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Esporte

Quando o asfalto vira água
O piloto paranaense Raul Boesel, desempregado há mais de um ano, disputa o Campeonato Americano de Off-Shore a bordo de uma lancha que atinge 210 km/h

Carlos Henrique Ramos

Foto: Emerido Pulhol
Boesel está entusiasmado em competir no mar: “É uma emoção fascinante, posso contabilizar como mais uma loucura em meu currículo”, diz o piloto

O piloto que já domou as armadilhas do traiçoeiro circuito de rua do Principado de Mônaco e beirou os 400 km/h no oval de Indianápolis está desempregado há mais de um ano. Saudoso da velocidade, o paranaense Raul Mesquita Boesel, 42 anos, distanciou-se da emoção do asfalto para senti-la na água. É isso mesmo. Sem um carro para acelerar, ele foi convidado por Phil Lipschutz, um veterano que acumula mais de 30 anos de experiência de motonáutica, para disputar o Campeonato Americano de Off-Shore, na categoria “Super V”. “É uma emoção diferente e completamente oposta daquela que vivenciei dentro das pistas”, diz Boesel. “Contabilizo como mais uma loucura no meu currículo.”

O barco, um gigante construído em fibra de carbono, de 46 pés de comprimento (13 metros), é uma espécie de foguete aquático. Impulsionado por dois motores de 1.100 cavalos cada, pode atingir a velocidade de 210 km/h. “No automobilismo chega a ser até devagar, mas no mar parece que é o dobro”, explica. O timão fica por conta de Boesel, enquanto Lipschutz é o throttle man – o homem responsável pela aceleração. A comunicação é feita por rádio, no interior de uma cabine fechada. “As dificuldades são enormes, principalmente porque as condições da pista vão mudando de acordo com as ondas e as marolas das outras lanchas”, afirma. O mais difícil, nesse caso, é manter a trajetória. “Para quem está acostumado a frear, acelerar e comandar o volante ao mesmo tempo, é muito estranho, mas divertido”, compara.

O mais novo passatempo de Boesel produz resultados. Em sua estréia na competição, enfrentou formações de até dois metros. Mas conduziu o bólido ao segundo lugar na prova. Nas outras duas corridas das quais participou, o motor boicotou a dupla. “Está bom demais para quem não tem experiência”, acredita. Mas o piloto não é propriamente um estreante nos esportes aquáticos. Desde 1993, no fundo da sua casa, às margens da baía de Key Biscayne, na Flórida, nos Estados Unidos, está ancorada sua lancha. É um modelo com 12 metros de comprimento, impulsionado por dois propulsores de 500 cavalos. É nesse veículo que ele pratica um de seus hobbies preferidos, a caça submarina, ao lado da mulher Vera e dos filhos Raul e Gabriela. “O mar sempre esteve presente em minha vida”, diz.

Enquanto o oceano supre a carência impulsionada pelo desejo de estar em constante aceleração, Boesel se movimenta nos bastidores para retornar às pistas. Por enquanto, apenas promessas para o ano que vem. O campeão mundial de marcas de 1987, com um Jaguar, ainda se julga competitivo. E quer retomar uma carreira que iniciou-se com o título paranaense de kart, em 1974, e acumula 23 GPs na F-1 e outros 171 na F-Indy. “Ainda tenho gás para usar, nunca pensei em me aposentar nem me falta motivação”, garante. Nessas duas categorias, porém, nunca conseguiu vencer, sina que lhe valeu a fama de piloto azarado. “Não acredito nisso. Nas oportunidades em que estive para ganhar, o equipamento falhou.” Ele se refere principalmente ao episódio ocorrido em 1995, quando esteve próximo da consagração em Indianápolis. “Uma peça que custava 50 dólares quebrou e me tirou do páreo.”

AMIGO DO GENERAL A passagem de Raul Boesel pela F-1 também foi minada por frustrações. E algumas polêmicas. Em 1982, aos 24 anos, assinou contrato para correr na March. Foram dias tensos. O péssimo relacionamento com o também brasileiro Chico Serra acabou em pancadaria e troca de socos, durante os treinos para o GP do Canadá. No ano seguinte, transferiu-se para a Ligier. O máximo que conseguiu foi um sétimo lugar, no GP de Long Beach, nos Estados Unidos. Fora das pistas, teve seu patrocínio estatal questionado no Congresso Nacional, em Brasília. Em 1983, o deputado federal mineiro Luís Leal denunciou o Instituto Brasileiro do Café (IBC) e a Embratur de injetarem US$ 1 milhão na sua carreira. “Recebi US$ 350 mil”, afirmou, na época.

A explicação, no entanto, não convencia. A amizade que unia Raul Boesel ao então presidente da República, João Baptista Figueiredo, instigava o circo da velocidade. O amor pelos cavalos uniu os dois personagens. Quando a agenda permitia, galopavam juntos. As denúncias caíram no vazio e, dezesseis anos depois desse fato, o piloto paranaense não fica à vontade para essas reminiscências. A F-1 não deixou saudades. Ele costuma referir-se a sua passagem por lá como um grande pesadelo, apesar do aprendizado. E hoje em dia é o pesadelo do desemprego que Boesel tenta afastar a bordo de uma lancha.

 

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