|

Política
O
discreto poder de Marco Maciel
Até o final da gestão FHC, o vice-presidente terá governado o Brasil
por mais de um ano, mas suas manias, estilo e idéias permanecem
distantes do grande público
Cláudia
Carneiro
|
Felipe
Barra
|
 |
|
Marco
Maciel foi governo durante o regime militar, na aliança para
eleger Tancredo Neves e agora com FHC: “O vice deve ser discreto,
mas não pode ser omisso”
|
Na
sexta-feira, 30 de junho, pela 61ª vez, Marco Maciel devolveu
o bastão da Presidência ao titular Fernando Henrique
Cardoso, que chegava de uma viagem de três dias à Argentina.
Na surdina, o vice-presidente de 59 anos quebra o próprio
recorde. Dos 2.014 dias do governo de FHC, por 235 ele teve o poder
em suas mãos. Na ponta do lápis, para cada semana
de gestão FHC, o vice governou pelo menos um dia.
Marco
Maciel já presidiu o Brasil 29 dias a mais do que o presidente
Jânio Quadros, que renunciou em agosto de 1961. O vice
tem de ser discreto, diz. Mas não pode ser omisso.
Marco Maciel é um tipo de vice que não causa problemas
ao titular. Na sexta-feira 30, depois de assinar calhamaços
de medidas provisórias e conversar com dezenas de parlamentares,
ele despachou rapidamente com o chefe recém-chegado. Como
foi a viagem, perguntou a FHC. Aqui ficou tudo tranqüilo.
Raramente essa rotina foi quebrada. Uma das exceções
ocorreu em junho de 1997. Coube ao presidente em exercício
tomar a decisão de colocar o Exército nas ruas de
Belo Horizonte para sufocar uma invasão dos policiais militares
grevistas ao Palácio da Liberdade. O confronto terminou com
um morto. Nessa hora, a decisão de um governante tem
de ser solitária, diz. Em outro episódio, ele
avisou seu superior, em viagem à Espanha, da morte do deputado
Luís Eduardo Magalhães, em 1998.
Das mais de 60 vezes em que assumiu o poder máximo do País,
Marco Maciel nunca se sentou literalmente na cadeira em que Fernando
Henrique faz seus despachos habituais. Em apenas duas ocasiões
chegou perto disso, ambas para cumprir obrigações
burocráticas no Salão Nobre, contíguo ao gabinete
presidencial. A primeira por insistência de Sérgio
Motta. O ministro das Comunicações quase o intimou
a deixar o amplo gabinete de 80 metros quadrados, no subsolo do
Palácio do Planalto, para participar da solenidade de lançamento
de um satélite. De outra feita, Marco Maciel subiu ao Salão
Nobre para marcar presença na cerimônia de concessão
a grupos estrangeiros do setor ferroviário Leste.
Entre as funções normais do vice, uma merece dedicação
com especial afinco. Maciel não mede esforços para
ver realizada a reforma política. O vice tem um conjunto
de idéias que discute freqüentemente com parlamentares,
inclusive os do PT. Ele quer estender à opinião pública
a responsabilidade de decidir temas polêmicos, ao sugerir
a implantação de um plebiscito via internet. Na sua
avaliação, a adoção da pena de morte
deve, por exemplo, ser submetida primeiro à população
e depois ao Congresso. Nem tudo tem de depender só
do Legislativo, afirma.
Paradoxalmente, o vice-presidente da República tem aversão
às modernidades virtuais. Nunca escreveu um discurso num
computador, talvez porque jamais usou uma máquina de escrever
com este propósito. Maciel é um árduo defensor
do papel e da caneta. Sou da grafosfera, não sou da
videosfera, sintetiza. Por sorte, abandonei a caneta
tinteiro e adotei a esferográfica. É um avanço.
Próxima >>
|