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Música
Sambista
diferente
Jorge Aragão, compositor carioca que vendeu 500 mil CDs, não bebe
cerveja nem participa de rodas de samba
Rodrigo
Cardoso
| fotos:
Leandro Pimentel |
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| Aragão,
que já foi cronometrista de corrida de motocicletas e compôs
em troca de cesta básica, hoje faz 32 shows por mês a R$ 5 mil
cada. |
Num
ponto de ônibus da Parada de Lucas, subúrbio do Rio
de Janeiro, o sambista Jorge Aragão reconheceu uma canção
que emanava de um rádio portátil de pilha, empunhado
numa das mãos de um fiscal da prefeitura. A música
era Malandro, primeira composição de sua
vida. Aragão se aproximou do cidadão e não
se conteve: Pô, nego véio, estou todo feliz.
A vida vai melhorar. Fiz uma música que foi gravada pela
Elza Soares. Aliás, é essa que está tocando
no seu rádio, disse. O funcionário público
da prefeitura interrompeu suas anotações de chegada
e saída dos ônibus, levantou a sobrancelha e improvisou:
Ah, é?!. O mico aconteceu em 1977, época
em que Aragão ainda era um anônimo para os amantes
do samba. E foi suficiente para que o cantor e compositor, de 51
anos, nunca mais alardeasse seu narcisismo em público.
Também
não precisa mais. Desde dezembro, com o lançamento
do álbum, Jorge Aragão ao Vivo, seu rosto saiu do
anonimato. Esse CD, o 12º de sua carreira, vendeu mais de 500
mil cópias, número superior aos pesos-pesados Caetano
Veloso, Chico Buarque e Marisa Monte, e há 36 semanas figura
entre os cinco mais vendidos entre Rio e São Paulo. Mais
ainda. Em sua agenda para fazer shows só há datas
livres no ano que vem.
Jorge
Aragão conquistou o respeito de Martinho da Vila, Bete Carvalho
e Zeca Pagodinho. Intérpretes e compositores, aliás,
que já gravaram várias de suas músicas. Por
conta do trabalho desenvolvido nos bastidores, Aragão passou
a ser conhecido como Poeta do Samba. Estava com
meu filho Garrinchinha no colo, sentada num botijão de gás,
quando recebi a música Malandro. Tenho o maior
orgulho por tê-lo lançado, atesta a cantora Elza
Soares.
Jorge
Aragão compôs o samba Globeleza, tema das
chamadas carnavalescas da Globo há oito anos. Mas seu talento
musical invade o espaço. O sambista já foi apreciado
em Marte. É dele a letra de Coisinha do Pai,
a canção que na voz de Bete Carvalho acordou o robô
Sojourner no planeta vermelho em 1997. É verdade. Sou
o compositor mais tocado em Marte!, diverte-se. Aragão
também tornou-se o primeiro a adquirir um New Beatle, nome
atual do antigo Fusca, no Rio de Janeiro. O carro foi comprado pelo
sambista, em novembro passado, por R$ 60 mil, assim que chegou à
concessionária.
“Achava
que minhas letras não tinham a ver com a garotada. Eu escrevo
para o nego véio’’
Jorge
Aragão |
O sucesso
de Jorge Aragão não se limita à venda de CDs.
Em seus shows, o sambista vem se surpreendendo com o fanatismo da
juventude. Achava que minhas letras não tinham a ver
com a garotada. Escrevo para o nego véio, a turma do samba,
diz. O show de mesmo nome, em cartaz no Rio e em São Paulo,
tem arrastado mais de 10 mil pessoas por apresentação.
O compositor sobe ao palco, sempre com uma boina com a aba virada
para trás, 32 vezes por mês, o dobro do grupo ex-campeão
de apresentações É o Tchan. Não tira
o pé de casa por menos de R$ 5 mil. Sou gordo, velho,
tenho barba branca e cabelo pixaim. A impressão que tenho
é que sou um carro de Fórmula-1 que só ganhou
porque os da frente quebraram, brinca.
Jorge
Aragão tem uma imagem inversamente proporcional ao seu jeito
de viver. É a antítese de um sambista típico
dos morros fluminenses. Não freqüenta botecos. Nem bebe
cerveja. Nunca sentiu o sabor de algum tipo de bebida alcoólica.
Consta que o primeiro cachê de sua carreira foi gasto com
leite. Também não participa de rodas de samba, nem
recebe amigos para batucar em casa. Vivo uma vida solitária.
Só saio de casa para trabalhar, afirma. Eu não
sou artista. Sou compositor. Não sou cantor, mas sim intérprete
do autor. Jorge Aragão tem outra faceta: navega pela
internet. Nas raras vezes em que tira o pé para fora de casa,
usa um quadriciclo motorizado. Uso capacete, macacão,
óculos escuros e mochila, que me deixam irreconhecível.
Aragão
mora em Niterói com a mulher e duas de quatro filhas. É
lá que o sambista costuma tocar seu cavaquinho. No tempo
das vacas magras, o sambista compunha em troca de cestas básicas.
Tentou ainda ganhar dinheiro como carregador de geladeiras, vendedor
de sapatos e cronometrista de corridas de motocicletas.
Hoje,
a maratona de shows garante uma boa conta bancária. Tanto
que o sambista abraçou a medicina ortomolecular, que diagnostica
distúrbios no organismo a partir de exames das células
do corpo, para tratar seu problema de má circulação
nas pernas. Assim, consegue manter a saúde em dia, já
que não tem tempo para abandonar a vida sedentária.
Pego o avião sempre em cima da hora. A correria não
tá mole, não, nego véio.
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