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Eduardo d’Oliveira França, 85 anos

O professor que fez história
O veterano da revolução de 1932 trocou a carreira de advogado pela sala de aula e enfrentou a intolerância do coronel Erasmo Dias quando era diretor da faculdade de História da Universidade de São Paulo

Cesar Guerrero

Piti Reali; Reprodução
“É a minha profissão de fé”, diz Eduardo, que aparece na foto de sua formatura em 1937 (à dir.)

Sentado na sala de estar do apartamento na Aclimação, zona Sul de São Paulo, o professor Eduardo d’Oliveira França examina um volume de 400 páginas com o zelo de um cirurgião. Estuda cada parágrafo da tese de um doutorando da faculdade de História da Universidade de São Paulo (USP).

Mesmo aposentado há 15 anos, ele não se esquiva dos pedidos de orientação dos acadêmicos. “É a minha profissão de fé”, diz. “Minha vida se desenrolou dentro das salas de aula.” Não é exagero.

Filho de professores, Eduardo freqüentou a escola antes mesmo de aprender a andar. Sua mãe, Ila, não tinha com quem deixar o rebento e o levava para o trabalho. “Enquanto ela dava a aula eu ficava no fundo da classe com meus brinquedos.”

Eduardo nasceu em Queluz, cidade encravada na face paulista da Serra da Mantiqueira. O pai, Américo, além de lecionar, mantinha uma pequena produção de leite, no sítio onde moravam, para engordar o orçamento. “Eu vivia com os pés no chão”, recorda. A maior emoção nos primeiros anos de sua vida foi a brisa que batia no rosto durante a viagem de charrete para a escola.

Reprodução
Eduardo (em pé à dir.) e seus companheiros de batalhão

DISCURSO PARA GETÚLIO A tranqüilidade de Queluz só foi quebrada durante as comemorações do centenário da Independência, em 1922. A população chegou a bloquear a estrada de ferro para obrigar a parada do trem que conduzia o presidente da República, Epitácio Pessoa, e o rei Alberto, da Bélgica.

Os dois viajavam do Rio de Janeiro para São Paulo e foram forçados a descer na estação e discursar. “Eles foram aclamados”, lembra. Eduardo assistiu a tudo do colo de seu pai. Com sete anos, o menino esperava contemplar uma figura real com a tradicional coroa e o cetro. “Mas ele estava de farda. Foi uma decepção.”

Na escola, Eduardo destacava-se dos outros alunos pelo teor do boletim. Ele perdia o sono quando tirava uma nota abaixo de oito. “Era filho de professores e tinha que dar o exemplo”, diz.

Apesar da disciplina, não deixou de mostrar sua faceta rebelde. Quando Getúlio Vargas assumiu o poder, na revolução de 1930, ele foi encarregado de fazer um discurso no colégio, pois tinha facilidade com as palavras. “Eu disse que era contra a revolução, mas ele me convenceu a escrever um texto moderado”, diz. Na hora do discurso, porém, a moderação foi por água abaixo. Do alto da tribuna, ele disparou alguns valores democráticos. “Por pouco eu não xinguei o Getúlio”, lembra.

Reprodução
Ao lado dos filhos Fernando e Maria Isabel, no Natal de 1987

A rebeldia de Eduardo chegou ao ápice dois anos depois. No dia 9 de julho de 1932, estourou a revolução constitucionalista e o calouro da USP aderiu ao movimento. Enfrentou a resistência da própria família, contrária ao seu envolvimento no conflito. “Fiz greve de fome para poder me alistar”, recorda. “Minha mãe não sabia o que fazer”, diz.

Diante de tanta determinação a família não teve outra saída. Alistado no Batalhão Fernão Chaves, Eduardo partiu para Ribeirão das Almas, no Sul do Estado, onde combateu as tropas federais. “Ficávamos atolados até o joelho no barro das trincheiras”, lembra. “As balas assobiavam sobre nossas cabeças e era possível ouvir os insultos das tropas inimigas.”

O batalhão era composto por operários, engenheiros, médicos e comerciantes. Por ser rápido na corrida, ele ficou encarregado de levar as mensagens da frente de batalha para o comando. “Ver a morte de perto foi uma experiência que eu jamais vou esquecer”, assegura. Depois da derrota das forças paulistas, Eduardo voltou a estudar Direito e ingressou na faculdade de Filosofia. Quando obteve o diploma nos dois cursos, em 1937, já estava decidido. Seria professor universitário.

Reprodução
Com a mulher, Sônia, durante uma viagem a Coimbra, em Portugal, em 1998

Lacaio da democracia Eduardo casou-se pela primeira vez em 1937. Sua mulher Hulda cuidava da casa enquanto ele se dedicava ao mestrado e depois ao doutoramento. Passou o ano de 1955 na Universidade de Coimbra, em Portugal, como professor visitante. Com a morte de Hulda em 1972, ele se casou com a colega de profissão Sônia Siqueira, com quem teve dois filhos, Fernando, 20 anos, e Maria Isabel, 18.

Em 1975, Eduardo chegou à diretoria da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Mas não permaneceu no cargo por questões políticas. No auge da ditadura o coronel Erasmo Dias, secretário de Segurança do governador biônico Paulo Maluf, ordenou que ele delatasse os estudantes subversivos. “Eu não sou lacaio do governo, muito menos de uma ditadura”, respondeu o professor. “Entreguei o cargo na mesma hora, mas ninguém me torturou”, brinca Eduardo.

Mais tarde, com os ventos democráticos, ele foi conduzido à diretoria da Escola de Comunicação e Artes da USP. Aposentou-se em 1985, mas nunca parou de trabalhar.

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