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Política
A
zebra das urnas
César Maia derrota seu ex-apadrinhado Luiz Paulo Conde e se elege
de virada por diferença de apenas 2% dos votos
Luís
Edmundo Araújo
| Paulo
Alvadia/Ag. O Dia |
 |
| César
Maia: humildade no lugar da arrogância |
Especialista
em números, o economista César Maia, 55 anos, conviveu
durante toda a campanha eleitoral para a prefeitura do Rio de Janeiro
com índices desanimadores. Em todos eles, aparecia como o
derrotado na disputa com o ex-aliado e atual prefeito Luiz Paulo
Conde.
No
dia da votação, César Maia pôde comemorar
uma das maiores viradas eleitorais dos últimos anos. Venceu
Conde por dois pontos percentuais: 51,06% a 48,94%. A situação
não é nova para o futuro prefeito carioca. Em
1992, ele também foi a zebra da eleição, derrotando
a petista Benedita da Silva, favorita durante a maior parte da campanha.
A
tensão que atravessou foi sentida na pele. O economista terminou
a campanha com todas as unhas roídas, hábito adquirido
na infância. Sempre tive esse perfil ansioso,
confessa.
Pouca
coisa mudou no estilo do prefeito eleito. Os casacos que viraram
sua marca registrada permanecem insubstituíveis, relegando
as gravatas ao esquecimento e deixando espaço apenas para
um paletó azul, em ocasiões especiais. A mania foi
herdada do pai, o servidor público Felinto Epitácio
Maia, e vem desde os tempos em que os dois trabalhavam juntos, no
Grupo Klabin, em 1974. Meu pai sempre usava um casaco creme
ou azul, conta.
Hoje,
ele calcula ter dez casacos no armário, a maioria Lacoste.
Uso os que ganho e, por isso, não posso escolher a
marca. Até porque Lacoste é mais caro. O estilo
inconfundível passa ao largo dos personal stylists. Deus
meu livre! Minha mulher é que faz isso pra mim.
O
horário de acordar, nunca depois das 6h, também continua
o mesmo. Só assim o economista consegue manter o hábito
de dedicar pelo menos uma hora diária, assim que se levanta,
à leitura dos jornais, não só os brasileiros.
Pela internet, lê todos os da América Latina e alguns
americanos e europeus.
Católico,
ele é devoto de Nossa Senhora de Fátima e carrega
um santinho de Santo Expedito na carteira. Mas não dispensa
no bolso do casaco um terço da Igreja Ortodoxa, presente
de um eleitor, e corujas, símbolos da sorte. Elas enfeitam
seu escritório.
FÃ
DO REI O político iniciou sua trajetória como
um autêntico jovem de esquerda. Exilado em 1969 durante o
regime militar, foi morar em Santiago, no Chile, onde permaneceu
até 1973. Lá, César começou a estudar
Economia na Universidade do Chile e conheceu a mulher, a chilena
Mariángeles. O casamento foi realizado um mês depois
que os dois se viram pela primeira vez, numa reunião de brasileiros
exilados e permanece inabalável até hoje.
Filiado
ao PDT, foi secretário de Fazenda de Leonel Brizola, entre
1983 e 1986. E deputado federal em 1986 e 1990. Mudou-se para o
PMDB e venceu a eleição municipal no Rio. Acabou assumindo
a face conservadora ao se filiar ao PFL. Em 1996, elegeu seu secretário
de Urbanismo, Luiz Paulo Conde, à administração
municipal. Com a derrota de César nas urnas em 1998, os dois
passaram a disputar a indicação do partido para ser
candidato a prefeito e César foi obrigado a deixar o PFL
pelo PTB.
À
frente da prefeitura carioca, César Maia mostrou uma faceta
até então desconhecida: o talento para virar e criar
notícia. Começou tentando manter o horário
de verão no Rio quando todo o País já tinha
atrasado os relógios. O apelido de prefeito maluquinho acabou
transformando-o em garoto- propaganda de uma campanha publicitária
de um shopping do Rio, anunciando uma sugestiva liquidação
maluca.
O
povo do Rio me deu uma lição em 1998, quando perdi
para o Garotinho a eleição para governador. Estava
um pouquinho arrogante. Achei que estava com mais bola do que estava,
diz César Maia. E o povo me deixou de castigo por dois
anos. Baixei minha bola e volto com mais humildade.
Botafoguense,
César adora música. Durante a campanha, não
ouviu notícias no rádio do carro, enquanto se locomovia
para os vários pontos visitados na cidade. Só música.
No repertório, óperas, clássicos e, principalmente,
Roberto Carlos. Ouvi de tudo um pouco, mas Roberto Carlos
sempre esteve presente, diz.
Em
seu amplo apartamento de frente para o mar de São Conrado,
bairro nobre da cidade, também moram dois cães poodle,
Alf e Valentim. Este último, segundo Mariángeles,
manca até hoje devido a um chute desferido por Luiz Paulo
Conde, na época em que o atual prefeito ainda freqüentava
a casa do ex-aliado.
| Gabriel
de Paiva/Ag. O Globo |
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Casado há 31 anos com Mariángeles (à dir. de César Maia),
César é pai dos gêmeos Daniela (à esquerda) e Rodrigo, de
29 anos.
“Meu pai é brincalhão e adora ficar com as netas”, diz Rodrigo,
deputado federal e pai das duas netas de César, Ana Luíza,
5, (na foto) e Maria Beatriz, 4.
O
terceiro neto está a caminho. Daniela
está no último mês de gravidez. Como avô, o prefeito eleito
não tem o menor pudor de confessar que sua função é estragar
as netas. “O papel do avô é deseducar. Faço absolutamente
tudo o que elas pedem."
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