|

Superação
Reconstruindo
Tássia
De volta às novelas, Tássia Camargo ainda não compreende a morte
da filha de dois anos, em 1996, mas diz que venceu os piores momentos
e é feliz
Rosângela
Honor
|
Leandro
Pimentel
|
 |
|
Aos
39 anos, ela volta com energia para o trabalho em O Cravo
e a Rosa: “Sentia falta”
|
Passaram-se
16 anos desde que uma jovem atriz seduziu o País na pele
da sensual e brejeira Nicinha, na minissérie Rabo de Saia,
dirigida por Walter Avancini. Com pouco mais de um metro e meio,
jeito ingênuo e sorriso desconcertante, Tássia Camargo
foi a grande surpresa do seriado. Era uma das três mulheres
do caixeiro viajante Quequé, vivido por Ney Latorraca. Agora,
ela volta às novelas em O Cravo e a Rosa, depois de
um afastamento de quatro anos. Na pele da sensual lavadeira Joana
Penaforte, ela pensa estar casada justamente com um caixeiro viajante.
Aos 39 anos, Tássia retorna com a mesma graça que
a transformou num dos símbolos sexuais dos anos 80. Convidada
apenas para participações-relâmpago e contratada
da Rede Globo há quase 20 anos, não sabe explicar
o afastamento. Sentia falta, diz. Nesse tempo, fez aparições
em programas como Você Decide e na minissérie
Dona Flor. Tássia enveredou pela produção
de teatro e deu aulas de interpretação, inclusive
para Xuxa, antes das filmagens de Xuxa Requebra, no qual
atuou. No momento, produz a peça Intimate Exchange,
do inglês Alan Ayckbourn, que deve montar em 2001.
O mergulho no trabalho é constante na vida de Tássia
nos últimos anos. Mas precisamente desde 1996, quando perdeu
a filha, Maria Júlia, de 2 anos, vítima de rubéola
congênita tardia. Desde então, sua vida deu uma guinada.
Depois de quatro anos, ainda se reconstruindo, até hoje não
consegue entender a morte da menina. Tem dias que parece que
tudo aconteceu ontem, em outros, parece que se passaram 30 anos,
conta. A saudade e a dor são as mesmas.
Tássia foi em busca de explicações em centros
kardecistas, mas hoje não crê em Deus. Pouco antes
da morte da filha, Tássia perdeu o pai. Três dias depois
do falecimento de Maria Júlia, separou-se do músico
Marinho Boffa, com quem foi casada por 11 anos. O relacionamento
já vivia uma crise, explica. Uma semana depois da tragédia,
Tássia mergulhou nas gravações de um episódio
do Você Decide. A gente espera que uma pessoa
mais idosa morra primeiro e não uma filha de dois anos,
diz.
Os momentos mais difíceis foram superados com o apoio integral
dos filhos Pedro, 16 anos, e Diego, de 13. Durante três anos,
ela e os garotos fizeram análise para tentar superar o trauma.
Mas até hoje os três se surpreendem falando sobre a
menina como se ela estivesse viva e ocupando um dos quartos do apartamento
onde moram no Leblon, na zona sul do Rio. Fotos de Maria Júlia
continuam espalhadas em porta-retratos pela casa. As datas festivas
como Natal e Ano Novo já são comemoradas com menos
dor. Mas Tássia reconhece que ficou mais cautelosa com os
garotos, argumenta que faz até um certo esforço para
não sufocá-los com muita atenção. Outro
dia, entrou em pânico quando um deles teve um febrão
inesperado. Antes, achava que febre dava e passava, hoje vejo
que não é bem assim, diz.
Pouco tempo depois da morte de Maria Júlia, Tássia
tomou uma decisão da qual não se arrepende. Fez uma
ligadura de trompas para não ter mais filhos. Não
tem como substituí-la. Até hoje quando é
indagada sobre o número de filhos que tem, a resposta é
invariável: Três. Tassia diz que não
tem mais forças para enfrentar uma situação
semelhante. Acho que minha cota de resistência acabou,
quero morrer antes das pessoas.
VÔO
DE ASA-DELTA Tássia Camargo lembra que, na ocasião,
chegou a procurar o Ministério da Saúde para tentar
esclarecer melhor a doença que vitimou a menina. O laudo
da autópsia revelou que ela teria sido provocada pelo vírus
da rubéola incubado no organismo da mãe, que desenvolvera
a doença na juventude. Maria Júlia nasceu normal,
mas pouco antes de morrer foi perdendo progressivamente a audição,
a visão e, finalmente, deixou de andar. Tássia percebeu
os sintomas antes dos médicos, que nunca conseguiram diagnosticar
a doença. Sempre achei que o perigo era contrair rubéola
durante a gravidez, diz. Procurei o Ministério
para que eles fizessem uma campanha de esclarecimento, mas ninguém
me ouviu, constata.
Hoje, Tássia já superou os momentos mais difíceis
e se diz uma pessoa feliz. Quando se sente estressada, lança
mão de uma fórmula infalível: faz vôo
duplo de asa-delta. É uma maneira de eu me sentir leve,
ensina. Às vésperas de completar 40 anos, conta que,
como a maioria das mulheres nessa idade, vai passar por uma crise.
Não que se ache fora de forma ou envelhecida. Tenho
medo de ficar dependente dos outros, justifica, referindo-se
à velhice. Tássia afirma que hoje não repetiria,
por nenhum dinheiro do mundo, ensaios de nu. Ela posou
quatro vezes. Fiz porque tive vontade e porque a grana era
legal, diz. Mas hoje minha cabeça é outra.
Quer
mesmo é investir na carreira e não na imagem da mulher
sensual. Mulherão, eu? Mulherão é Vera
Fischer, deusa que põe no chinelo mulheres de 15, 20, 30
e 40 anos, diz. Não me sinto caída, mas
quero ser lembrada pelo público por meu trabalho. Ney
Latorraca, seu parceiro na minissérie Rabo de Saia,
não mede as palavras para elogiá-la. Sou fã
da Tássia, ela é uma atriz do primeiro time,
diz. Ele lembra-se da primeira vez que a viu em cena, em São
Paulo, quando ela ainda era desconhecida do grande público
e integrava o grupo de atores do diretor Antunes Filho. Tássia
me chamou tanto a atenção que depois do espetáculo
fui cumprimentá-la, recorda. É uma mulher
muito forte e uma ótima mãe.
|