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Fotografia

O olhar da selva
Aos 50 anos, o fotógrafo Pedro Martinelli, um dos melhores fotojornalistas do País, realiza o sonho de lançar um livro sobre os moradores da Amazônia

Lilian Amarante

Pedro Martinelli, que já morou três anos na Amazônia e pegou malária 10 vezes, hoje tem até barco próprio para fotografar a vida na floresta

Pedro Martinelli sempre foi um homem da linha de frente. Em 33 anos de fotojornalismo, esse paulista de Santo André trabalhou nas mais conceituadas publicações brasileiras e já viu de tudo através das lentes de sua câmera: um terremoto, quatro Copas do Mundo, duas Olimpíadas, a construção da usina de Itaipu, os incêndios dos edifícios Joelma e Andraus, entre outras coisas. Mas quem quiser ver o Pedrão – como todos o conhecem – empolgado, precisa pedir para ele contar como conseguiu fotografar, na Amazônia, a pesca do pirarucu, o chamado bacalhau brasileiro. “Demorei um ano e meio para fazer essas fotos, mas consegui finalmente fazer o registro, o primeiro do mundo”, explica.

Os detalhes da pescaria estão retratados no livro Amazônia – O Povo das Águas (Terra Virgem, R$ 50) com fotos e vários textos do próprio Pedro Martinelli. O projeto consumiu seis anos da vida do fotógrafo. “A intenção do meu livro é dizer: chega de Miami e Nova York, vamos olhar o Brasil”, conta. “Esse país é o único lugar do mundo que ainda me faz perder o fôlego.”

A Amazônia que Martinelli revela no livro é bem diferente daquela que costumamos ver estampada nos livros de arte. “Os livros só mostram o índio fantasiado e a ótica do paraíso amazônico. Ninguém olha para quem está embaixo de tudo: o caboclo”, diz. Em 256 páginas, Martinelli nos obriga a ver em impecável preto-e-branco a vida dura nas lavouras de juta, a extração do pau rosa, os trabalhadores do porto de Manaus, as minas de ferro e a vida dos povos ribeirinhos. “Para mim, fotografia, hoje, é contar a história do Brasil e melhorar a qualidade da informação”, diz.

A paixão de Pedro pela fotografia começou cedo, aos 17 anos, quando viu pela primeira vez, na redação da Gazeta Esportiva, uma foto ser revelada. Já o fascínio pelo mato o capturou antes. Ainda menino, começou a acompanhar o pai, funcionário público, nas caçadas que fazia na Mata Atlântica. “Íamos de trem até Rio Grande da Serra, andávamos seis horas a pé e dormíamos na mata. Isso todo final de semana”, lembra. Em 1970, já fotografando para o jornal O Globo, as duas coisas se juntaram. Martinelli foi chamado para acompanhar os irmãos Villas Bôas numa expedição histórica à Amazônia, a que faria o primeiro contato com os índios gigantes, os Kranhacãrore, hoje conhecidos como panarás. “Três fotógrafos já haviam tentado fazer a viagem, mas desistiram pelas dificuldades. Meu chefe, na época, já conhecia minhas histórias e sabia que eu iria”, conta.

Pedro foi para ficar um mês. Ficou oito, viu quatro companheiros morrerem – dois flechados e dois picados por cobra – e voltou com 4 malárias e 20 quilos a menos. Mesmo assim, a primeira foto de um índio Kranhacãrore, que Pedro estamparia na primeira página de O Globo e em vários outros jornais do mundo, só foi batida em 1973. “Quando conseguimos fazer o contato, um dos índios ficou na minha frente por apenas dois segundos. Bati duas fotos. A primeira saiu fora de foco e a segunda perfeita”, lembra o fotógrafo, que incluiu as fotos da expedição no livro que acaba de ser lançado.

Pedro diz que “o mato o está sempre chamando”, e ele nunca deixou de atender a esse chamado. Hoje, Martinelli mora em um condomínio nos arredores de São Paulo, mas viaja para a Amazônia constantemente. Nos últimos seis anos, passou metade do tempo lá, a bordo de um barco próprio. Na cidade grande, trabalhou com publicidade e editoriais de moda só para financiar o livro. “Adoro São Paulo porque só quando estou aqui posso entender o que acontece na Amazônia. Um lugar é o espelho do outro”.

As fotos da histórica expedição de 1970
Pedro Martinelli faz a primeira foto de um índio Kranhacãrore. “Ele ficou apenas dois segundos na minha frente”, diz Pedro. O filme caiu no rio, mas o jornal O Globo conseguiu recuperar o negativo e publicar a foto na primeira página. Vinte e cinco anos depois, Martinelli voltou à aldeia e encontrou uma cidade fantasma. “Nesse ritmo, a Amazônia acabará em 30 anos.”
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