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Um teatro no meio do caminho
José Celso Martinez Corrêa, diretor do Teatro Oficina, briga com o Grupo Silvio Santos por causa da construção de um shopping no terreno vizinho

Paula Quental

Edu Lopes
“Não queremos ficar num beco sem saída. O Oficina, por natureza, é anti-shopping”, diz Zé Celso

Ele tem um pouco de louco, um pouco de gênio e muito de abusado. O diretor José Celso Martinez Corrêa foi responsável por montagens revolucionárias, como Rei da Vela, que deu vida ao texto de Oswald de Andrade, nos anos 60. Mais recentemente, colecionou prêmios com Cacilda!, peça sobre a vida da atriz Cacilda Becker. Agora, aos 62 anos, soma mais uma ousadia à sua história: resolveu abrir a artilharia contra um gigante da indústria de entretenimento, o apresentador Silvio Santos, dono do SBT. O motivo: um shopping de oito pavimentos e mais de 8 mil metros quadrados que o Grupo Silvio Santos quer erguer ao redor do Teatro Oficina, dirigido por Zé Celso e localizado na Bela Vista, bairro histórico e central de São Paulo. “Vamos ficar num beco sem saída. O Oficina, por natureza, é o anti-shopping!”, brada Zé Celso.

Para impedir a construção do shopping da forma como está previsto no projeto (orçado em R$ 75 milhões), o diretor está mobilizando a classe artística e o público que freqüenta as peças encenadas no Oficina. Já colheu mais de 3 mil assinaturas contra o empreendimento. Também vem tentando, sem sucesso, desde 1997, quando o projeto do shopping teve o aval da prefeitura, falar pessoalmente com Silvio Santos. “Quero sensibilizar o artista que ele é, mas ele não me recebe!” Zé Celso já tentou de tudo: cartas, mensagens por internet, recados pela imprensa e até um contato com a filha de Silvio, Cíntia Abravanel, que dirige um teatro na mesma rua, o Imprensa. “Ela foi simpática, nos ouviu com atenção, disse que ia falar com o pai. No dia seguinte, não nos recebeu mais”, reclama Zé Celso.

Projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi e tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) em 1982, o prédio do Oficina é, na verdade, uma obra inacabada. “O projeto de Lina previa a derrubada da parede dos fundos e a abertura para um grande teatro grego, a céu aberto, no terreno que fica atrás do Oficina”, explica Zé Celso. “O que foi tombado não foi o prédio, mas um projeto cultural, que está sendo descaracterizado”, diz a urbanista Raquel Rolnik. A área do que seria o teatro grego, com mais ou menos 600 metros quadrados, é hoje um estacionamento e pertence ao Grupo Silvio Santos. Deverá ser usado na construção do shopping que, segundo Zé Celso, fere ainda o projeto de Lina ao prejudicar a entrada de luz do sol pelas vidraças do teatro. A luz natural é utilizada nos espetáculos de matinê.

O engenheiro responsável pelo empreendimento, Eduardo Velucci, incumbido de ser o porta-voz do grupo SS, formado por 34 empresas, não entende a reação de Zé Celso. Segundo ele, o projeto foi feito de tal forma que preserva a luminosidade do teatro, cujo entorno, numa área de 250 metros quadrados, será de jardins. Velucci também argumenta que não se trata de um shopping, mas de um grande centro cultural e de entretenimento, que terá teatros, cinemas, lojas de discos, livrarias e um parque temático. “O Zé Celso deveria estar muito feliz, porque um projeto como esse vai até trazer mais público para o próprio Oficina, que ficou esquecido no tempo. É a chance de ele voltar a ficar famoso no novo milênio”, diz.

De acordo com Velucci, o empreendimento conta com o apoio dos moradores do bairro e até de entidades como o Viva Centro, que trabalha pela revitalização do centro de São Paulo. “Não queremos criar polêmica, temos certeza que o Zé Celso vai entender. O projeto é bom para a Bela Vista, que é a Broadway paulista”, diz.

O advogado do Teatro Oficina, Maurício Benedetti, explica que o objetivo não é impedir a construção do shopping, mas negociar com o Grupo Silvio Santos um projeto que seja compatível com o do Oficina. “Por lei, a área de 300 metros ao redor do bem tombado tem de abrigar projetos compatíveis na arquitetura e na estética com o bem tombado. Não podem prejudicar a sua visibilidade”, diz ele. Com base nisso, há dois meses, o procurador de Justiça Daniel Finc iniciou uma investigação para saber até que ponto o projeto pode interferir sobre o bem tombado.

Esse argumento inspirou Zé Celso a querer levar adiante a idéia de Lina Bo Bardi, já falecida, e construir o teatro grego, que serviria como espaço de integração entre o shopping e o teatro. “Ele tem de entender que é a lógica da propriedade privada. Um teatro como esse não seria rentável”, rebate Velucci. Apesar de ter consciência de que se trata de uma briga desigual, Zé Celso acha que está, dessa forma, cumprindo o seu papel de artista. “Essa corporação é riquíssima, acho que pode abrir mão do projeto por uma dívida social e cultural”, discursa.

 

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