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Por
onde anda
Na
bossa da caixoterapia
Sem gravadora, Carlos Lyra lança CD com songbook, e diz que resolveu
até crises conjugais com a mulher, Kate Lyra, dentro de um caixote
em casa
Luís
Edmundo Araújo
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Zeca
Fonseca
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Com
a filha Kay e a mulher Kate, famosa pelo bordão “brasileiro
é tão bonzinho”, no apartamento no Leblon: ali fica a caixa
equipada com sistema de ventilação, exaustor, lanterna e luvas
de boxe
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Los
Angeles, 1974. O violonista Carlos Lyra esbarra com John Lennon
numa loja de discos. Ambos carregam um travesseiro. Não por
coincidência. Os dois se submetiam a sessões da primal
therapy terapia da moda na época num instituto
daquela cidade. O tratamento consistia em se isolar durante algumas
semanas num quarto com a missão de escrever um diário.
Concluída a tarefa, o paciente tinha consultas individuais
com um terapeuta, antes de entrar numa sala com os demais para extravasar
suas emoções das mais diversas formas. Era gente
gritando e chorando em todas as línguas possíveis,
lembra o compositor. Quem preferisse, poderia ficar deitado numa
sala vazia. Isso explicava o travesseiro. O diálogo com o
ex-beatle se resumiu a poucas palavras. Perguntei o que ele
achava da terapia e ele me respondeu que aquilo tinha salvado a
vida dele, conta Lyra.
Hoje
a psicoterapia, a astrologia e o xadrez são hobbies na vida
de um dos fundadores da bossa nova. Aos 60 anos, Lyra completa 45
de carreira, iniciada com a gravação de Menina
num compacto de 78 rotações, que tinha do outro lado
Foi a Noite, de Tom Jobim, para muitos considerado o
primeiro registro da bossa nova. Sem gravadora, o músico
acaba de lançar um novo CD com songbook mais um curso prático
de violão. É uma grande armação,
mas honesta, diz. Estou encontrando formas alternativas
de vender disco. O estímulo final para a criação
do método de aprendizado de violão partiu da única
filha, Kay, 25, de seu casamento com a atriz americana Kate Lyra.
Do tratamento em Los Angeles, a que se submeteu até 1976,
Carlinhos guardou um hábito estranho. Em seu apartamento
no Leblon, zona sul do Rio, o músico tem uma caixa de madeira
com o comprimento de um homem de 1,80m deitado e a altura de alguém
com essa altura ajoelhado. A caixa é equipada com sistema
de ventilação, exaustor, lanterna e luvas de boxe.
Quando está triste ou revoltado com algo, a solução
é entrar na caixa. Foi o que fez no início do ano,
quando morreu seu burrinho de estimação, que mantinha
havia 20 anos em seu sítio de Saquarema. Lá dentro,
esmurrou uma das paredes da caixa para extravasar a emoção.
Em outra ocasião, se isolou ali com a mulher por algumas
horas até que resolvessem uma crise conjugal. É
o meu banheiro psicológico, afirma Lyra. Demoraria
20 anos fazendo análise para resolver o que soluciono ali
em meia hora.
Ele
e Kate estão casados há 30 anos. Ela ficou famosa
pelo bordão brasileiro é tão bonzinho,
nos programas Planeta dos Homens e Balança mais
não cai, na Globo, e na Praça da Alegria,
no SBT. Kate diz que utilizou uma vez a caixa como terapia. Hoje,
é adepta da meditação zen. Tenho
outros meios de resolver crises, diz ela, sem dizer a idade.
É
com bom humor que o violonista se lembra do surgimento da bossa
nova, ritmo que ajudou a criar e a difundir. O termo foi inventado
por acaso. Ao chegar à Sociedade Hebraica do Rio de Janeiro,
onde faria um show em 1957 com a cantora Silvinha Telles e os amigos
Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli e Nara Leão, surpreendeu-se
com o cartaz anunciando a apresentação dos Bossa Nova.
Um judeu baixinho era o diretor da casa e bolou o nome,
conta Lyra.
Sem gravar desde 1995, quando lançou o CD Carioca de Algema,
Lyra critica o mercado fonográfico. É pobre
e burro. O negócio hoje é pagode, ataca. A história
da bossa nova, criada por jovens de classe média e consumida
pelo mesmo público, é seu argumento. Mais de
20% da população com dinheiro compram bossa nova,
diz. Procuram nossos discos e não acham.
No método para violão, Carlos Lyra ensina a mesma
técnica que fez sucesso na sua antiga academia, reduto de
quem tocava e ouvia bossa nova nos anos 50 e 60. O primeiro aluno
foi o parceiro e amigo Roberto Menescal, que foi seu sócio
na academia. Outra aluna famosa foi Nara Leão. Juca Chaves
tentou se inscrever nas aulas, mas foi barrado pelo professor, desconfiado
de que o aluno não levaria a sério. O Juca sabia
tocar. Nem deixei ele entrar, lembra o autor de Minha Namorada.
Outras alunas recusadas: as filhas do então presidente Juscelino
Kubitschek, Maristela e Márcia. Queriam que eu fosse
ao Palácio do Catete, mas me recusei a dar aulas fora da
academia, lembra.
Afastado da política, o fundador do Centro Popular de Cultura
(CPC) e autor do hino da União Nacional dos Estudantes (UNE)
sempre viveu da música, apesar de incursões pela astrologia.
Lyra publicou dois livros, um para o antigo semanário Pasquim,
em 1972, e outro, Ayanamsa, em 1994, no qual o músico
teoriza sobre a astrologia egípcia.
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