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Polêmica

Eram eles gays?
Parentes de personalidades como Santos Dumont, D. João VI e Burle Marx reagem à lista dos 100 homossexuais vips do Brasil formulada pelo antropólogo Luiz Mott

Flavio Sampaio

Marco Aurélio Martins
“Se quiserem me processar não conseguirão. A lista está no nome do Grupo Gay da Bahia. Alguém já quer me matar?’’
Luiz Mott

Dona Sofia Doesworth tem “oitenta e muitos anos”, como ela mesma diz, e é uma simpática senhora carioca. Tomava chá com amigos em sua casa no Flamengo, zona sul do Rio, quando foi interrompida por uma ligação de Gente.
– Olá dona Sofia, a senhora é parente do aviador Santos Dumont?
– Sou sim. Sobrinha-neta. Por que?
– Nós estamos fazendo uma reportagem em que seu tio-avô está envolvido e...

Animadíssima, dona Sofia passou a rasgar comentários sobre aquele que é considerado um dos maiores homens do Brasil. Disse que tinha seu chapéu, fotos, manuscritos, até que foi interrompida novamente para ser mais inteirada sobre a matéria.
– Sabe o que é, dona Sofia, é que seu tio-avô está incluso numa lista, como um dos 100 gays vips que o Brasil já teve.

A gentil senhora se transformou. Ficou furiosa, triste. Disse que era um absurdo e que a lista só poderia estar errada. “É uma leviandade. Meu tio-avô sempre gostou das belas donzelas da sociedade. Quero deixar bem claro que ele não tinha essa tendência e que citar o nome dele nessa lista é, no mínimo, deselegante”.

A essa altura, pedir uma foto dela para ilustrar a matéria foi impossível. “Não quero aparecer ao lado de quem inventou isso”, disse. E quem inventou isso foi o paulista Luiz Mott, 53 anos, professor titular do departamento de antropologia da Universidade Federal da Bahia e presidente do Grupo Gay da Bahia. “A lista dos 100 desviantes sexuais mais célebres do Brasil é uma homenagem póstuma àqueles que tiveram alguma relação com o amor que não ousava dizer o nome”, diz Mott. “Não queremos sujar a memória de ninguém. Nosso lema é dai aos gays o que é dos gays.” Santos Dumont está na lista pois, segundo o antropólogo, “nunca se casou, vestia-se de maneira andrógina, inventou o salto alto e o relógio de pulso só para poder usar pulseira”.

Na lista dos 100 gays vips do Brasil constam cantores, arquitetos, intelectuais, líderes religiosos, artistas, marginais, políticos e até heróis nacionais. Todos falecidos. Ali são citados o cantor Cazuza, o ator Mazzaropi, escritores como Olavo Bilac e Mário de Andrade e mártires como Tiradentes e Maria Quitéria. A lista inclui homens casados. “Ser casado não é álibi. Eu fui casado cinco anos, tenho duas filhas e sou bichona”, relembra Mott, que mora com o historiador baiano Marcelo Cerqueira. Casado com D. Carlota Joaquina, o rei de Portugal e príncipe do Brasil em 1816, D. João VI, está na lista de Mott. Ele cita como fonte o livro História do Império, de Tobias Monteiro, que relata na página 97 o seguinte: “D. João VI era masturbado por seu favorito, o Tenente General Francisco Rufino de Souza Lobato”. D. Eudes de Orleans e Bragança, 60 anos, descendente direto de D. João VI, diz ter tomado conhecimento do suposto “passado homossexual” de seu ancestral pela reportagem de Gente. Sob gargalhadas, declarou ser uma idéia no mínimo romântica: “D. João pode ter sido tanto um comedor quanto um gay, mas eu não saberia responder. Foi há quase 200 anos”, afirma. Alguns dias depois, fotografado para a matéria, D. Eudes não apresentava tanta disposição com o assunto e desabafou para o fotógrafo: “Você gostaria de saber que seu parente era veado?”

As reações familiares são de espanto, descrença, desinteresse e até fúria. Todos querem saber a fonte de tais informações. Mott diz que se baseou em pesquisas jornalísticas, processos civis, cartas, trechos de livros, citações e até o chamado “vox populi gay”. Ou seja, informações de gays que juram de pés juntos que viram esse ou aquele sujeito em situações ou locais suspeitos. Constar na lista não significa que o indicado tenha sido exclusivamente homossexual. Mott usou a escala Kinsey, que vai de 0 a 6, de acordo com a “intensidade homossexual de cada um”. Essa escala foi criada em 1948 pelo sociólogo americano Alfred Kinsey, durante um estudo sobre o universo homossexual. O baiano Evandro Castro Lima, eterno rival de Clóvis Bornay nos concursos de fantasias de carnaval no Rio, teria 6 pontos, o máximo na escala. Já Cazuza, que se dizia bissexual, teria 3 pontos.

Na categoria “arquitetos e paisagistas”, Roberto Burle Marx se destaca. A fonte é P. M., iniciais de um gay carioca de 65 anos que não quer revelar sua identidade mas expõe o famoso paisagista como homossexual assumido. “Não sei o que isso vai acrescentar para a sociedade”, rebateu o advogado Murilo Martins Burle, 56 anos, primo de Burle Marx. “Ele era muito reservado em sua vida particular. Algumas pessoas até diziam que ele era homossexual, mas existem coisas mais importantes a serem discutidas”, encerra Burle.

Nem sempre as reações são verbais. Quando Mott afirmou que o líder negro Zumbi era gay, os vidros do seu carro foram quebrados e picharam em seu muro a frase “Zumbi vive. Filhos de Zumbi”. Mesmo assim o antropólogo sustenta a versão: “Zumbi tinha o apelido de sueca, nunca teve esposa, veio de uma etnia angolana “quimbanda” onde a homossexualidade era institucionalizada, foi criado por um padre em Alagoas que chamava-o de “meu neguinho” e, quando foi assassinado em 1695, cortaram-lhe o pênis e o colocaram em sua boca”. Apesar das agressões físicas e morais que Luiz Mott pode enfrentar, juridicamente se diz coberto. “Se quiserem me processar não conseguirão. A lista está em nome do Grupo Gay da Bahia. A briga será com a pessoa jurídica”, antecipa-se. Para Mott, difícil apontar alguém sem algum componente homossexual. Apesar de não estar na lista, até Jesus Cristo tinha tendência gay, segundo o antropólogo. “É forte candidato. Ele era delicado com as crianças, sensível aos lírios do campo e nunca se casou”, afirma Mott, ex-frade dominicano. “Parece até que tinha um caso com João Evangelista.”

Se as pessoas que estão na lista foram ou não homossexuais, para as famílias não é o mais importante. Querem é transmitir o que seus parentes fizeram pelo País. Dona Sofia e Murilo Burle convidaram Gente para saber mais sobre Santos Dumont e Burle Marx. “Tenho o chapéu do meu tio-avô, o chapéu dele”, repetia dona Sofia. Ao ser informado sobre a reação das famílias, Mott perguntou: “Alguém já quer me matar?”.

“Segundo o embaixador Pascoal Carlos Magno, Olavo Bilac era o maior pederasta do Brasil”’’


Luiz Mott cita o Pasquim de 2/7/73

“Ele era muito reservado em sua vida particular. Algumas pessoas até diziam que ele era homossexual, mas há coisas mais importantes a serem discutidas’’


Murilo Martins Burle,
primo de Roberto Burle Marx
“D. João pode ter sido tanto um comedor quanto um gay, mas eu não saberia responder. Isso foi há quase 200 anos’’


D. Eudes de Orleans e Bragança, descendente
direto de D. João VI

“Isso é uma leviandade e é deselegante. Meu tio-avô sempre gostou das belas donzelas da sociedade’’

D. Sofia Doesworth,
sobrinha-neta
do aviador
Santos Dumont
“O apelido era sueca e foi criado por um padre que o chamava de “meu neguinho”’’


Luiz Mott sobre Zumbi
dos Palmares

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