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Superação
Coragem
de menina
Carolina Dias, portadora de síndrome de Down, supera os obstáculos
da doença para trabalhar como atendente em rede americana de fast-food
Carlos
Henrique Ramos
| Fotos:
Piti Reali |
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| A
vaidosa Carolina Dias não dispensa o batom nem mesmo para trabalhar
na lanchonete. |
Ela
estava feliz e apreensiva naquele 8 de janeiro de 1997. Seria o
dia mais importante de sua vida. Enquanto o coração
acelerava, Carol vestia o uniforme. Colocou a camisa listrada de
vinho, cinza, branco e creme, a calça vinho e amarrou o tênis
preto. Finalizou com a gravata, também vinho. Por fim, os
cabelos foram ornamentados com uma longa trança, ajeitada
por dentro do boné. Aquele momento mereceu o clique de câmera
fotográfica. Ansiosa, a menina saiu de casa para trabalhar
numa das lojas da rede americana de lanchonetes McDonalds,
no Shopping Raposo, na rodovia Raposo Tavares, em São Paulo.
O
primeiro dia de trabalho é inesquecível na vida de
qualquer jovem. Mas no caso de Carolina Dias foi muito mais que
isso. A garota, portadora de síndrome de Down, superou ali
uma trajetória de dificuldades e limitações
para tornar-se cidadã, com direito a carteira profissional,
título de eleitor e conta bancária. Minha filha
nos deu muito mais satisfação do que poderíamos
prever. Ela não pede nada, só dá, diz
a mãe Cecília Dias, 51 anos, gerente da Agência
Paulista de Puro Sangue. Ela conta a história da filha no
livro Construindo o Caminho, da Editora Augustus, lançado
com tiragem inicial de 2.500 exemplares.
A
satisfação a que Cecília Dias se refere pode
ser conferida atrás do balcão da rede de fast-food.
É lá, entre batatinhas fritas, nuggets e tortas de
banana e maçã, que Carol, aos 24 anos, colhe os resultados
práticos da rotina vivenciada entre
médicos, psicólogos, fisioterapeutas e educadores.
Ela trabalha das 10 às 14 horas, com duas folgas semanais,
por um salário de R$ 170. Esse dinheiro é depositado
numa caderneta de poupança. Ao aportar na loja, levada pela
mãe, bate o cartão de ponto e se troca no vestiário.
Durante a jornada, serve clientes, limpa o chão e monta os
sanduíches. Atualmente, recebe treinamento para atender num
quiosque de sorvetes. Ela é uma funcionária
aplicada e integrada ao ambiente. Nunca nos deu problema,
diz o franqueado José Rubens Macedo Filho, 42, o homem que
descobriu Carol e apostou nela.
Esse
encontro aconteceu na própria lanchonete. Nessa ocasião,
uma amiga de Cecília levou a menina para degustar algumas
guloseimas. Com pressa, optou pelo drive-thru. O próprio
José Rubens estava recolhendo o pedido dos clientes quando
fitou Carol. Num átimo de segundo, confessou que gostaria
de ter uma pessoa com síndrome de down em sua loja. Ele não
tinha nenhum deficiente na sua família. Só queria
ajudar de alguma maneira. Começava ali o relacionamento que
se mantém até hoje. Depois dessa experiência,
meu objetivo é convencer outros empresários a fazer
a mesma coisa. Nós aprendemos diariamente com essas pessoas
especiais, afirma José Rubens.
Carolina
Dias nasceu com um cromossomo extra. Em vez de terem 46 cromossomos
por célula, agrupada em 23 pares, os portadores de síndrome
de Down têm 47. Trata-se de um acidente genético no
momento da separação das células maternas ou
paternas. Essa anomalia limita a função intelectual
e causa uma espécie de retardo mental. Nunca imaginei
que a veria nesse estágio, alegra-se Cecília.
A evolução foi espantosa. Ao longo da vida, porém,
cinco pneumonias a deixaram na cama. Uma delas quase a levou à
morte. Aos 5 anos, começou a estudar numa escola especial.
Aprendeu a ler e escrever aos 8, fez balé e freqüentou
aulas de aeróbica, em academia de crianças normais.
A descoberta de que era portadora da doença deu-se aos 14
anos. Dentro do carro, questionou a mãe depois de ouvir a
explicação do seu problema. Mamãe, você
queria ter uma filha com síndrome de Down? A pergunta
causou embaraço e uma constatação animadora
por parte dos especialistas: Carol amadurecia.
Essa
maturidade se traduz no dia-a-dia. Vaidosa, daquelas que vão
ao cabeleireiro e não dispensam o uso do batom, Carol namora
Daniel, também portador da doença, há cinco
anos. Com os coordenadores da Associação para o Desenvolvimento
Integral do Down vão ao cinema, teatro, boliche, passeiam
de mãos dadas e beijam-se normalmente. Quando está
em casa, cantarola as músicas de Sandy e Júnior no
videokê, com a mesma volúpia com que recorta as fotos
dos artistas nas revistas. Os preferidos são Flávia
Monteiro e Fernanda Rodrigues. Seu maior sonho é fazer um
cruzeiro ao Caribe. O outro, porém, é bem mais difícil:
casar e ter filhos. E ela sabe disso.
| Arquivo
Pessoal |
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Dispensando
o Rei
Pai
de Carol, Gabriel Lima da Silva Dias, 51 anos, engenheiro
naval, construiu o Lady Laura 3, o iate de Roberto
Carlos. O trabalho aproximou as duas famílias. Em 1986,
durante show no Olympia, a garota conheceu o Rei, nos camarins
da casa de espetáculos, e sua mulher Maria Rita, que
morreu no ano passado. Depois disso, foram vários encontros.
No aniversário de 18 anos, o cantor telefonou para
parabenizá-la, por volta do meio-dia. A menina estava
dormindo. Não quis atendê-lo e pediu para ligar
mais tarde.
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