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Por
onde anda
Martha
Rocha
O mito doma a crise
A ex-miss Brasil vence o câncer de mama e enfrenta aperto financeiro
por causa do calote de um cunhado
Vivianne
Cohen
| André
Durão |
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A pintura substituiu as sessões
de terapia e seus quadros são
sua fonte de renda |
Todos
os dias, Martha Rocha, 64 anos, acorda cedo para pintar. Passa horas
em frente ao cavalete armado na apertada sala de estar do apartamento
de dois quartos alugado, onde mora, em Copacabana.
À
noite, diverte-se na casa de uma amiga jogando baralho. Volta cedo
para casa, mas só dorme depois da meia-noite, hábito
herdado dos tempos em que era uma das mulheres mais cobiçadas
do País.
Quarenta
e seis anos depois de ter perdido, por apenas duas polegadas, o
título de Miss Universo, em Long Beach, nos EUA, a baiana
Martha Rocha mantém uma rotina pacata. Parou de freqüentar
as festas que reuniam a nata da sociedade carioca, vendeu a ampla
cobertura da Avenida Atlântica e vive sem luxos.
A
bancarrota veio com a falência, em 1996, da Casa Piano, de
seu ex-cunhado, Jorge Piano, onde estava aplicada sua fortuna. Quando
soube que Jorge fugira para o Exterior após ter dado o calote
em metade da sociedade carioca, Martha desmaiou.
Começava
ali o calvário da ex-miss, que enviuvou aos 23 anos do primeiro
marido, o empresário Álvaro Piano, pai de dois de
seus filhos Álvaro Luiz, 43, e Carlos Alberto, 42.
Ele morreu tragicamente num acidente de avião na Argentina
em 1960. Minha vida não foi um mar de rosas por eu
ter sido miss, afirma.
Desde
que perdeu suas economias, Martha se mudou cinco vezes. Da cobertura
com vista para o mar, passou para um apartamento menor, na Lagoa.
Depois, morou num apart-hotel em Ipanema. Seus móveis ficaram
guardados na casa de uma amiga, na Barra da Tijuca.
O
aumento no aluguel fez com que optasse por um imóvel na Rua
Paula Freitas, em Copacabana. Hoje,
mora num menor, na mesma rua, alugado por cerca de R$ 550. Tenho
a minha imagem. Não posso convidar as pessoas para me visitarem
num apartamento como esse, diz. Infelizmente, me lembro
do Jorge todos os dias.
Não
foi só o aperto financeiro que Martha teve de driblar. Em
junho, descobriu um câncer na mama esquerda. Ela atribui o
surgimento da doença aos aborrecimentos decorrentes do calote
do ex-cunhado. O exame de toque revelou o nódulo e uma mamografia
constatou que o tumor era maligno. Um mês depois, internou-se
na Clínica São Vicente para retirá-lo.
Nessa
época, isolou-se dos amigos e da família. Quis
ficar sozinha porque estava muito bem. Não me abati por causa
da doença, disse ela, que se recusou a ficar sob os
cuidados de uma enfermeira e fazia seus próprios curativos.
A cirurgia foi seguida por 25 aplicações de radioterapia.
Sentia muita fraqueza, sonolência e ficava irritada,
lembra. Hoje, está recuperada.
A Martha não merecia sofrer tudo o que sofreu. Mas
ela é forte, diz a amiga Ilka Bambirra, com quem joga
buraco. Não por acaso, Martha escolheu receber a equipe de
Gente na tarde de sexta-feira 28, dia em que a faxineira,
com ela há 32 anos, vai à sua casa. Na sala, não
há mais espaço para o piano que tocava e do qual teve
de se desfazer. A persiana fica sempre fechada porque a ela não
gosta da vista dos prédios da frente.
PINTURA é TERAPIA Apertado entre um móvel e
outro, fica o cavalete em frente ao qual Martha se posta durante
grande parte do dia. Certa vez, chegou a passar oito horas pintando
sem interrupção. A paixão pelas tintas teve
início em 1993, quando foi convidada a pintar um quadro para
uma campanha do Unicef. Gostou da experiência e passou a freqüentar
o ateliê de um amigo pintor.
Em
1997, vendeu uma de suas telas, que valem entre R$ 1 mil e R$ 2
mil, para o então candidato a governador do Rio, Anthony
Garotinho. Em novembro, Martha embarca para Miami, onde realizará
uma exposição na churrascaria Porcão, organizada
pelo produtor Luiz Augusto Diogo de Souza. Lá, reencontrará
a filha Cláudia, 35, fruto da união com Ronaldo Xavier
de Lima, o segundo marido, com quem viveu durante 13 anos. A pintura
substituiu as sessões de terapia, que freqüentou desde
os 36 anos. Além de distraí-la, os quadros também
são sua fonte de renda.
As
crises fizeram com que a eterna miss mudasse seus valores. Ela lembra
que na década de 60 não trocava as noitadas por nada.
Era só me ligarem que já estava na rua. Adorava
ver o sol nascer. Hoje, prefere reuniões na casa de
amigos e os jogos de baralho. As jóias e os vestidos também
não têm mais tanta importância em sua vida.
A
vaidade, porém, continua a mesma. Não saio para
ir à esquina sem colocar batom e blush. A mulher que
seduziu o País com sua beleza garante conviver muito bem
com as rugas da velhice. Se eu não envelhecesse, me
sentiria mal. Hoje, a minha beleza está no que sou.
| Fotos:
Álbum de família |
 Em
1954, quando foi eleita miss Brasil (1). Elegante, no
Jockey Club de São Paulo alguns meses depois de ganhar o título
(2). No ano seguinte, como destaque na festa da laranja
de Limeira, em São Paulo (3). Desembarcando em Buenos
Aires com Álvaro Piano, o primeiro marido (4). Em 1961,
na Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, no casamento com
Ronaldo Xavier de Lima, ao qual compareceram mais de 5 mil pessoas
(5) |
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