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Cinema
Celulóide
com feijão
O cineasta paulista Jeferson De reúne 12 diretores negros e cria
o manifesto Dogma Feijoada para mudar a imagem do negro difundida
pelo cinema
Cristian
Avello Cancino
| Beto
Tchernobilsky |
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| Jeferson
rejeita rótulos, diz que não é bom jogador de futebol e critica
a abordagem do negro em filmes de Cacá Diegues |
Quando
adolescente, o cineasta paulista Jeferson De, 32 anos, recebeu um
soco no orgulho depois de assistir ao filme Os Trapalhões
no Planeta dos Macacos. Nas ruas de Taubaté (SP), onde
cresceu, passou a ouvir gente de pele branca chamar gente de pele
negra de macaco, por causa do filme. Esse quase trauma
e outras experiências cinematográficas revoltantes
e ofensivas o motivaram a criar um manifesto para romper com
o esquema de representação do negro brasileiro no
cinema nacional: o Dogma Feijoada.
O dogma do título do manifesto é inspirado
no movimento Dogma dinamarquês, resposta dos loiros de olhos
azuis daquele país contra os padrões estéticos
do cinema norte-americano. A versão feijoada
conta com treze diretores negros e foi lançada oficialmente
no Festival de Curtas Metragens de São Paulo. Queremos
que o negro brasileiro traduza a própria realidade na tela,
diz Jeferson De, que já fez assistência para os consagrados
André Klotzel e Eliane Caffé.
Formado
pela mais concorrida faculdade de cinema do País, a ECA-USP,
Jeferson prepara o primeiro filme do feijoada, o curta-metragem
Distraída para a Morte. Suas opiniões sobre
cinema explicam de certa maneira o manifesto. Em filmes como
Orfeu e Quilombo, de Carlos Diegues, o negro é
sempre o herói, sem fraquezas, é irreal, diz.
Quando não é o herói, torna-se exemplo
de miséria, como em Ed Mort (Alain Fresnot). Quando
é rico, como em Até Que a Vida Nos Separe (José
Zaragoza), é frustrado e sonha em se casar com uma loira
gostosa.
Jeferson
garante que não sonha em se casar com uma loira gostosa,
mas sua namorada é branca. Com bom humor, conta que nunca
foi bom jogador de futebol. Muito menos sambista, então
só me resta ser cineasta. O caminho para isso não
foi fácil. Seu pai era torneiro mecânico e a mãe,
dona de casa. Sempre estudou em escolas estaduais e o irmão
não tem o 2º grau completo. Prestou vestibular para
filosofia, passou, mas pediu transferência para o curso de
cinema. Entrei em cinema pela porta dos fundos, diz
ele. Porque cinema? Meu pai cuidava do clube dos funcionários
e projetava filmes lá. Ele me apresentou Hitchcock e Roman
Polansky. Aí, comecei a tomar gosto pela coisa.
RECEITA
DE BOM FILME Os ingredientes do Dogma Feijoada funcionariam
como alternativa para eliminar estereótipos. A receita? O
autor deve ser negro, o protagonista também, a temática
do filme deve estar relacionada com a cultura negra brasileira,
o roteiro deverá privilegiar o negro comum. Super
heróis ou bandidos devem ser evitados.
No
domingo 27, Jeferson leva os filmes do feijoada ao Capão
Redondo, uma das regiões mais violentas de São Paulo,
onde morrem mais de 100 pessoas anualmente em cada 100 mil habitantes.
Para fazer cinema, o negro tem que ver cinema. Conseguimos
a permissão de traficantes e vamos projetar filmes em praça
pública. Jeferson não chegou a conversar com
os chefes do tráfico do bairro, mas um morador da região,
que é seu conhecido, precisou fazer o contato para garantir
a exibição. Em outubro, Jeferson vai para Cabo Verde
e Lisboa com Milton Gonçalves e Zezé Mota. Vamos
iniciar a difusão internacional do feijoada.
| Engrossando
o caldo |
| Beto
Tchernobilsky |
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| Noel
Carvalho, que já fez um filme sobre um sambista
branco, adere ao Feijoada: “É um movimento político” |
Noel
Carvalho, 36 anos, mora no violento Jardim São Luís, em
São Paulo, é negro, formado em ciências sociais pela USP
e cineasta. Faturou uma menção honrosa no festival de
Cinema de Kiev, na Rússia, com O Catedrático do Samba,
curta sobre o sambista paulista branco Germano Mathias.
Carvalho se prepara agora para defender a polêmica que
o Dogma Feijoada promete criar. “É um movimento político,
que vai chamar a atenção para a maneira como a imagem
do negro é difundida pelo cinema brasileiro, matizada
com preconceito e desconhecimento de causa.” O veterano
do grupo é Agenor Alves, 56 anos. Ele é o único dos treze
integrantes que não passou pela universidade. Veio de
Urandi, no vale do Jequitinhonha, divisa da Bahia com
Minas Gerais, considerada uma das regiões mais pobres
do Brasil. Chegou em São Paulo em 1964. O primeiro emprego
que conseguiu na tevê foi em torneios de luta livre. Depois
virou dublê de corpo de atores de cinema e hoje tem no
currículo a direção de nada menos que 18 filmes. O primeiro
deles foi Tráfico de Fêmeas, com Tony Tornado.
“O Michael Jackson é uma réplica do Tony”, diz Alves,
que trabalhou com José Mojica Marins, o Zé do Caixão,
e virou figurinha carimbada nas rodas de cineastas que
freqüentavam a Boca do Lixo, no centro de São Paulo. Agora,
prepara o longa O Mistério da Maria do Ingá, em
fase de captação de recursos. |
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