrar jabá das gravadoras e fazer os artistas tocarem de graça para o Leleco embolsar uma grana. Do camarim vimos o Biafra tomando um esporro do Chacrinha porque tirou o gorrinho no meio da música. Resolvemos ir embora. Aí, vinha umas velhinhas que trabalhavam no programa falar: “Olha o velhinho, ele tá tão velhinho”. Só faltaram dizer: “Ele tá morrendo, faz essa caridade”. Uma coisa muito baixa, sabe?

O radicalismo também acompanhou sua trajetória pessoal?
Na minha escola, o aluno era suspenso por andar de mão dada com a namorada. Também era obrigado a usar um avental branco até o joelho. Rasguei o meu avental inteiro, pichei e o preguei com alfinetes. Foi um tal de neguinho pichar avental depois disso.

Como foi a decisão de se internar numa clínica de desintoxicação?
Engordei muito numa fase junkie, de 1990 a 1997. Minha vida estava um caco. Estava inchado, sem dinheiro, devendo para Deus e o mundo, cantando mal. Mas o que me levou a pedir ajuda foram meus fracassos emocionais. Com a mesma velocidade que conquistava um novo amor, eu perdia. Na perda de uma namorada que amei muito, em 1997, resolvi me internar.

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