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Comédia

A Comédia do Trabalho
Cia. do Latão encena com humor “tragédia” da vida prosaica

Cristian Avello Cancino

Divulgação
Divulgação
O elenco em cena: o que interessa está do lado de fora

Em tempos de desemprego, para alguns o trabalho pode ser desejável como artigo de luxo. E a falta dele, engendrar sentimento de culpa. Para outros, entre os quais os adeptos de Domenico De Masi (sociólogo italiano que aconselha o ócio como via de desenvolvimento), uma rotina de trabalho convicta pode se tornar motivo de riso. Entre outros pormenores, é o que relata A Comédia do Trabalho, que a trupe da Cia. do Latão estreou sexta-feira 4, em São Paulo.

Trata-se de um convite, a todo tipo de público, para discutir as relações de trabalho e tentar mostrar que é possível “reativar” a potência revolucionária da luta de classes. E isso, torna-se necessário dizê-lo, com muito humor (o Latão vem de peças densas como Santa Joana dos Matadouros e O Nome do Sujeito).

“Optou-se pela comédia porque a situação é de tragédia”, enunciam no prólogo os cinco atores da peça encenada por Sérgio Marquez e Márcio Marciano (que também assinam a dramaturgia). Eles dizem a todo momento, em cena, que estão ali para representar (ou trabalhar) e que aquilo que se vê não passa de teatro, pois o que interessa está do lado de fora da sala: desemprego em 7,41%, índice de custo de vida aumentando 1,4% em julho, hordas de miseráveis pedindo esmola na saída do teatro, etc.

Se a “tragédia” da vida prosaica se mede com estatística, a “comédia” disso se resolve com representação. Para fazê-lo, a Cia. do Latão bebe na fonte de Brecht, vai às ruas surrupiar a repetição compulsiva dos gestos de quem trabalha para aplicá-los em cena.

Tudo se centraliza num coro afiadíssimo, diga-se de passagem. Para os autores da peça, “um dos pressupostos da relação de consumo é a de harmonização das diferenças”. Falar de incoerências e representar forças tão antagônicas como um patrão malufista e um operário petista, por exemplo, teria de ser feito com a anuência de um público acostumado
ao prazer hedonista oferecido pela tevê, entre outras diversões.

E o Latão atende a essa expectativa, provando que o teatro de pesquisa também pode aspirar à simplicidade e cativar qualquer platéia.

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