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Governo
O
poder das secretárias do poder
Marta
Morosini
| Felipe
Barra |
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(de cabelo escuro) e Fátima: equilíbrio e proteção |
Para
manter a engrenagem da rigorosa rotina dos donos do poder, lá estão
elas. Sorridentes nas horas certas, concentradas para que tudo esteja
perfeito, dissimuladas quando necessário e até políticas, as secretárias
do topo do Executivo, Legislativo e Judiciário têm seus poderes.
Seja
para guardar o segredinho de um hábito do chefe, seja para resguardá-lo
de uma ligação incômoda.
Eis
as mulheres que zelam pelo trabalho do presidente Fernando Henrique
Cardoso, do presidente da Câmara, Michel Temmer, e do presidente
do Supremo Tribunal Federal, Carlos Velloso.
Flores
equilibram gabinete de FHC
Sobre a mesa das secretárias Fátima Borges, 45 anos,
e Soraia Gomes, 35 anos, há um arranjo floral de ikebana,
para equilibrar a energia do ambiente. Perto da sala do chefe, o
presidente Fernando Henrique Cardoso, uma imagem de São Judas
Tadeu. Antes ateu, FHC disse a elas que é devoto do santo
das causas impossíveis.
Para
Soraia, que o secretaria de manhã, e Fátima, que o
acompanha à tarde, haja equilíbrio para tantos problemas
que chegam ao Planalto. Em dias agitados, respondem a mais de 50
telefonemas. O
filho Paulo Henrique Cardoso e a filha Beatriz passam por elas para
falar com o pai. Ligações dos presidentes do Supremo
Tribunal Federal, do Senado e da Câmara são logo passadas
ao chefe.
Fátima
está com FHC há oito anos, desde quando era ministro
das Relações Exteriores. Ele é acessível,
diz. Funcionária do Itamaraty, ela o seguiu no Ministério
da Fazenda e na campanha presidencial. Nessa fase, era tanto serviço
que uma das filhas até repetiu de ano na escola. Funcionária
do Ministério da Fazenda, Soraia é do segundo mandato.
A opção de FHC por passar as manhãs no Alvorada
a ajudou na amamentação da filha.
Tão
perto do poder, parece que vivem com mordomias. Não usam
carro oficial e o salário não passa de R$ 2.500 brutos.
Por decreto de FHC, podem ganhar presente de até R$ 100,00.
O que a gente mais ganha são flores e agendas,
diz Soraia.
| Fotos:
Felipe Barra |
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| Cristina
mantém uma gaveta abastecida de bombons |
O
jogo de cintura de Cristina na Câmara
Cristina de Fátima Nunes Queiroz, 45 anos, diz que tem
513 chefes, o número de deputados federais que se remetem
à Presidência da Câmara, onde trabalha. Depois
de assessorar o deputado Luís Eduardo Magalhães, do
PFL, ficou na função com Michel Temer, do PMDB.
Ela
tem jogo de cintura político. São dois estilos
diferentes, diz. Luís Eduardo era mais informal,
gostava de contar os casos do dia, as viagens e era mais temperamental.
O
deputado Temer é mais discreto, não faz comentários,
mas é gentil no trato com os funcionários.
Em
27 anos de Câmara, é a primeira vez que Cristina dá
entrevista. Passou por comissões e lideranças de partido
e hoje, na chefia de gabinete, ganha R$ 6.000. Tem dois filhos.
Eduardo, estudante de direito e Guilherme, de 16 anos. O casamento
de quinze anos não resistiu às infindáveis
sessões da Constituinte, e acabou quando Cristina assumiu
o cargo na Presidência da Câmara. Gosto
de trabalhar aqui porque, de certa forma, a gente também
faz política, diz. É preciso ter habilidade
e informar tudo da forma mais precisa possível.
Decorar
o gabinete está longe de ser uma das atribuições
de chefe de gabinete, mas ela mostra com satisfação
os objetos que escolheu para enfeitar a sala do deputado Michel
Temmer. Ele elogia quando há flores, como quando Cristina
fez aniversário e recebeu inúmeros arranjos. Outro
cuidado bem recebido pelo presidente do Legislativo é um
segredo guardado na gavetinha de sua mesa. Cristina a mantém
sempre abastecida com chocolates, que o deputado procura pelo menos
uma vez por dia.
| Fotos:
Felipe Barra |
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| Ana
é secretária de Velloso há quase 20 anos |
Ana
quebra sisudez do Supremo
Todas as quartas e quintas-feiras, o presidente do Supremo Tribunal
Federal, ministro Carlos Velloso, almoça apreciando o jardim
de inverno que ocupa a frente do gabinete. Na saída da sala
fica a mesa de Ana Carvalho, 59 anos, sua secretária há
quase vinte anos.
Ana
providencia a compra de ingredientes para os almoços, preparado
não só para o ministro mas, para os funcionários
que contribuem com R$ 50,00 por mês. Foi a solução
para ninguém ficar sem refeição quando o expediente
começa de manhã e acaba lá pelas 22h.
Com
um salário bruto de R$ 3.000, Ana conhece bem o ritmo do
chefe. Ele lê todos os livros que recebe, fora os processos
a serem apreciados e os artigos e livros que escreve. Por
isso, tem irritações recorrentes nos olhos e precisa
ser lembrado de que deve usar colírio ou de que é
hora de voltar ao oftalmologista. Para quebrar a sisudez do Supremo,
ela pôs sobre a mesa um porta-retrato com os símbolos
do Atlético Mineiro, time do ministro.
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