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Marechal
Waldemar Levy Cardoso, 100 anos
O
herói brasileiro da Segunda Guerra
O
marechal, que lutou na revolução de 30 e salvou mais de 100 vidas
na última guerra mundial, está próximo de vivenciar três séculos
Vivianne
Cohen
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André
Durão;Arquivo Pessoal |
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O
marechal Waldemar Levy com a farda de coronel (no destaque),
em 1953 |
O marechal
Waldemar Levy Cardoso guarda no armário do quarto a farda,
o bastão e uma miniatura de canhão como lembranças
dos 48 anos em que serviu ao Exército. Aposentado há
mais de três décadas, aos 100 anos, completados na
segunda-feira 4, ele ainda mantém a autoridade militar.
Morador
de um apartamento em Copacabana, onde vive com a mulher, Maria da
Glória de Oliveira, 94, é ele quem comanda o cozinheiro,
o copeiro e o motorista. Faz as compras de supermercado e paga as
contas nos bancos. Vocês esperavam encontrar um velho,
né?, pergunta ele ao receber a equipe de Gente.
A boa
saúde, que lhe permite até consumir feijoada e batatas
fritas, nem sempre foi de ferro. Nos seis primeiros meses de vida,
o marechal Cardoso teve todas as moléstias infantis, inclusive
a peste bubônica. Desenganado, foi abandonado pelos médicos
e seus pais recorreram à homeopatia. Foi um milagre,
muitos morriam vítimas da doença, conta.
Uma
de suas maiores alegrias quando menino foi ver a instalação
do telefone em sua casa. Era de parede, com fone de gancho.
A
telefonista atendia a ligação e perguntava: Número
por favor. Também se orgulha de ter assistido
ao cortejo fúnebre do Barão do Rio Branco, em 1912.
| Arquivo
Pessoal |
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| Waldemar
Levy Cardoso era cadete em 1917 |
A vocação
militar começou a se definir na infância. Adorava cantar
diariamente, no pátio da escola pública, os hinos
Nacional e da Bandeira no início e no fim das aulas. Meu
pai me dizia: Esse menino vai ser militar. Nas
férias escolares, freqüentava a praia de Santa Luzia,
no Flamengo. Lá, aprendeu a nadar e conheceu Maria Lenk,
a primeira mulher sul-americana a participar de uma Olimpíada,
em 1932.
Aos
13 anos, ingressou no Colégio Militar, em Barbacena, de onde
só saiu aos 17 para a Escola Militar, em 1918. Naquele ano,
o marechal Cardoso lembra que houve um surto de gripe espanhola
e suas aulas foram então suspensas para que os alunos não
corressem risco de contrair a doença. Foram dispensados dos
exames e aprovados por decreto. Três anos mais tarde, uma
epidemia de meningite assustou os quartéis. Eram feitas
três revistas diárias com inalação nasal
e tomada de temperatura, conta.
HERÓI
DE GUERRA Como tenente, o marechal participou da Revolução
de 30. Vitorioso, ganhou dois presentes. Foi promovido a capitão
e recebeu de sua mãe uma garrafa de champagne Veuve Clicquot.
Em setembro de 1944, partiria para uma nova batalha, deixando os
três filhos, Myriam, Cláudio (hoje com 72 e 73) e Roberto
(já falecido) com a mulher.
Comandante
do 2º escalão de embarque do 1º Grupamento, viajou
a bordo do navio transporte norte-americano Gen Meigs rumo ao teatro
de operações da Itália, para lutar na Segunda
Guerra. Viu de perto os horrores da guerra. Estava tudo destruído,
lembra. A viagem mais difícil, entretanto, foi para Ibiza,
em embarcações tipo LCI (Landing Craft Infantry).
Foi horrorosa. Havia contínuos blackouts e todo mundo
enjoava.
A gente chamava de lança comida inteira (LCI),
diz, rindo.
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Arquivo
Pessoal |
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Com a turma da escola de armas em 1935 |
Sua
primeira missão na guerra foi apoiar as tropas americanas
num ataque a Monte Castelo. Ele é capaz de lembrar as instruções
exatas do comandante americano. O major me informou pelo rádio:
Impossível qualquer movimento; uma pá que se
eleve será crivada de balas.
Nos
11 meses na Itália, os contatos com a mulher eram mantidos
por cartas, que ele recebia toda semana. Só ouviu a voz de
Glorinha quando estava em Francoline à espera do navio que
o traria de volta ao Brasil. Foi quando avisou, por rádio,
o dia em que chegaria. Teve que usar um código: a data do
aniversário do filho Roberto.
O
Marechal Cardoso foi um herói da guerra. Certa vez, visitava
uma das baterias de canhão e percebeu que os soldados não
haviam feito os buracos da trincheira. Zangado, obrigou que eles
cavassem e se enterrassem neles. Minutos depois, houve um bombardeio
do
inimigo alemão. O tenente me procurou e disse que devia
a vida de cem homens a mim, conta, orgulhoso.
| Arquivo
Pessoal |
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| No
Egito, no final de 1945, ao término da Segunda Guerra Mundial
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O Marechal
Cardoso assumiu vários cargos no poder, entre eles o de chefe
do gabinete do ministro da Guerra durante o governo Costa e Silva.
Conviveu com Getúlio Vargas, Juscelino Kubitscheck e Jânio
Quadros.
Deste
último, guarda boas histórias. Uma delas ocorreu quando
era governador de São Paulo, em 1955. Por ocasião
da parada militar do dia 7 de setembro, o marechal Cardoso perguntou
a Jânio qual uniforme ele queria usar no palanque: ou os oficiais
com o primeiro uniforme e o governador de fraque e cartola ou os
oficiais de terceiro uniforme e ele em traje de passeio.
Jânio
escolheu a primeira opção. No dia da parada, o governador
apareceu com traje de passeio e chapéu de feltro muito surrado.
À tarde, na entrevista à imprensa, ele disse
que queriam que ele usasse fraque
e cartola, lembra.
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Arquivo
Pessoal |
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E seu crachá como ex-presidente da Petrobrás |
Em
março de 1969, foi nomeado por Costa e Silva para a presidência
da Petrobrás e permaneceu no cargo até novembro. Apoiou
a tomada do poder pelos militares, mas diz que era um democrata.
Tive que aceitar na época. Houve exageros, mas o Brasil
caminhava para o comunismo.
O
marechal, que nasceu no século passado, faz planos para viver
no século XXI. Espero viver alguns dias do próximo
século.
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