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| Meireles
e a obra “Zero Dollar” : 30 anos de questionamento político |
O
artista que há 30 anos incendiou galinhas, escreveu Yankees,
go home em garrafas de Coca-Cola, carimbou notas de um cruzeiro
com a frase Quem matou Herzog? e depois se mandou
para Nova York ganha uma exposição retrospectiva
no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Trata-se de
Cildo Meireles, carioca, 52 anos, o homem que com apenas um carimbo
de borracha e uma nota de dinheiro cria uma obra.
Meireles
sabia que em 1975 ninguém rasgaria dinheiro para extinguir
a dúvida da real causa da morte do jornalista Wladimir
Herzog. Oficialmente, ele teria se suicidado na cadeia. Mas é
claro que o artista e boa parte dos brasileiros não acreditaram
na história. Essa verdadeira ojeriza aos meios de circulação
oficial, seja de informações ou de valores, sempre
moveu a obra de Meireles. E a sua trajetória também.
Quando foi incluído no Olimpo da arte brasileira, em 1969,
recebendo o primeiro prêmio do Salão da Bússula,
no MAM-Rio, mudou-se para Nova York com o pretexto de iniciar
uma carreira internacional. Fez uma exposição, mas
logo depois Meireles fez questão de sumir. Não
fiz nenhum contato de trabalho lá, estava numa fase rimbaudiana.
Comecei a trabalhar com um jamaicano numa fábrica de objetos
de decoração, diz.
Seis
meses depois, o artista aproveitou a bicicleta com que passeava
pela cidade para mudar de emprego. Virou entregador. Gostava
do que fazia. O tempo livre ele preenchia com visitas ao
MoMA. Tinha uma carteirinha que me permitia entrar de graça
no museu e dava 50% de desconto na livraria.
Voltando ao Rio, em 1973, quis continuar fazendo a mesma coisa.
Mas o medo de morrer atropelado falou mais alto, diz
Meireles. Voltou aos desenhos e à pesquisa, acrescentando
a uma obra já contundente novas formas de questionamento
político. Em Zero Cruzeiro e Zero Dollar (1977), substituiu
as efígies de heróis nacionais por índios
e internos de instituições psiquiátricas.
Os índios foram-lhe sempre familiares. O pai
de Meireles era indigenista, razão pela qual morou no Pará
até os 10 anos, antes de se mudar para Brasília.
O que se vê no MAM é uma seleção de
obras feita originalmente para o New Museum of Contemporary Art
de Nova York, merecedora de resenhas para lá de elogiosas
nas revistas New Yorker e Time Out no começo do ano. É
a maior retrospectiva dedicada a Meireles, que continua andando
de bicicleta, agora em volta da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio.