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Fernando Pieruccetti, 89 anos

O rei dos animais
Conhecido como Mangabeira, o caricaturista mineiro idealizou o canarinho como símbolo da seleção brasileira de 1950, transformou o Cruzeiro em Raposa, o Atlético em Galo e o América em Coelho

Renata Mata Machado

Emanuel Pinheiro /AG. 1.º PLANO
O aposentado Fernando Pieruccetti, o Mangabeira, ainda desenha como passatempo.

Os animais que se tornaram mascotes dos times mineiros, como o Galo (Atlético), a Raposa (Cruzeiro) e o Coelho (América), saíram da imaginação de um típico filho da terra, apaixonado pela cidade de Belo Horizonte. Trata-se do caricaturista Fernando Pieruccetti, 89 anos, conhecido como Mangabeira. A fauna do chargista e desenhista tem mais de 90 animais, com criações para equipes de todo o País. Entre elas, está o canarinho que representou a seleção verde e amarela que jogou a Copa do Mundo de 1950, no Brasil. Tudo começou em 1945, quando Álvares Maciel, diretor do jornal A Folha de Minas, solicitou que Mangabeira criasse símbolos dos clubes para movimentar as páginas do noticiário esportivo.

Sua criatividade ganhou fama e fomentou a mística do principal clássico mineiro até os dias de hoje. Quando Atlético e Cruzeiro se enfrentam é comum ver galos e raposas desenhados nas mãos e até nas cabeças de torcedores. Na verdade, Mangabeira começou a fazer charges em 1931. Na época, retratou o centroavante Mário de Castro, ídolo do Atlético. Depois desenhou o chamado trio maldito dessa equipe, composto pelo próprio Mário de Castro, Said e Jairo.

Em 1933, Mangabeira teve uma nova experiência, desta vez nas reportagens policiais. Como era difícil levar fotógrafos aos locais da ocorrência, ele fazia o retrato falado dos crimes, ao vivo. O desenhista relembra, por exemplo, da cena que reproduziu sobre a captura de Ciganinho, na época o bandido mais famoso de Minas Gerais. “Fui parar no meio de um tiroteio”, relembra. “Eu vi tudo e desenhei o Ciganinho levando um tiro de um policial e caindo morto.”

Mas era no campo de futebol que o artista se realizava. Caricaturista renomado, Mangabeira foi trabalhar no jornal Estado de Minas em 1946. Foi lá que começou a lançar os bichos. No início, foram homenageados sete times mineiros: Galo (Atlético), Raposa (Cruzeiro), Pato (América), Tigre (Sete de Setembro), Tucano (Metalusina), Leão (Vila Nova) e Tartaruga (Siderúrgica). O coelho americano, símbolo do time de coração de Mangabeira, veio mais tarde com a morte do pato. “Não queria que confundissem com o Pato Donald”, explica. Depois vieram Zebu (Uberaba), Tatu (Meridional), Jacaré (Democrata), Periquito (Bela Vista) e Urubu (Renascença), entre outros. “A idéia inicial de relacionar times de futebol a um mascote surgiu no Rio de Janeiro”, conta. “Achei interessante e resolvi inventar mascotes.”

Mas por que galo, raposa e coelho? “Galo, porque o Atlético tinha um espírito de luta, era vingativo. Raposa foi em homenagem a um diretor do Cruzeiro que era muito astuto. Quando descobria que o Atlético iria contratar determinado jogador, ele contratava antes. O coelho é um bicho esperto, que dorme de olho aberto, como alguns diretores que o clube teve e que mudaram a história do time”, revela.

O gosto de Pieruccetti pelo desenho e pela pintura começou cedo. Dos fundos de sua casa, no bairro Funcionários, em Belo Horizonte, ele desenhou a Serra do Curral. Mangabeira também acompanhou o cronista Rubem Braga em uma reportagem no Partido Progressista e fez poses do então presidente da agremiação, Washington Pires. Para as crianças, criou os personagens Pinduca e Tiziu, cujas histórias eram baseadas nos meninos da época.

O pseudônimo Mangabeira apareceu durante a Segunda Guerra Mundial, em 1942. “Eu estava no alto do bairro Mangabeiras, pintando com os amigos Walter Heiburt, Délio Delpinho e Genesco Murta. De repente, do meio do mato surgiu um cabo nervoso, acompanhado de vários soldados”, relata. Ele lembra que o cabo pediu os documentos e, ao verificar os sobrenomes estrangeiros, prendeu todos. “Os policiais acharam que éramos espiões”, diz. O engano só foi desfeito com a presença do delegado Renato de Lima, que também era pintor. Mas o apelido eternizou-se.

As lembranças da Segunda Guerra Mundial não param aí. Um dos mais belos desenhos de Pieruccetti, a “Meditação do aviador prisioneiro”, revela o horror da guerra. Mangabeira também fez a charge da inauguração do Estádio Magalhães Pinto, o Mineirão. “Fiz uma homenagem a todos os times mineiros. A charge era um conjunto de bichos de cada time tocando um instrumento”, conta. “A inspiração veio da banda que eu integrava, na qual tocava trombone.”

Em geral, quase todos os animais têm histórias divertidas. A mais engraçada, porém, é a do bode, que ele fez para o time da cidade de Pedro Leopoldo. Mangabeira estava reproduzindo a cena de uma macumba nos fundos do antigo campo do Atlético. “A polícia chegou e foi um corre-corre. Encontraram um casal dentro de uma fossa, junto com um bode preto. Foram todos para a delegacia, numa catinga danada”, ele lembra. “Como o Chico Xavier era de Pedro Leopoldo, naquele ambiente de misticismo, desenhei o animal para a equipe da cidade.” s

Mangabeira já reproduziu mais de 90 animais. Oficialmente, no entanto, existem 71 registrados. Segundo o desenhista, a iniciativa de registrá-los na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro foi do treinador Carlos Alberto Silva, que na década de 70 atuou como advogado. “Já entrei na Justiça contra empresas que comercializavam objetos com símbolos criados por mim”, diz o chargista, que se aposentou em 1973. Hoje em dia, viúvo, desenha por hobby. Ele faz questão de trazer no bolso do paletó um lápis preto sempre devidamente apontado. Mangabeira considera os cartunistas de hoje muito bons. “Mas não há como compará-los com os da minha época”, diz. “Os recursos tecnológicos são infinitamente melhores.”

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