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Amadeu Celestino, 90 anos

Solitário e feliz
Irmão de Vicente Celestino, ele fez serenata para Getúlio Vargas em frente ao palácio presidencial, no Rio, conheceu Carmem Miranda e recusou convite para ser figurante da novela Terra Nostra

Viviane Rosalem

Leandro Pimentel
No Retiro dos Artistas, Amadeu Celestino ainda encontra energia para animar o público durante as festas. “É uma pena que o meu corpo não acompanhe minha mente”, lamenta.

Quando Vicente Celestino lançou seu primeiro disco, em 1916, o menino Amadeu, de 6 anos, só pensava em brincar na rua com as bolas de meia que ele mesmo confeccionava dentro de casa. Nascido e criado no bairro de Santa Teresa, centro do Rio de Janeiro, sequer imaginava que, anos depois, trilharia os mesmos passos do irmão mais famoso nos palcos. Amadeu Celestino se destacou como ator, mas não deixou de exibir seu talento para a música e dança em peças de teatro.

Hoje, aos 90 anos, ele ainda consegue representar, cantar e recitar poesias como em tempos antigos. Nos eventos realizados no Retiro dos Artistas, onde mora desde 1970 por opção própria, Amadeu é sempre um dos convidados de honra para entreter o público durante as festas. E dá-lhe energia espiritual para reviver os velhos e bons tempos. “É uma pena que o meu corpo não acompanhe minha mente”, diz, referindo-se à pouca agilidade.

A paixão pelas artes é uma velha companheira. O início deu-se no colégio Salesiano, em Niterói. Foi lá que, em 1928, o canto e o teatro entraram em seu currículo. As aulas eram levadas tão a sério que Amadeu acordava bem cedo para não perder o bonde que o conduziria até a Praça Quinze. Em seguida, pegava a barca que demorava 40 minutos para atravessar a Baía de Guanabara. Depois, ainda tinha que esperar outro bonde levá-lo do Centro de Niterói até Santa Rosa. “Eram quase duas horas de viagem”, lembra.

O ator até hoje se recorda dos castigos que recebia no colégio. Como punição pelo mau comportamento, os professores lhe aplicavam palmadas nas mãos. “Aqueles alunos que não estudavam eram obrigados a desfilar na sala de aula com orelhas de burro”, conta Amadeu. Nessa época, um de seus melhores amigos era o compositor André Filho, autor de “Cidade Maravilhosa”. Amadeu Celestino estreou nos palcos aos 18 anos, como integrante da Companhia das Operetas. Por apresentação, chegava a ganhar 20 mil réis – quantia suficiente para se manter sozinho e ainda ajudar a mãe, a dona de casa Serafina Celestino. Seu pai, o sapateiro José Celestino, morreu quando ainda era criança. Em 1930, entrou para o coral do Teatro Municipal. Também aprendeu a dançar com Maria Olenewa e ingressou no Corpo de Baile do Municipal um ano depois. Foi um tempo em que começou a se apresentar na Rádio Nacional e no Cassino da Urca, onde pouco depois assumiria o cargo de diretor. Na rádio, conheceu Carmem Miranda. “Ela era uma beleza de mulher”, recorda. “Senti sua falta quando foi para os Estados Unidos.”

Em 1937, Amadeu deixou o cargo e passou a viajar em turnê pelo Brasil ao lado de Vicente Celestino, que, naquele ano, compôs “Coração Materno”, um de seus maiores sucessos. A canção inspirou peça de teatro de mesmo nome, em 1947, da qual Amadeu e Celestino foram os protagonistas. Os dois também atuaram no filme O Ébrio, em 1946, que teve direção de Gilda de Abreu, mulher de Vicente. “Nossa família sempre foi muito unida”, diz. Vicente, que morreu em 1968, era o caçula de quatro irmãos – João, Pedro e Radamés também eram artistas. Solteiro, nunca quis se casar nem teve filhos. Ele tentou se aproximar da atriz e vedete Virgínia Lane, mas foi impedido pela mãe dela, antes de começar o namoro. “Quando soube que eu era artista, me botou para correr”, lembra.

Somente na década de 50, quando o presidente Getúlio Vargas fundou o Serviço Nacional de Teatro e promulgou a lei que reconhecia a profissão de artista, Amadeu sentiu-se aliviado.

Para agradecer o gesto de Vargas, juntou-se novamente ao irmão Vicente e fizeram uma serenata no Palácio Guanabara, residência oficial da Presidência da República. Quem mais gostou da homenagem foi Alzira Vargas, filha do presidente, que logo apareceu no jardim para ouvi-los. “Getúlio soube dar valor à arte”, ressalta Amadeu. No currículo do ator, que participou das companhias de teatro de Dulcina de Moraes e Procópio Ferreira, destacam-se filmes como Chico Fumaça, no qual contracenou com Mazzaropi, e peças de sucesso como O Dote, Mestiço e Viúva Alegre.

Amadeu Celestino passou por maus bocados nos anos 60, durante a ditadura militar. Foi preso por dois dias ao ter sido confundido com um comunista. O equívoco surgiu devido a um telegrama que enviara a seu alfaiate encomendando ternos. “Em vez de os Correios registrarem ‘entregar às pressas’, escreveram ‘a Prestes”’, conta o ator, que foi encarcerado por supostas ligações com o líder comunista Luiz Carlos Prestes. Ele pagou fiança para ser libertado.

Atualmente, a vida de Amadeu Celestino no Retiro dos Artistas nada tem a ver com o cotidiano agitado de tempos antigos. Ator aposentado, ele desfruta dos cinco salários mínimos que recebe, cuidando da casa de dois quartos que divide com a amiga e atriz Eloah Carvalho Scavone, e passeando de táxi pela cidade. De vez em quando, recebe convites para atuar, mas nem sempre aceita, como aconteceu no ano passado quando seu nome foi cogitado para o elenco de Terra Nostra. “Recusei o trabalho porque eles queriam que eu fizesse apenas figuração”, explica Amadeu. “Se a vida inteira fui ator, não será agora que serei figurante”, enfatiza.

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