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Meio-ambiente
Guerreiro
da Amazônia
Ativista do Greenpeace, Eduardo Quartim passa 30 horas no mastro
de um navio em Londres para impedir o comércio ilegal de madeira
da floresta
Mariana
Barbosa, de Londres, e Erica Benute
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Greenpeace/Pratginestós
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Depois
da ação no MV Enif , Quartim passou quase dois dias preso
na Inglaterra e agora aguarda sua liberação do país: celular
em punho, durante a operação, para divulgar a causa
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Na
noite da terça-feira 20, o brasileiro Eduardo Quartim ligou do celular
para sua mulher, Patrícia Rodrigues. Ela acabara de vê-lo ao vivo
no Jornal Nacional. “Você está mesmo bem?”, perguntava preocupada.
Ele tranqüilizou a mulher. Estava bem, sim. Apesar de estar falando
com Patrícia ao telefone, Quartim estava preso por uma corrente
no alto do mastro de 30 metros de um navio ancorado no rio Tâmisa,
em Londres.
Ele
era o único brasileiro dos seis voluntários da organização ambientalista
Greenpeace que participavam de uma ação em defesa da floresta amazônica.
Dentro do navio MV Enif, Quartim tentava impedir que 1.700 toneladas
de madeira compensada, extraída de forma ilegal da Amazônia, fossem
desembarcadas. “A Amazônia está sendo destruída pela exploração
predatória e ilegal de madeira que o Reino Unido está comprando,
com ou sem consciência”, dizia ao vivo na Rede Globo.
Até
chegar em Londres e virar destaque no telejornal, o engenheiro florestal
de 29 anos, nascido em São Paulo e criado em Piracicaba, interior
do Estado, já havia participado de outras duas ações da organização.
Em dezembro, chegou em Brasília com uma moto-serra em punho. Queria
entregá-la ao ministro Pedro Parente como forma de protestar contra
a proposta de reforma do Código Florestal, que incluiria a ampliação
da área para desmatamento na Amazônia. Em maio, esteve na frente
do Congresso Nacional na votação desse mesmo código. A proposta
do deputado Moacir Micheletto reduziria a área de proteção da floresta
a 20%, em cinco anos.
Quartim
entrou no movimento ambiental meio por acaso. Queria cursar Oceanografia
no Rio Grande do Sul, mas acabou entrando na Escola Superior de
Agronomia Luiz de Queiróz (Esalq). Seu primeiro trabalho depois
de formado, porém, estava mais para predador que para defensor da
mata. Por quase dois anos foi chefe de produção da serraria da Cia.
Melhoramentos, surpevisionando a fabricação de madeira para embalagem.
“Mas trabalhava apenas com madeira replantada”, defende-se. Depois,
passou um ano nos Estados Unidos no World Forest Institute, de pesquisas
florestais e, de volta ao Brasil, foi selecionado para trabalhar
no Greenpeace, nos projetos em defesa da Amazônia, onde está há
13 meses.
Mesmo
sem saber dos detalhes, Eduardo não titubeou quando soube que haveria
a ação no porto inglês e que precisavam de um brasileiro. “Ele se
voluntariou, o que me soou natural, já que ele cuida dessa campanha”,
diz Roberto Kishinami, diretor executivo do Greenpeace Brasil. “Fui
alertado de que corria o risco de ser preso e até deportado”, conta
Quartim. Mas o idealismo falou mais forte. “Pensei, a causa é legítima,
estou dentro.” Por mais ousada que tenha sido a operação, o Greenpeace
tem três décadas de experiência e os mínimos detalhes foram planejados.
Além de saber as características do navio, os ativistas passaram
por um treinamento de dois dias escalando pontes do Tâmisa.
A presença
dele serviu também para reforçar a origem da carga ilegal comercializada
pela WTK, empresa da Malásia. “Achamos que ia ser bom para a causa
incluir um brasileiro na operação”, disse John Sauven, diretor da
entidade na Inglaterra. Com menos experiência que os demais, foi
elogiado. “Todos eram alpinistas experientes, menos Eduardo. Ele
foi corajoso e surpreendeu”, completou Sauven. Mas o novato trazia
no currículo outra habilidade. É nadador desde criança e chegou
a participar de competições interestaduais.
Além
de ter conseguido com o protesto impedir que três empresas desistissem
de comprar a madeira, Quartim ainda ganhou com sua ação uma prisão
e um processo. Depois de passar 30 horas a bordo, ele e outro ativista
decidiram descer por questões logísticas – com apenas 25 litros
de água e seis quilos de comida, a permanência de apenas quatro
pessoas possibilitaria prolongar o protesto. Quartim foi preso e
ficou 41 horas em uma cela até saber que fora enquadrado, por invasão
de embarcação, no rigoroso Código Marítimo e de Aviação, usado para
coibir a atuação de piratas.
A
perspectiva de ficar com o passaporte retido no Reino Unido e sem
data certa para voltar já passou. “Muito raramente os ativistas
são condenados nesses processos”, diz Sauven. A boa notícia para
o brasileiro veio na terça-feira 27: o julgamento foi antecipado
para 4 de julho e, como o “crime” é visto extra-oficialmente pelas
autoridades inglesas como legítimo, deverá ser rápido e Quartim
deve voltar no dia seguinte ao Brasil.
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