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Crime

Morte anunciada
Diretor de redação do Estadão, Pimenta Neves é internado com overdose de sedativos na véspera de se entregar à polícia pela acusação de assassinato da ex-namorada Sandra Gomide

Carlos Henrique Ramos

Fotos: Christina Rufatto/Diário Popular
Sandra Gomide, 32 anos, e Pimenta Neves, 63

Antonio Marcos Pimenta Neves, 63 anos, parecia preocupado e ansioso na manhã do domingo 20. Também demonstrava certo cansaço, depois de cavalgar por quatro horas no lombo do cavalo mangalarga Quecé, nas estradas poeirentas de Ibiúna, a 70 quilômetros de São Paulo. Às 14h15, foi visto indo embora do Haras Setti, dirigindo um Renault Clio preto. Em menos de 10 minutos, retornava ao local. Ao descer do carro, o gaúcho Delmar Setti, proprietário do haras, o convidou para assistir a morte de um boi, cuja carne viraria churrasco. O bicho seria abatido com uma facada na nuca. “Não tenho coragem de ver animal morrendo”, desvencilhou-se. Ao declinar da proposta, continuou caminhando. Quinze minutos depois, Setti ouviu um grito. Era de Sandra Gomide, 32 anos: “Não, Pimenta! Não!”. Na seqüência, escutou o primeiro tiro, nas costas. Em cinco segundos, o outro. O projétil penetrou acima da orelha esquerda e atingiu o crânio. Sandra, que pretendia escovar seu mangalarga Oceano, foi assassinada por volta das 15 horas. Foi encontrada tombada no pátio, no início da rampa de acesso às baias. Os dois jornalistas haviam sido namorados.

“Ele manobrou o carro, me olhou serenamente e acelerou tranqüilo, não tinha pressa”, comenta Delmar Setti. Sandra foi sepultada segunda-feira 21 no cemitério do Horto Florestal, zona norte da capital paulista. Pimenta Neves, que encontrava-se desaparecido, foi internado na noite de terça-feira 22 na UTI do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, com um quadro de overdose de sedativos. Teria ingerido 30 comprimidos de Lexotan. No dia seguinte, foi transferido para a unidade semi-intensiva. Com mandado de prisão expedido 12 horas após o assassinato, ele será indiciado por homicídio doloso (intenção de matar). Esse fato impediu que seu advogado, Antonio Cláudio Mariz de Oliveira, o apresentasse à polícia. “Meu cliente vai confessar a autoria do crime”, afirmou o advogado. Na manhã da quarta-feira 23, Mariz entregou a arma do crime à polícia, um revólver calibre 38.

A polícia remontou o quebra-cabeça do namoro de Sandra e Pimenta. Concluiu que o relacionamento reunia ingredientes que desembocariam num crime passional. Havia paixão, ciúme, intriga, difamação, violência e agressão. Os dois se conheceram na redação da Gazeta Mercantil, em 1995. Sandra já trabalhava lá. Pimenta Neves acabava de assumir a direção da redação, depois de trabalhar no Banco Mundial, nos Estados Unidos. A relação começou ali. Em outubro de 1997, ele aceitou proposta do Estado de São Paulo. A jornalista seguiu o chefe, a convite dele. Neste ano, perdeu o emprego quando era a editora de Economia. A demissão, segundo a família de Sandra, foi um contragolpe devido ao fim do romance. “Ele não soube perder, confundiu as coisas e a matou”, diz o irmão da vítima, Nilton Gomide. À psicóloga da empresa, Sandra confirmou que a dispensa fora motivada pelo fim do caso de amor. Pimenta Neves desmentiu a versão da funcionária, definiu-a uma como incompetente e demitiu-se em 28 de julho. Mas foi convencido a permanecer.

“Ele não soube perder, confundiu as coisas e a matou”
Nilton Gomide, o irmão de Sandra

Na época, o jornal comunicou oficialmente que o diretor de redação se submeteria a um tratamento nos olhos, porque corria o risco de perder a visão. A revelação sobre o acompanhamento psicológico, no entanto, só tornou-se pública depois do assassinato. Logo após o término do namoro, há cerca de um mês, a vida do jornalista virou do avesso. Na redação, mostrava-se explosivo com seus subordinados. Fora dali, iniciou uma perseguição obsessiva à ex-namorada. No início, tentou difamá-la profissionalmente, pedindo a chefes de outros veículos que não a empregassem. Depois, passou a ameaçá-la de morte, ora por e-mail ora por telefone. As mensagens eletrônicas e as quatro fitas da secretária eletrônica apreendidas pela polícia serão analisadas pelo Instituto de Criminalística. O auge da crise, no entanto, deu-se no dia 5 de agosto. Ele invadiu o apartamento de Sandra, no bairro do Paraíso, zona sul de São Paulo. Escondeu-se no armário e, quando a jornalista entrou em casa, agrediu-a com dois tapas na cara. Em meio à gritaria, empunhando um revólver, exigiu que ela devolvesse os presentes que lhe dera.

Amedrontada, Sandra registrou um boletim de ocorrência 3837/2000 no 36º Distrito Policial. Lá, passou por exame de corpo de delito. O inquérito tramitava na 2ª Delegacia de Defesa da Mulher. Ela seria ouvida no próximo dia 28. Nesse período, tentou se precaver. Durante alguns dias, circulou pela cidade com um segurança, contratado pela família, e dispensado rapidamente. “Não achávamos que as coisas chegariam a esse ponto”, revela Nilton. A jornalista passou a pernoitar na casa de amigos e familiares. Trocou a fechadura da porta, pensava mudar de apartamento e de carro. Dizia que seu telefone estava grampeado, acusação confirmada pela polícia. Para amigas, disse que pretendia passar uma temporada no Exterior.

PROMESSA QUEBRADA O encontro com Pimenta Neves no haras pôs fim aos seus desejos. No sábado, um dia antes do assassinato, o ex-namorado almoçou com a família dela, no sítio que fica a um quilômetro do haras. João Gomide, o pai de Sandra, implorou para que ele a deixasse em paz. Pimenta acatou o pedido. Não cumpriu a promessa. A jornalista, que planejava viajar para New Orleans, nos Estados Unidos, onde estudaria as raízes do jazz, não teve como reagir. Sua última frase ao irmão Nilton foi guardada com carinho e tristeza. “Estou levando as meninas e espero você lá.” Sandra deixava o sítio em direção ao haras. Na sua caminhonete S10 verde, tinha a companhia de duas sobrinhas. Estava paramentada com botas, calças e chapéu, pois pretendia cavalgar com Oceano. Quando chegou lá, as crianças saíram correndo em direção à gaiola dos coelhos. Ela queria escovar seu animal antes de cavalgar. Morreu com a escova e o cabresto nas mãos.

 

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