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Consolato Laganá, 96 anos

O artista dos sapatos
O imigrante italiano fugiu da crise na Europa, em 1922, para tentar a vida no Brasil, e acabou calçando a elite paulistana

Cesar Guerrero

Beto Tchernobilsky
“Houve uma época em que a mulher não entrava para a sociedade se não estivesse calçando um sapato feito por mim”, diz Laganá

Em 1909, então com cinco anos, Consolato Laganá quis acabar com o choro de sua irmã. O sapatinho da boneca de madeira, um dos poucos brinquedos da menina, estava quebrado. Decidido a colocar um fim naquelas lágrimas, ficou horas recortando papelão na tentativa de esculpir um novo modelo. Hoje, aos 96 anos, ele se recorda da história com satisfação. “Foi assim que descobri minha vocação”, diz. Ao longo de sua trajetória, Laganá viu os sapatos que fazia à mão virarem mania entre as damas paulistanas. Em sua lista de clientes estavam nomes como o da condessa Mariangela Matarazzo e o da primeira dama do Estado Leonor Mendes de Barros.

Laganá nasceu na aldeia de Adami, um povoado com mil habitantes na região da Calábria, no Sul da Itália. Seu pai, que também se chamava Consolato, e sua mãe, Tereza, sustentavam os nove filhos com um comércio de secos e molhados, onde vendiam de farinha e lingüiça a vassouras. Nessa época, o menino só pensava em fazer sapatos de boneca. A vocação começou a tornar-se profissão. Aos 12 anos, ele decidiu aprender o ofício de sapateiro em Soveria Mannelli, cidade vizinha a seu povoado. Era uma caminhada de duas horas. “Eu não recebia nada e minha mãe ainda dava presentes para o mestre.”

Em 1918, Adami, que já enfrentava a crise do pós-guerra, foi atingida pela epidemia de gripe espanhola. O pequeno povoado desestruturou-se. Foram quatro anos de sofrimento. Em busca de novas oportunidades, seus habitantes abandonaram suas raízes. Laganá e o pai saíram de lá. Escolheram o Brasil como destino. “As pessoas falavam muito bem desse lugar.” Em 1922, pai e filho embarcaram no navio Valdívia, no porto de Gênova. Foram 21 dias de viagem, dormindo num beliche apertado e comendo em pratos descartáveis. “Ficávamos no porão como animais.”

A dupla chegou em Santos, em 22 de fevereiro de 1922. Deixaram o navio contratados pelo capataz de uma fazenda de café. Trabalhariam na terra. “A paisagem era igual à de Terra Nostra”, lembra o imigrante, referindo-se à novela global. Mas a experiência rural durou apenas seis meses. O pai de Laganá mudou-se para o Rio de Janeiro e ele conseguiu uma vaga de operário nas Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, em São Paulo. Morava numa pensão no Brás, zona leste da cidade, e andava a pé até a fábrica de tecidos. Durante a caminhada, parava e olhava com nostalgia para a sapataria do bairro.

O interesse do imigrante despertou a curiosidade do dono do estabelecimento. “Quando descobriu que eu trabalhava com sapatos na Itália, tratou de me arrumar um emprego”, recorda. Laganá aceitou a proposta e demitiu-se da tecelagem. Mudou-se para os fundos da sapataria decidido a economizar todo e qualquer tostão. Depois de um ano, alugou uma pequena sala e deu início a seu próprio negócio. Como os clientes eram operários e não tinham muitos recursos, ele teve de recorrer à criatividade para vender. Reunia pessoas dispostas a pagar uma pequena quantia para concorrer ao sorteio de um par de sapatos. “Era uma espécie de consórcio”, diz. Nesse período, conheceu Maria da Costa, com quem veio a se casar.

CONDE MATARAZZO A qualidade do trabalho atraiu outros clientes. Quase teve um ataque quando viu o luxuoso automóvel do conde Francisco Matarazzo parado na porta da sapataria. “A condessa Mariangela queria que eu a atendesse em domicílio.” O sapateiro pegava o bondinho e seguia para o Vale do Anhangabaú. De lá, andava até a mansão, na Avenida Paulista. Por causa da cliente ilustre, começou a fazer sapatos das mulheres dos políticos Francisco Prestes Maia e Adhemar de Barros. “Houve uma época em que a mulher não entrava para a sociedade se não estivesse calçando um sapato Laganá”, orgulha-se.

Em 1939, a sapataria passou a funcionar na Praça da República, ao lado do consulado da Itália. A coincidência acabou se tornando um estorvo. Quando o Brasil entrou na Segunda Guerra, o consulado foi fechado e a porta da sapataria ficava cheia de italianos pedindo autorização para permanecer no Brasil. A culpa era do cartaz que anunciava: Consolato Laganá Sapatos Feitos a Mão. O nome do sapateiro tem a mesma grafia da palavra consulado em italiano. “Eles ficavam em fila com os documentos nas mãos.”

Nessa época, Laganá esculpia uma forma de madeira com o desenho dos pés de cada cliente. Tinha 20 empregados que produziam 40 pares por semana. Cada par chegava a custar o equivalente a R$ 1 mil. “O segredo é respeitar a anatomia”, ensina. A fábrica fechou em 1984, quando Laganá foi forçado pelos cinco filhos a se aposentar. As seis décadas de ofício garantiram-lhe uma aposentadoria confortável. “Agora eu só descanso”, diz Laganá. Quem não gostou da idéia foram os 1,2 mil clientes que ficaram órfãos do serviço.

Fotos: Arquivo pessoal

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