 |
22/01/2001
|
Política
Na
saúde e na doença
Com o alastramento do câncer, Mário Covas faz constrangedoras aparições
públicas e tem seu ponto de apoio na mulher Lila Covas, uma devota
de Nossa Senhora que já enfrentou a morte de uma filha
Cesar
Guerrero
| Fotos:
Piti Reali |
 |
|
Terça-feira
16 de janeiro de 2001 10 horas Palácio dos Bandeirantes
|
Depois
de se tornar um dos raros políticos a assumir com transparência
sua doença, o governador de São Paulo, Mário
Covas, está transformando a luta contra o câncer num
drama público. Decidido a não se afastar das funções
oficiais para tratamento de saúde, ele foi informado na segunda-feira
15 que a doença está se expandindo e, numa nova fase,
atingiu a meninge, a membrana que envolve o cérebro e a medula.
Como
se corpo e mente estivessem em seus estados normais, Covas participou
da reunião semanal do Programa Estadual de Desestatização,
às 10 horas da terça-feira 16, no Palácio dos
Bandeirantes. Parte rotineira de sua agenda, a reunião se
transformou em mais uma exposição pública da
doença. Ele chegou à reunião em cadeira de
rodas e assim que se viu alvo de cliques de máquinas fotográficas
e burburinhos de repórteres, teve o primeiro rompante: Eu
estou para morrer, pode escrever aí no jornal.
Ao
final da reunião, Covas se esforçou para deixar a
cadeira de rodas. Em vão. O primeiro passo foi trêmulo.
O governador titubeou. E não passou daí. Seu corpo
só não parou no chão porque três policiais
militares da segurança oficial e uma assessora interromperam
o que parecia ser inevitável. Pegaram Covas na marra e o
colocaram de volta na cadeira de rodas. Vocês estão
arrancando o meu braço, esbravejou Covas.
Atitudes
assim, só reforçaram o que se começa a discutir
em público: ele deve deixar o cargo e se dedicar somente
ao combate à doença? Covas é um guerreiro.
Ele nos dá uma lição de vida, argumenta
Geraldo Alkmin, vice-governador paulista, que assume o cargo em
caso de licença de Covas. Não há razão
para ele se afastar.
Covas
compartilha da mesma opinião. Mas Lila Covas, com quem divide
sua vida há mais de meio século, começa a ponderar
a questão. Ela é favorável a que ele continue
no batente. De forma, porém, mais amena, sem que cada ato
público do marido humilhe sua dignidade.
Lila
deu demonstrações de sua posição na
ensolarada manhã de quarta-feira 10, no mesmo Palácio
dos Bandeirantes. Covas participava da cerimônia da nomeação
de Saulo de Castro Abreu Filho para a presidência da Febem.
Com fortes dores de cabeça, ele perdeu a linha de raciocínio
e fez um discurso desconexo. Lila foi imperativa: Agora chega.
Assim já é demais. A reação de
Covas foi imediata: Ela sempre mandou em mim.
É
verdade. Para arrastar alguém com o perfil inflexível
dele, somente Lila. Ela conseguiu outro feito no entardecer do domingo
14. Lila convenceu o marido a apreciar uma rotina de bandos de macacos-prego
e de bugios que saem à procura de abrigo numa ou noutra árvore
para passar a noite. Isso acontece todas as tardes no Horto Florestal,
onde está o Palácio de Verão do Governo e local
de moradia do casal desde o início do ano.
Como
namorados, Covas e Lila perambularam de mãos dadas pela mata,
admirando a cena ecológica. Assim, Lila tem sido o alicerce
de Covas. Ela é tão importante no tratamento
dele quanto os medicamentos, diz David Uip, infectologista
e médico particular do governador.
Quem
convive com a primeira-dama de São Paulo sabe que Lila não
é de se esmaecer frente a algum problema grave em família.
No reveillón de 1976, a filha do casal, Silvia, então
com 19 anos, morreu em um acidente de moto. Lila aceitou a perda
e continuou tocando a vida ao lado do marido, que estava com os
direitos políticos cassados pela ditadura militar e trabalhava
em um escritório de engenharia no centro da cidade.
A católica
Lila procurou conforto na devoção a Nossa Senhora
Aparecida. É movida por esta fé que ela pensa em fazer
nos próximos dias uma peregrinação de 170 quilômetros
ao lado do padre e amigo da família, Rosalvino Vinayo, para
a Aparecida do Norte, em São Paulo. Não quero
que Dona Lila ande o trajeto todo, diz Vinayo.
NAMORO
NO SOFÀ Florinda Gomes, seu nome de batismo, e Mário
Covas se conheceram no colégio. Na ponta do lápis,
equivale a dizer que os dois convivem há 54 anos. Ela foi
assistir a um jogo de basquete na escola em que estudava em Santos,
litoral sul de São Paulo. Covas era um dos jogadores. Lila
tinha 14 anos. Ele, 16. O namoro durou quase oito anos, num sofá
da casa de Lila sob os olhos da família. O casamento aconteceu
em 1954. Além de Silvia, tiveram mais dois filhos, Renata,
hoje com 45, e Mário Covas Neto, 41, o Zuzinha.
Como
mulher de político, Lila se envolveu com trabalhos de assistência
social. É presidente do Fundo Social de Solidariedade do
Estado. Só mudou sua rotina, quando Covas foi operado em
1998 para enfrentar o câncer. Covas teve a bexiga extraída.
E uma outra foi reconstituída, passando a fazer as funções
da original.
próxima>>
|