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Fábio Bittencourt, de Miranda (MS) Quando o jipe Toyota branco rompe as trilhas abertas no mato, os pantaneiros já sabem que a bióloga Neiva Maria Robaldo Guedes, 38 anos, está a bordo. Em 10 anos de andanças por caminhos nem sempre transitáveis do Pantanal de Mato Grosso do Sul, ela conseguiu amenizar os riscos de extinção das araras-azuis, um dos cartões postais da região. Em 1987, antes de iniciar suas pesquisas, o Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente) estimava uma população de 1.500 aves da espécie na área. Hoje, esse número dobrou graças à atuação da bióloga como coordenadora do Projeto Arara-Azul. Apesar do feito, Neiva é avessa às comemorações. “Acho pouco”, diz. “O ideal seria uma população de 10 mil aves.”
O desejo da pesquisadora não é uma missão impossível. No início do século, as araras-azuis eram vistas aos milhares naquela região. Nas décadas de 60 e 70, porém, a caça ilegal transformou-se em um negócio lucrativo. Estima-se que hoje existam três dessas aves em cativeiro para cada uma na natureza. Os principais mercados consumidores são a Europa e os Estados Unidos, onde chega-se a pagar US$ 30 mil no mercado negro por um filhote. “O comércio já não preocupa”, diz a bióloga. “Precisamos conscientizar as pessoas para não matá-las.” O interesse de Neiva pelo tema surgiu no final de 1989. Naquela época, ela fazia um curso de conservação da natureza na Estância Caiman, em Miranda, cidade localizada a 200 quilômetros da capital, Campo Grande, quando avistou as aves de cor azul cobalto pela primeira vez. Depois de aprofundar-se nos problemas que a espécie enfrentava, a bióloga sentiu-se diante de um desafio. E bateu o martelo em torno da questão. “Decidi que iria estudá-las.” O primeiro passo era levantar informações para um projeto de pesquisa. “Existia pouca literatura sobre o assunto.” Com uma bolsa de estudo em mãos, Neiva mergulhou na empreitada científica. O pontapé inicial deu-se em Piracicaba, na Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiróz (Esalq). Um ano e meio depois, a bióloga partiu para o trabalho de campo, em Nhecolândia, região pantaneira próxima à cidade de Corumbá, na divisa do Brasil com a Bolívia. Neiva desenvolveu uma metodologia ímpar. Com um estilingue, arremessava uma esfera de chumbo amarrada a uma corda por cima de árvores de manduvi. Dessa forma, estava pronta a base de apoio para que a bióloga pudesse escalar os troncos de 13 metros até os ninhos das araras-azuis, através de uma técnica de alpinismo. Em 1994, Neiva apresentou sua dissertação, intitulada Biologia Reprodutiva da Arara-azul no Pantanal. Ganhou a nota máxima da banca examinadora. Passou a ser considerada uma referência internacional sobre o assunto. “Trata-se de um trabalho altamente significativo”, diz Maria Iolita Bampi, 40, chefe do departamento de vida silvestre do Ibama, em Brasília. “Todo o avanço nas pesquisas sobre a espécie devem-se a ela”, completa. O empresário Roberto Klabin, proprietário do Refúgio Ecológico Caiman, onde está montada a base de estudos da bióloga, reforça que Neiva mudou a visão dos fazendeiros da região. “Muitos deles protegem as araras-azuis em suas propriedades por causa dela”, diz. Ela também tem apoio da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e Região do Pantanal (Uniderp), de Campo Grande, que hoje mantém o projeto e onde ela trabalha como professora de biologia, e do Fundo Mundial para a Natureza, a WWF. Todos os meses, Neiva recebe visitas de estrangeiros interessados em conhecer as aves. Surpresos por saber que o projeto custa anualmente R$ 45 mil, eles prometem mundos e fundos. “Estou calejada”, diz. “Se fosse acreditar em todos, já teria uma estrutura pelo menos três vezes maior para desenvolver o meu trabalho.” Às vezes, porém, Neiva é surpreendida. Em 1994, ela hospedou um casal de holandeses, Richard Weck e Elly de Vries, residentes em Los Angeles, nos EUA. “Avisei a eles que não viriam para fazer turismo”, recorda. Ao contrário dos demais visitantes, eles voltaram para casa e fundaram a Hyacinth Macaw Project. “Foi uma surpresa agradável”, diz Neiva. “Eles enviam pelo menos R$ 10 mil por ano”. Uma das maiores descobertas de Neiva em sua peregrinação pelo Pantanal foi a de que o número de ninhos na região era insuficiente para a população de araras-azuis. Para driblar o obstáculo da natureza, a bióloga desenvolveu ninhos artificiais e passou a monitorar os casais na época da reprodução. A busca é orientada por um colar, preso na pata esquerda das aves, que emite sinais de rádio. A parafernália científica ainda não é praxe devido ao alto custo. O radiotransmissor custa US$ 2,5 mil e pode monitorar 300 aves. Há três meses, Neiva está atrás de Marina, um filhote de arara-azul desaparecido. “Uma hora ou outra, ela vai aparecer”, crê a pesquisadora. Há dois anos, Neiva é casada com o comerciante Joacilei Lemos Cardoso, 40, que ela conheceu no início de suas pesquisas, e com quem vive em Campo Grande. “Não foi amor à primeira vista”, conta. Mas hoje Neiva garante que ele está em primeiro lugar na sua vida, junto com as araras-azuis. |
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