|
Ensaio
Criando
Kane e Outros Ensaios
Pauline
Kael traça retrato do cinema americano
Alessandro
Giannini
A americana Pauline Kael é uma das últimas representantes da crítica
de cinema reflexiva e analítica que militavam na imprensa. Quando
analisava um filme, o fazia por completo. Não tinha rabo preso,
nem se rendia a achismos ou ao recurso fácil das cotações e estrelinhas.
Ainda assim, seus textos transpiravam de emoção e amor pela arte.
É uma espécie em extinção – se não estiver completamente extinta.
Onze de seus textos mais importantes estão reunidos em Criando
Kane e Outros Ensaios (Record, 364 págs., R$ 35).
Ao
longo dos escritos reunidos no livro, Pauline, que abandonou a
redação da revista The New Yorker em 1991, traça um perfil
sociológico da indústria do cinema americano. Mostra como a classe
cinematográfica se rendeu aos modelos e padrões, descartando sucessivamente
a criatividade e o empirismo. Analisa também as transformações
por que passou o público, que foi ficando cada vez menos exigente
ao longo do tempo.
Há
peças clássicas e deliciosas. No ensaio que dá título ao livro,
Pauline examina minuciosamente o roteiro de Cidadão Kane
(1941), de Orson Welles, e aponta Herman Mankievicz como um dos
grandes responsáveis pelo sucesso sem precedentes do filme. Em
“Brutalizadores do Cinema”, escrito em meados da década de 60,
a crítica anteviu e criticou um comportamento que – desgraçadamente
– se cristalizou: o dos cineastas iniciantes que se fixam em maneirismos
justificando-os esfarrapadamente como estilismo. Análises e profecias
que só mesmo alguém com a força da escrita desta octogenária seria
capaz de fazer.
Mais
atual do que nunca
|