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Crime

A tragédia da morte ao vivo
Numa ação desastrada, a polícia do Rio leva o bandido Sandro do Nascimento a assassinar Geisa Gonçalves, num seqüestro transmitido em rede nacional de televisão

Luís Edmundo Araújo

Fabio Seixo/AG. O Globo
O desfecho trágico: alvejada por quatro tiros, Geisa morreu

Para trocar um cheque de R$ 130, na segunda-feira 12, a professora Geisa Firmo Gonçalves, 20 anos, aproveitou o intervalo entre os dois turnos de trabalho no Projeto Curumim, que atende a crianças da favela da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, para ir ao banco. O dinheiro, obtido com a venda das cestas que fabricava artesanalmente, seria incorporado ao salário de R$ 302. Essa poupança vislumbrava dois sonhos: o desejo de ser mãe e o retorno para Fortaleza, no Ceará, com o marido, o cavalariço Alexandre Magno de Macedo Oliveira, 21.

Normalmente, Geisa apanharia um ônibus da linha 592 (Gávea-Leme) para chegar a seu destino, uma agência bancária no Humaitá, a cerca de 6 km da favela onde morava. Naquele dia, mudou o itinerário, a pedido da amiga, Damiana Nascimento de Souza, 40, que a acompanhava. Damiana usou um argumento irrefutável para convencê-la a embarcar num coletivo da linha 174 (Gávea-Central), cujo ponto final fica um quilômetro mais distante. Hipertensa, precisava caminhar por recomendação médica. A professora jamais desceu no ponto planejado. Quatro horas e cinqüenta minutos depois de embarcar no ônibus, ela foi morta, por um erro policial.

O drama dos passageiros começou às 14 horas, quando a polícia interceptou o ônibus, na Rua Jardim Botânico, para tentar prender o bandido Sandro do Nascimento, 22 anos, que planejava um assalto a bordo. Para se defender, Sandro manteve Geisa e outros nove reféns sob a mira de seu revólver, um Rossi calibre 38, até as 18h50. A professora foi uma das que mais sofreram. Ela foi puxada pelos cabelos e torturada com o cano da arma em sua boca. As cenas de terror eram transmitidas ao vivo pela televisão para o Brasil e para o mundo, através da CNN.

A menos de 200 metros dali, no Jockey Club do Rio, Alexandre interrompia seu trabalho para acompanhar o martírio das vítimas pela tevê. Teve a ingrata surpresa de descobrir a mulher entre os reféns. O cavalariço não desgrudou os olhos da tela até o desfecho daquela saga, quando uma ação desastrada da polícia fez com que Geisa fosse alvejada por quatro tiros. Naquele momento, ela servia de escudo para Sandro, que finalmente descera do ônibus. “Assisti minha mulher sendo carregada. Quando cheguei ao hospital, já estava morta”, contou o viúvo, em seu depoimento na 15ª Delegacia do Rio, na Gávea. A primeira bala que atingiu Geisa, de raspão, no queixo, foi disparada pelo soldado Marcelo Oliveira dos Santos, do Batalhão de Operações Especiais da PM (Bope), conforme constataria a perícia na terça-feira 13. Ele alvejou o bandido, mas a má pontaria levou Sandro a descarregar o revólver na refém. Foram mais três tiros contra Geisa. O seqüestrador não levou nenhum tiro, foi dominado e, colocado num camburão com cinco policiais, terminou asfixiado. Depois de provocar a morte da refém, a polícia executou Sandro.

GRAVIDEZ Alexandre e Geisa trocaram Fortaleza pelo Rio há um ano e meio. Os dois namoravam quando Alexandre decidiu tentar a sorte no Rio, no início de 1998. O casal morava numa casa de dois cômodos na favela da Rocinha, onde Geisa conseguira o emprego no Projeto Curumim, há oito meses. No início, ela ajudava a cuidar das 150 crianças de 6 a 14 anos. Com o tempo, aperfeiçoou-se na confecção de cestas de papel e miçangas e passou a dar aulas de artesanato em turmas cada vez mais concorridas. “As aulas dela enchiam a sala”, conta Vera Lúcia Caldeira, 47, que também trabalha no Projeto Curumim. “Com seu jeito tímido, de quem veio do interior, era muito carinhosa com as crianças.”

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