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Goffredo da Silva Telles Jr., 85 anos

Eterno subversivo
Advogado que redigiu em 1977 a Carta aos Brasileiros, pela redemocratização, teve aulas de violão com Villa-Lobos, aprendeu a pintar com Tarsila do Amaral, foi soldado na revolução de 1932 e preso pela ditadura

Gustavo Maia

Silvana Garzaro
Telles em seu apartamento no centro de São Paulo: “Aqui, estou perto da minha academia e das pombas que me saúdam pela manhã”

“Sempre morei no centro de São Paulo”, diz o advogado Goffredo da Silva Telles Jr., enquanto observa a vista privilegiada de seu apartamento na Avenida São Luís. Na Praça da República, dos bosques ricos em pássaros exóticos e das ruas de terra, onde o menino Goffredo praticava equitação, resta apenas meia dúzia de árvores. Os prédios e a poluição ofuscam a lembrança da nostálgica São Paulo dos anos 20 e 30. “São os problemas do progresso”, conforma-se. A saudade aperta quando Telles se lembra do casarão na esquina da rua Conselheiro Nébias com a avenida Duque de Caxias. Uma mansão onde sua avó, Olívia Penteado, recebia os amigos Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e Heitor Villa-Lobos e onde foi arquitetada a Semana de Arte Moderna de 1922. A casa, com afrescos de Lasar Segall, teve de ser demolida para o alargamento das ruas. “Naqueles jardins, Villa-Lobos me ensinou a soltar pipas e a tocar violão”, lembra.

Além da paixão pelas artes, adquirida nas aulas de desenho com Tarsila do Amaral, Telles interessava-se pela política. Leitor voraz de jornais, ele teve como mestre o pai, Goffredo da Silva Telles, prefeito da capital paulista em 1932 e um dos líderes da Revolução Constitucionalista no mesmo ano. “Era soldado nessa época e lutei contra a ditadura de Getúlio Vargas”, conta. A batalha de São Paulo foi a primeira das atitudes que o posicionou ideologicamente por toda a vida. “Sempre fui e sempre serei um subversivo”, afirma Telles.

DOI-CODI Em 1933, entrou para a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no Largo São Francisco, centro da capital. Formado, criou laços estreitos com a instituição estadual. Só saiu de lá em 1985, quando foi aposentado pelo Diário Oficial, ao completar 70 anos. “A São Francisco é a minha casa. Nasci professor por uma imposição genética”, brinca.

Foi durante a vida estudantil, porém, que ele começou a carreira de político. Percorreu o País alertando a população sobre as importâncias do voto e dos representantes no Congresso Nacional. “Naquela época, o povo não era representado adequadamente. Não que os representantes de hoje sejam melhores”, alfineta. “O sistema eleitoral é que era ruim.”

Das andanças pregando conscientização política, Telles barganhou votos suficientes que lhe garantiram uma cadeira na Câmara dos Deputados pelo Partido da Representação Popular (PRP-SP). Por ter apenas 29 anos, o advogado virou o legislador federal mais jovem de sua época. Teve de trocar a metrópole paulista pela então capital federal, Rio de Janeiro. Ainda engatinhando na política federal, Telles deixou sua marca ao participar da Assembléia Nacional que redigiu a Constituição de 1946. Só deixou o cargo cinco anos mais tarde. “Mesmo sendo deputado, nunca deixei de dar aulas na Faculdade em São Paulo”, lembra. “Os alunos me esperavam para a última aula da semana.”

O político se aposentou. Mas o professor, não. Goffredo da Silva Telles virou representante de uma das profissões mais perseguidas pelo governo militar. “Eu era presidente da Associação dos Professores Universitários durante os anos de chumbo”, lembra Telles. De sua imponente atuação no decorrer dos anos, o mestre virou alvo dos fardados de Brasília. Era 1969, quando Telles teve convite compulsório para se apresentar no Doi-Codi. “Atendi. Se não fosse, seria pior”, diz. O interrogatório durou 36 horas. “No dia seguinte fui liberado”, conta.

A CARTA Sua liberação teve uma razão plausível. Goffredo da Silva Telles já exercia significativa influência no universo pensante do País. Aposentado político de fato, mas não de alma, Telles nunca esteve de fato longe dos bastidores partidários. Tanto que no final da década de 70, as reuniões com Ulysses Guimarães, Franco Montoro e as lideranças do extinto MDB tornaram-se freqüentes. E de consultor, virou redator da Carta aos Brasileiros, hoje um capítulo obrigatório nas aulas de história nas escolas públicas e particulares. Era 1977, pleno governo Geisel, quando Telles pôs no papel o pedido de lideranças políticas e instituições filantrópicas: a redemocratização do País por meio da volta das eleições diretas e da formação de uma Assembléia Constituinte. Leu o documento no gogó, entre os arcos do largo São Francisco. E foi ovacionado. “Foi um documento para nossos filhos e netos, para dizer que não compactuávamos com a ordem vigente”, lembra.

A política e a carreira de mestre não ocuparam todo o seu tempo. Nos 85 anos de vida, foi casado por três vezes. A primeira esposa faleceu no início dos anos 40 e, em 1947, o advogado trocou alianças com a escritora Lygia Fagundes Telles. Da união nasceu seu primeiro filho, o cineasta Goffredo Neto, 47 anos. O casamento durou pouco e a separação é um assunto que deixa o advogado desconfortável. “Foi uma separação difícil porque foi gradual. Hoje só nos falamos em ocasiões como o aniversário de nosso filho”, resume. A terceira mulher, Maria Eugênia, é 26 anos mais nova. “Quando a conheci, minha vida mudou”, diz o advogado. Ex-aluna de Telles, Eugênia deu a ele a filha Olívia, 27. Formada em direito pela São Francisco e doutorada pela Sorbonne de Paris, Olívia é sua grande alegria. “Ela é muito inteligente”, diz o pai-coruja.

Hoje Goffredo Telles colhe o que plantou. Vive os louros do sucesso de vendas de A Folha Dobrada. A obra autobiográfica foi lançada há menos de um ano e já tem várias edições esgotadas. As horas do dia correm divididas entre os conselhos a seus alunos e a observação do movimento das pombas que pousam na janela de seu escritório. “Recebo a visita delas todas as manhãs. Eu as alimento e elas me saúdam”, diz. Aves e discípulos completam o seu ritual de todas as manhãs. “Tomo o meu café e espero meus alunos, dos quais sempre serei um servo.”

 

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