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João Benjamim do Nascimento, 100 anos, o condutor da maria fumaça brasileira
Nas inúmeras idas e vindas que fez do Rio à capital paulista durante os 40 anos de trabalho, o maquinista conheceu celebridades como Carmem Miranda e o ex-presidente Getúlio Vargas, que atendeu a sua reivindicação de aumento de salário

Viviane Rosalem

Kiko Cabral
“Conduzi os primeiros trens elétricos do Brasil”, conta João.

No dia seguinte ao seu aniversário de 57 anos, João Benjamim do Nascimento foi surpreendido com a notícia de que conduziria o então presidente da República, Juscelino Kubstichek, a São Paulo, onde ele participaria de um evento comemorativo dos 25 anos da Revolução Constitucionalista de 1932. Maquinista do extinto trem de prata, máquina ferroviária que liga o Rio a São Paulo, ele tratou de engomar o uniforme e lustrar os sapatos para a ocasião. “Foi uma honra”, recorda João.

Hoje, aos 100 anos, completados no início deste mês, ele é capaz de descrever com detalhes não só esse como vários episódios de seus 40 anos de trabalho na ferrovia. Sua história nos trilhos começou aos 18 anos, quando ele conseguiu um emprego na Rede Ferroviária Federal (RFFSA) para limpar os trens, na Estação de Engenheiro Passos, em São Paulo, onde morava. Três anos depois, foi promovido a foguista. “Era eu quem colocava carvão na fornalha para fazer a maria fumaça andar”, explica. Somente em 1929, João virou maquinista. “Conduzi os primeiros trens elétricos do Brasil”, lembra ele, que só se aposentou no início da década de 60. “Hoje, acho uma maravilha esse tal de metrô. É super-rápido e equipado”, comenta.

Nas inúmeras viagens da capital paulista ao Rio e vice-versa, que demoravam dois dias, João conheceu “muita gente importante”, como faz questão de frisar. Ele se lembra, com detalhes, de quando viu de perto o presidente Getúlio Vargas, por quem sempre teve muita admiração. “Ele viajava em trem especial e costumava ir de Barra do Piraí, no Estado do Rio, até Cachoeira Paulista apreciando a paisagem”, conta. João possui na parede de seu quarto, na casa onde mora, em Pilares, subúrbio do Rio, uma foto de Getúlio. “Um dia fui até o Palácio do Catete para lhe pedir um aumento e não demorou muito para o meu salário subir de 5 mil para 7 mil réis”, conta. No dia do suicídio de Getúlio, João ficou bastante emocionado. “Não fiz luto, mas chorei muito”, recorda. “Ele era um homem de muita coragem”, comenta.

O maquinista também costumava se encontrar nas estações com Francisco Alves, Aracy de Almeida e Carmem Miranda. “A Carmem eu já conhecia do tempo em que ela trabalhava numa chapelaria antes de ser famosa”, diz. “Eu só comprava meus chapéus lá”, conta. Anos depois, João veio a reencontrá-la na Rádio Mayrink Veiga. “Foi uma pena não poder ter me despedido dela quando o corpo chegou ao Rio porque eu estava em São Paulo”, lamenta. De família humilde, João nasceu no distrito de Sumidouro, no Rio, onde morou até a adolescência. Seu pai biológico, João Pereira de Carvalho, era agricultor e se separou de sua mãe, a dona de casa Dionísia Nascimento, quando ele era bebê. João foi criado por Benjamim do Nascimento, quem o registrou e o ajudou a arrumar o seu primeiro emprego na ferrovia.

O menino largou os estudos na segunda série do primário. Quando criança, ele gostava mesmo era de brincar com seu cavalo de pau e sua peteca, feita com palha de milho e pena de galinha. “Não existia bola e os meninos se divertiam assim”, conta. Foi numa tarde de pescaria com o pai de criação que João, então com 8 anos, tomou seu primeiro porre, por acaso. “Como senti frio e estava com sede, bebi toda a cachaça que o meu padrasto levava para a pescaria”, explica. Quando chegou em casa, João não escapou da primeira surra da mãe. “Depois, só apanhei de novo quando fui picado por uma cobra”, recorda. Naquele ano, 1910, não havia injeção e João, que acabou ficando com trauma de bebida, foi obrigado a tomar uma dose de cachaça. Na época, acreditava-se que ela agia como antídoto contra o veneno da cascavel. “Desta vez, apanhei para beber”, diverte-se.

João tem 10 filhos, 18 netos, cinco bisnetos e um tataraneto, de um ano e oito meses. Sua terceira e última mulher, a dona de casa Maria Pereira da Silva, morreu há dois anos, vítima de diabete. “Quando eu trabalhava no trem, ela identificava minha chegada pelo som do meu apito, o único tocado com melodia”, conta. Acostumado aos trilhos, João só estreou nas estradas rodoviárias aos 40 anos, quando tirou sua carteira de motorista. Seu primeiro carro foi uma Rural Willys. “Só conheci a praia de Copacabana porque tinha carro. Mesmo assim, levava quase uma hora para chegar até lá”, recorda. Mas o maquinista parou de dirigir no ano seguinte, depois de cair num barranco. “Fiquei traumatizado”, diz.

Com a saúde em dia, João Benjamim ia à feira toda semana até os 90 anos para escolher pessoalmente todos os alimentos para o consumo da família. Atualmente, não anda com tanta facilidade, mas faz o café todos os dias pela manhã. “Gosto de acordar cedo e nunca fico parado”, diz. A tevê tem sido sua melhor companhia. “Vejo os noticiários e o programa do Silvio Santos aos domingos”, diz. Até hoje, ele se lembra da chegada da televisão ao Brasil. “Fui correndo comprar uma. As imagens, mesmo em preto e branco, eram mágicas.” Festeiro, João gosta de comemorar seu aniversário todos os anos. “Quero viver até 2002, mas se chegar até 2010, vou adorar”, diz. Ele afirma que começou a aproveitar a vida só depois de se aposentar. “Antes só tinha tempo para o trabalho”.

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