|

Justiça
Quem
é o calo dos políticos
O procurador da República Luiz Francisco Fernandes de Souza é solteiro,
não pensa em casamento, mora com os pais, dirige um fusca ultrapassado
e não tem pretensões políticas
André
Barreto
|
Foto:Felipe
Barra
|
 |
|
“As
pessoas que brincam com o defeito físico dos outros são imbecis”,
diz o procurador Luiz Francisco
|
Ele
é um marxista de carteirinha, ex-seminarista e é acusado
de ter espancado uma mulher, em um motel de Brasília. Mas
sem comprovação por quem o acusou, o ex-senador Luiz
Estevão. Aos 38 anos, o procurador Luiz Francisco Fernandes
de Souza causa terror. Não em motéis brasilienses.
Mas entre figuras políticas de quilate do País. A
simples menção de seu nome provoca arrepios no ex-governador
do Acre Orleir Cameli, no senador cassado Luiz Estevão, no
ex-deputado Hidelbrando Pascoal, nos ex-ministros Rafael Grecca
e em Eduardo Jorge, o ex-secretário geral da Presidência
da República. O mesmo receio se estende ao governador do
Distrito Federal, Joaquim Roriz, ao banqueiro Salvatore Cacciolla,
ao ministro Martus Tavares e à diretora do Banco Central
Tereza Grossi. Todos de algum modo suspeitos de infringir a lei,
por irregularidades financeiras ou administrativas e que estão
sendo investigadas pelo Ministério Público. Dos desafetos,
recebeu o apelido de Quasimodo, o nome do Corcunda de Notre Dame,
numa referência a seu problema nas costas. As pessoas
que brincam com o defeito físico dos outros são imbecis,
diz.
Míope
desde os quatro anos, o brasiliense deixou de praticar esportes
na adolescência. Abandonei o karatê aos 17 anos,
porque não conseguia ver os golpes a tempo, explica.
Sua grande paixão foi a leitura. Aos 18 anos, seguiu para
São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, onde iniciaria a carreira
religiosa. Em seguida, mudou-se para Cascavel, no Paraná,
onde estudou por dois anos na província sul dos jesuítas.
Foi nessa época que atuou na evangelização
dos sem-terra.
Luiz
Francisco deixou a vida religiosa, e voltou para Brasília
em 1985, depois de ter sido atropelado, em Cascavel. Ficou quatro
dias desacordado e um mês sem levantar da cama. Colocou platina
no braço esquerdo e até hoje guarda marcas do fato
que modificou sua vida. Mas o que o assusta são as armadilhas
de adversários: Tenho medo de canalhice como aquela
acusação de espancamento de uma mulher.
Solteiro,
ele mora com os pais e passa a maior parte do tempo cercado por
papéis. Com um salário de R$ 6 mil, não gosta
de falar da vida pessoal. Basicamente não tenho vida
privada, estou sempre trabalhando, esquiva-se. Nunca se preocupou
com casamento. Teve namoradas na adolescência, mas voltou-se
para suas paixões: a religião e as questões
sociais. Foi bancário e sindicalista antes de ser promotor.
Participei de todas as greves e faria tudo de novo.
Em
1995, desfiliou-se do PT, cerca de 20 dias antes de se tornar procurador.
Na opinião dele, a militância é incompatível
com o cargo. Ameaçado de morte pelo ex-governador do Acre
Orleir Cameli, ele se sentiu mais motivado a continuar nessa cruzada
contra a corrupção. E não alimenta nenhuma
pretensão política. Sonho apenas em me aposentar
como procurador, diz Luiz Francisco.
|
Viciado
em trabalho
|
Luiz Francisco Fernandes de Souza ainda mora com os pais,
anda num fusca 85, usa ternos sem gravatas e reserva boa
parte de seu salário aos movimentos sociais. Porém,
não revela o destino de sua contribuição
financeira. Dono de uma biblioteca particular de 7 mil
livros e de um banco de dados de fazer inveja à
Polícia Federal, ele só pensa em trabalhar.
Ex-seminarista da ordem dos jesuítas, não
respeita feriados, dorme pouco e não é adepto
de viagens ou esportes. Trabalhar é a minha
grande diversão, garante.
|
|
|