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Apolônio de Carvalho, 88 anos

Um comunista bom de briga
Voluntário das Brigadas Internacionais da Guerra Civil Espanhola e coronel da Resistência contra o nazismo alemão na França, ele ajudou na fundação do Partido dos Trabalhadores no início da década de 80

Leneide Duarte

Leandro Pimentel
Em seu apartamento, no Leblon, Apolônio se define como um comunista autêntico: “É a única forma de os homens conviverem num mundo mais justo e mais humano”, diz

O título do livro de memórias de um dos maiores sonhadores que o Brasil já conheceu revela sua personalidade: Vale a Pena Sonhar. Apolônio de Carvalho, 88 anos, sabe que é um incorrigível otimista, como ele mesmo gosta de dizer. Porém, não se limitou a rabiscar versos românticos ou sentar-se a uma mesa de trabalho para elaborar teorias. Comunista desde 1937, ele foi à luta para transformar a realidade. Pegou em armas para defender seus ideais de liberdade e esteve envolvido em algumas das principais lutas políticas do século XX. Não apenas no Brasil, mas mundo afora, na Espanha e na França.

As lutas trouxeram reconhecimento e glória a Apolônio. Por ter sido voluntário nas Brigadas Internacionais da Guerra Civil Espanhola, nas quais combateu de 1937 a 1939, ganhou a cidadania espanhola, em 1996, e participou, como convidado, das homenagens que o governo daquele país prestou aos brigadistas, na passagem dos 60 anos da guerra. Na França, foi coronel da Resistência na luta contra o nazismo (comandou ações em Marselha, Lyon, Nîmes e Toulouse) na 2ª Guerra Mundial, recebeu a Cruz de Guerra e o grau de Cavaleiro da Legião de Honra. Na Resistência, conheceu a militante comunista Renée, com quem se casou e teve dois filhos, René-Louis e Raul.

Apolônio nasceu em Corumbá, Mato Grosso do Sul, em 1912, filho de Cândido, um militar sergipano de origem humilde e de Inês, uma gaúcha de Bagé. Ter-se tornado militar, como o pai, foi apenas uma contingência das dificuldades financeiras da família. Cursar medicina, o projeto de infância, era muito caro numa cidade como o Rio, onde não tinha parentes. A mãe foi realista, ao se despedir dele em Corumbá: “Como estudar medicina e trabalhar se o curso toma o dia inteiro? Se você for militar, como seu pai, vai poder ajudar a família”. O pai, um livre pensador materialista, conheceu Inês quando foi servir o Exército em Bagé, no final do século 19. Os quatro primeiros filhos nasceram no Rio Grande do Sul. Os dois últimos em Corumbá, onde Apolônio, graças à proximidade com a Bolívia e o Paraguai, aprendeu o espanhol que lhe seria tão útil na Guerra Civil Espanhola.

Na infância, servia de pombo-correio para levar mensagens das quatro irmãs mais velhas, já que as residências ainda não dispunham de telefone. “Quando garotinho, ia avisar aos namorados de minhas irmãs que elas iriam à novena”, conta. Adorava jogar futebol, numa época em que as posições ainda eram chamadas por seus nomes em inglês: back, center-half e goal keeper.

Apolônio relaciona sua decisão de lutar na guerra da Espanha a um outro ato de bravura ocorrido na família. Num ímpeto de jovem idealista, seu irmão Deusdédit fugiu de casa em 1914, aos 18 anos, com outros amigos com destino ao Uruguai. Lá, embarcariam num navio para lutar na Europa, em defesa da França contra a Alemanha. As famílias conseguiram, através do Itamaraty, que eles fossem interceptados e retornassem.

Em 1935, ao conhecer o major Carlos Costa Leite, seu comandante no quartel de Bagé, Apolônio, que participara ativamente da Aliança Nacional Libertadora na cidade, tomou conhecimento da conspiração para o levante comunista, que explodiria em novembro de 1935. Costa Leite era um dos vice-presidentes da ANL, que em apenas três meses de existência arregimentou cem mil filiados e meio milhão de simpatizantes. A militância na aliança de grupos de esquerda para o combate ao fascismo foi o primeiro passo de Apolônio nas lutas políticas. Costa Leite, membro do Partido Comunista, seria depois companheiro de Apolônio nas Brigadas Internacionais da Guerra Civil da Espanha.

Decretada a ilegalidade da ANL e sufocado o levante comunista, Apolônio foi preso em Bagé. Em abril de 1936 perdeu a patente de militar, como Costa Leite e diversos companheiros. Mandado para o Rio, ficou preso na Casa de Detenção e, depois, na Casa de Correção, onde começou a ler muito. “Pela pena de Marx, Engels e Lenin compreendi o papel do Estado e a exploração capitalista, assimilei o socialismo como superação dialética da sociedade de classes e apreendi o pendor revolucionário dos trabalhadores”, conta.

Ao sair da prisão, filiou-se ao Partido Comunista. Por divergir da agremiação quanto à melhor maneira de se opor à ditadura militar brasileira, Apolônio fundaria, em 1967, com alguns dissidentes, o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, que defendia a luta armada. Em 1970, ele foi trocado pela libertação do embaixador alemão Von Holleben, seqüestrado por grupos de esquerda. Em junho do mesmo ano, juntamente com 39 presos políticos, Apolônio foi banido e deixou o Brasil tendo a Argélia como primeiro destino de um longo exílio que durou até 1979, ano da Anistia.

Em fevereiro de 1980, iniciou-se para o sonhador uma nova militância. Apolônio participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, do qual se tornou vice-presidente. Em seu apartamento no Leblon, ao lado de Renée, a inseparável companheira de todas as horas, que ele apresenta como “minha namorada” e de quem fala com ternura, ele não deixou de sonhar. Vê no socialismo democrático a única forma de os homens conviverem num mundo mais justo e mais humano. E continua a se declarar um comunista, esperando ver um mundo melhor daqui a 12 anos, quando completar 100 anos.

 

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