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O forró mostra a nova cara
Forrozeiros tradicionais conquistam o Sudeste do País e novos artistas, como o “Cãozinho dos Teclados” Frank Aguiar, vendem 2 milhões de cópias com forró tocado à base de sintetizador

Ramiro Zwetsch

Na música popular, tem muito artista que vende mais que água em dia de calor e toca mais que sanfona em festa junina. O último fenômeno chama-se Frank Aguiar, um piauiense de 29 anos que já acumula 2 milhões de cópias de discos vendidos e ostenta uma agenda sempre abarrotada com 30 shows por mês. “Um dos discos do Aguiar entrou na categoria dos 30 produtos mais vendidos da rede de supermercados Extra, ao lado de pilhas, fósforos e lâmpadas”, diz Alexandre Ktenas, diretor de marketing da gravadora Abril Music. “Nunca nenhum disco entrou nessa lista. Nem É o Tchan, nem o Padre Marcelo.”

Mas o que é que esse filho ilustre da cidade de Itainópolis, apelidado de “Cãozinho dos Teclados” e apreciador da carne de bode, tem? Um repertório dançante com sotaque sertanejo, bom humor e várias pitadas de pimenta – o que faz alguns puristas torcerem o nariz. “Esse forró eletrônico não presta, não tem consistência artística”, ataca Assis Ângelo, pesquisador de cultura popular há 30 anos. “Todos merecem trabalhar, mas não venha me dizer que aquilo é expressão musical do Nordeste porque não é”, diz Elba Ramalho, 48 anos.

Para Aguiar, no entanto, sua intenção é inovar. “Eu queria ter a minha história e não bastaria copiar Luiz Gonzaga”, diz ele. Acima de tudo, Aguiar tem um jeito novo de tocar o forró, ritmo que começa a subir ao topo das listas de vendagens, repetindo a explosão de Luiz Gonzaga, na década de 40.

O rei do baião dominou as rádios brasileiras até o surgimento da Bossa Nova, em 1958, quando deixou de reinar nas capitais brasileiras e subiu no caminhão para se apresentar em cidades do interior do País. Mesmo sem estar em evidência na mídia, seu legado refletiu-se em várias gerações da MPB. Primeiro inspirou a geração tropicalista, encabeçada pelos baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil. Logo depois, no meio da década de 70, influenciou uma nova safra de artistas do Nordeste, como Alceu Valença e os irmãos Elba e Zé Ramalho. Depois de um esfriamento nos anos 80, o baião, o maracatu e outros ritmos regionais voltaram a inspirar, simultaneamente, a geração recifense do Mangue Beat e novos representantes nordestinos da MPB, como Chico César e Lenine.

Da pista ao palco
Vai dar bode
Para francês ver
Julio Vilela
Andre Sarmento
Beto Tchernobilsky
Fala Mansa, som arretado: Tato, André, Douglas e Valdir (da esq. para a dir.)
Aguiar: chapéu de cowboy inseparável
De Parnamirim para o mundo: Virgulino, Adelmo e Roberto (da esq. para a dir.)
“Nosso forró fica mais moderno porque tem referências do rock e do reggae”, diz Tato Cruz, 22 anos, que morou na Alemanha em 1996, onde tirava uns trocados tocando reggae. Douglas Capalbo, 22, aprendeu a tocar percussão com onze anos, jogando capoeira. André Canônico, 21, tocou guitarra em uma banda de heavy metal dos 13 aos 18 anos. Hoje, os três paulistas tocam forró – de que aprenderam a gostar, dançando. Dali nasceu o Fala Mansa, que ganhou o reforço do sanfoneiro Valdir Leite, 40, pernambucano. Lançado há três meses, o disco de estréia, Deixa Entrar... já vendeu 50 mil cópias. Frank Aguiar adotou o apelido “Cãozinho dos Teclados” em suas primeiras apresentações. “Eu esquecia as letras e uivava para disfarçar os erros”, conta. Os uivos se tornaram marca registrada do cantor, que viaja o Brasil em seu jatinho particular cantando para multidões – até 50 mil pessoas – acompanhado de três dançarinas, um sanfoneiro e um saxofonista. Seu nome já é marca registrada de quatro produtos: um cachorrinho de pelúcia, chapéu, cachaça e calça jeans. Consumidor de carne de bode, ele pretende investir agora na inauguração de uma rede de restaurantes, que deve se chamar Mc Bode. “Só serão servidos pratos à base dessa carne, como pizza e sanduíche de bode.” O pernambucano Enoque Virgulino, 42 anos, saiu de Parnamirim há 20 anos. Tinha um problema de vista para tratar em São Paulo. “Achei a cidade muito grande e resolvi ir para Americana visitar parentes”, conta. Acabou ficando e convenceu os amigos de infância Roberto Pinheiro, 41, e Adelmo Nascimento, 46, a se mudarem para lá. Formaram o Trio Virgulino e começaram tocando aos sábados em uma rádio local. Em dez anos, vieram os primeiros convites para shows na capital. Ano passado, estiveram em Paris, onde tocaram em uma praça para mil pessoas. “Os franceses bem que tentaram, mas não conseguiram cair na dança”, diz Virgulino.

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