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Nicolau Tuma, 89 anos

A metralhadora do rádio
O advogado Nicolau Tuma, pioneiro das transmissões ao vivo de futebol e de notícias sobre as guerras, foi um dos fundadores da Embratel

Fábio Bittencourt

Edu Lopes
“Não torço para ninguém”, diz Nicolau Tuma, o criador da palavra radialista na língua portuguesa

“Telefone do campo informa: no Parque Antarctica, o Corinthians vence o Palestra Itália por 2 a 1.” Dessa forma, os ouvintes das rádios ficavam sabendo como andavam seus times de futebol. O pontapé inicial das transmissões que se conhecem hoje nas rádios ocorreu em 1931. Num domingo ensolarado, uma equipe da Rádio Educadora Paulista desceu do táxi no campo da Floresta, às margens do rio Tietê, em São Paulo.

Enquanto quatro pessoas carregavam dois amplificadores e os microfones para a lateral do campo, o “speaker” – termo usado na época para identificar o locutor –, aquecia as cordas vocais para fazer o reconhecimento dos jogadores. “Senhores ouvintes, estamos com microfones instalados no campo, não mais para dar notícias – uma a uma –, mas para acompanhar todas as emoções da partida entre paulistas e paranaenses.” A introdução foi feita pela voz impostada de Nicolau Tuma, o pioneiro na nova era das transmissões ao vivo de futebol.

Para situar os ouvintes desabituados a narrações futebolísticas, Tuma pediu que imaginassem uma caixa de fósforo: “Do lado esquerdo estão os paulistas e do outro os paranaenses”, ensinou. “Traduzíamos muitos termos do inglês para o português”, lembra Tuma. A explicação é simples. Como o futebol é uma criação inglesa, os termos como “corner” (escanteio) foram absorvidos pela língua. “Ficava mais claro para o ouvinte imaginar onde estava a bola.” Na medida em que a rádio ampliava sua audiência, as concorrentes aderiram ao novo sistema de transmissão. “O sucesso foi grande”, lembra.

Aos 16 anos, filho de José Tuma, um comerciante libanês, e de Emília Tuma, dona-de-casa, começou a trabalhar em jornais paulistanos para reforçar a renda da família, composta por mais sete irmãos. Dois anos mais tarde, arrumou emprego na rádio Educadora Paulista para sustentar os estudos de Direito. Tentou por alguns meses, depois de terminar a faculdade, abraçar a nova profissão. Em vão. Acabou retornando ao rádio. “Era uma das profissões que melhor pagava naquela época”, lembra. “Dava até para casar.” Foi o que fez. Em 1937, casou-se com Julieta Dabus Tuma, e teve a filha, Ana Maria, hoje com 59 anos. Três anos e meio depois, Tuma ficou viúvo. “Eu morri junto com ela. Só não fui enterrado porque tinha uma filha para cuidar”, diz o radialista. Anos mais tarde, conheceu Lúcia de Barros Tuma, 86 anos, com quem vive há 36 anos.

As narrações prosseguiram. De um dos jogos entre Vasco e Flamengo, no Rio de Janeiro, Tuma ganhou o apelido de “metralhadora”. O comentarista da partida era o humorista Barbosa Filho, que num determinado instante do jogo emendou: “Esse Nicolau Tuma não é gente. É uma metralhadora, fala mais depressa que o jogo.” Tuma chegava a falar até 250 palavras por minuto.

O radialista ampliou os horizontes profissionais na rádio. Em 1932, destacou-se como um dos principais locutores nos 78 dias de transmissões da Revolução Constitucionalista, em São Paulo. Dois anos mais tarde, foi convidado pela rádio Mayrink Veiga para narrar a “1ª Corrida Internacional da Gávea”, no Rio. Como não tinha visão completa do autódromo, destacou funcionários para cobrir os lugares mais distantes. “Eles me informavam pelo telefone”, recorda Tuma. “No final, parecia que eu havia acompanhado tudo.”

Em 1943, foi contratado por Assis Chateaubriand para ser o diretor da Rede de Emissoras Associadas do Brasil. Um ano depois, recebeu um telefonema à meia-noite de um funcionário da rádio Tamoio. “Doutor, chegou um telex aqui dizendo que as tropas aliadas invadiram a Normandia”, disse o rapaz. Tuma pediu para que ele convocasse os técnicos da emissora, que já estava fora do ar. Pelo telefone, deu a notícia que ficaria conhecida na história como o Dia D. “Acordei o Brasil naquele noite”, diz.

No mesmo ano, Tuma fundou a Associação Brasileira de Rádio. No estatuto da entidade, utilizou o termo “radialista” para designar os profissionais do veículo. Três anos depois, atuando na área publicitária, foi eleito vereador com mil votos a mais do que Jânio Quadros. Abraçou a política e foi eleito deputado federal, em 1958. Em Brasília, foi relator do Código Nacional de Trânsito, do Código Brasileiro de Telecomunicações e um dos fundadores da Embratel.

Hoje, aposentado, é representante da Prefeitura no Conselho Municipal de Turismo. Mantém um escritório de advocacia em São Paulo, onde guarda álbuns com recortes de jornais e revistas da era do rádio. Da convivência com o futebol, sobrou a vontade para comemorar todas as festas de campeonatos. “Não torço para ninguém. É vantagem para se comemorar mais.”



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