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Jamelão,
87 anos
Uma
vida com o samba no gogó
Ex-vendedor
de jornais dos subúrbios cariocas e cantor de rádio, o ícone da
Mangueira lança novo CD com a voz tinindo como há oito décadas
Luís
Edmundo Araújo
| André
Dusek |
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“Você
gravava um disco, entregava na rádio, ia embora e eles tocavam.
Hoje, se você não tiver um bom dinheiro no bolso, isso não
acontece”, diz Jamelão. No destaque, o cantor em 1948, época
da Gafieira do Jardim Meyer, no Rio
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São
87 anos de idade e uma voz que permanece como uma das mais potentes
da Música Popular Brasileira. Conhecido há anos por embalar os desfiles
da Mangueira, a mais tradicional das escolas de samba do Rio de
Janeiro, o cantor Jamelão continua na ativa fora do carnaval. A
idade e um certo desânimo confesso em relação ao momento atual da
música no País não o impediram de lançar mais um disco. O novo CD,
Por Força do Hábito, vem se juntar aos outros 40 de sua carreira
como crooner e intérprete de samba canção, iniciada no auge das
emissoras de rádio, durante os anos 40.
Nascido
no dia 12 de maio de 1913, o menino José Bispo Clementino dos Santos
começou a usar a voz para viver muito cedo. Aos 10 anos, era conhecido
como o moleque Saruê e já gritava pelas ruas vendendo jornais nos
subúrbios cariocas. A identificação com a música começou nos anos
20, quando José Bispo conciliava o trabalho na fábrica têxtil Confiança
com apresentações noturnas, como cantor e tocador de cavaquinho
no antigo Clube Cajuti, em Vila Isabel, Zona Norte do Rio. A fábrica,
que ficava no mesmo bairro, era a mesma citada por Noel Rosa no
samba Três Apitos.
Antes
de conquistar espaço nas rádios, o cantor iniciante se virava como
divulgador de sambas, profissão existente na época. No início dos
anos 40, muitos compositores testavam suas músicas em cabarés e
gafieiras. Para isso, contratavam um cantor desconhecido que interpretava
as composições. Caso as músicas agradassem ao público, eram entregues
para cantores famosos gravarem. Durante oito anos, Jamelão trabalhou
nesse ofício, quando imitava os maiores cantores da época, como
Orlando Silva e Ciro Monteiro, até conseguir ser contratado na antiga
Rádio Clube do Brasil.
O
apelido ele ganhou por acaso, antes de começar a cantar. Numa gafieira,
José Bispo foi vítima de uma brincadeira dos amigos, que pediram
ao gerente para chamar o ainda aprendiz de cantor ao palco. Sem
saber o nome do futuro intérprete, o gerente o apresentou como Jamelão.
O
apelido pegou e, a partir daí, o nome José Bispo começou a ser esquecido.
Da época áurea do rádio, o cantor guarda boas lembranças. “Você
gravava um disco, entregava na rádio, ia embora e eles tocavam”,
conta. “Hoje, se você não tiver um bom dinheiro no bolso, isso não
acontece.”
Paralelamente
à vida de cantor de rádio e boates, Jamelão começou a fazer história
na Mangueira, da qual passou a fazer parte aos 14 anos. O cantor
começou a desfilar na escola em 1933, primeiro na bateria, tocando
tamborim e pandeiro num tempo em que ainda não existia samba enredo.
Depois, na década de 50, Jamelão assumiu o posto de puxador de samba
oficial da Mangueira, que ocupa até hoje. Naquela época, a Avenida
Marquês de Sapucaí ainda não era o palco dos desfiles, que eram
realizados na Praça Onze, também no centro do Rio de Janeiro. Sem
os microfones e toda a aparelhagem de som dos carnavais contemporâneos,
o puxador da escola levava o samba no gogó, às vezes com o auxílio
apenas de um megafone.
No
cenário musical, outra diferença apontada por Jamelão foi a inversão
dos papéis do cantor e do compositor com o passar do tempo. “Antigamente,
o compositor procurava o cantor para ter suas músicas gravadas”,
lembra o intérprete que imortalizou sucessos de Ary Barroso e Lupicínio
Rodrigues, entre outros mestres do samba. “Hoje, o cantor é que
procura o autor, mas nem sempre consegue a cessão de direitos para
a gravação das músicas”, diz. “Os compositores querem cantar suas
próprias canções.” O resultado disso, na opinião do cantor, é a
falta de renovação na música brasileira. “Até pode ter gente hoje
comparável ao pessoal da antiga, como Cartola e Ismael Silva, mas
ninguém repara porque tem um monte de gente cantando sempre a mesma
coisa. Ninguém quer arriscar, sair do filão.”
Para
fugir do filão do pagode e do sertanejo, Jamelão continua apostando
no samba canção, gênero que nunca abandonou desde o início da carreira.
No novo disco, ele canta doze músicas de um autor desconhecido,
Alberto Gino, além de uma dele próprio em parceria com Luís Antônio
Xavier, e outra de Anselmo Mazzoni com Victor Hugo. “Procurei gravar
um disco novo. Quero que as pessoas ouçam e analisem.” O cantor
só não vai conseguir se apresentar como gostaria, acompanhado da
orquestra de 20 músicas que participou da gravação do disco. “Hoje
custa muito caro se apresentar com orquestra. Antigamente era mais
fácil”, diz o intérprete, sem esconder o desânimo.
Casado
há 50 anos com Delice e pai de Joceli, 48, Jamelão continua morando
no apartamento de Vila Isabel e, por enquanto, nem cogita da possibilidade
de se aposentar. “Enquanto eu puder cantar e continuarem me chamando,
eu canto”, afirma. “Tem outros que perderam a voz, mas felizmente
Deus ainda me permite cantar.”
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