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Sindicalismo

Tucano ao volante
Nélio Botelho preocupa o governo ao comandar 1,8 milhão de caminhoneiros, mas não gosta de greves e votou duas vezes em FHC

Luís Edmundo Araújo

Leandro Pimentel
Botelho tem renda total de R$ 2,3 mil, recebe 500 cartas por mês e presta serviços à Petrobras: “Sou contra ditaduras, mas naquela época éramos respeitados”

Durante a infância, em Araxá (MG), Nélio Botelho fabricava seus próprios caminhões de brinquedo com latas de sardinha. Aos 34 anos, com dinheiro emprestado, comprou um de verdade. Na boléia do Mercedes 1113, o modelo mais barato da montadora, transportou cimento. Hoje, aos 59 anos, é o presidente do Movimento União Brasil Caminhoneiro (MUBC), que tem 1,8 milhão de filiados e coloca o governo em polvorosa a cada greve da categoria que ele comanda. “A greve só acontece porque o governo não faz nada por nós. Se pudesse ficava no mato, sou da roça”, diz o sindicalista.

Em 1985, o líder dos caminhoneiros encabeçou a primeira greve nacional da categoria, que culminou com a criação dos primeiros sindicatos. Até então, os caminhoneiros eram vinculados aos sindicatos de taxistas. Botelho assumiu a presidência do primeiro sindicato de caminhoneiros, com base no Rio de Janeiro e no Espírito Santo. Cargo que ocupa até hoje, acumulando com outras duas presidências, a do MUBC e a da Cooperativa Brasileira dos Caminhoneiros. No movimento, ele trabalha de graça. No sindicato, Botelho ganha R$ 800 e, na cooperativa, o salário é de R$ 1,5 mil. Para completar o orçamento, o caminhoneiro tem uma carreta que presta serviço à Petrobrás e é pilotada por um colega.

O pendor para a liderança surgiu em 1982. Encarregado em uma transportadora da Zona Norte do Rio, Botelho saiu tarde do trabalho e viu um caminhão velho estacionado na rua. Ao lado dele, um caminhoneiro preparava o jantar junto com a mulher e um filho. “Eram quase 2 horas. Eles iriam comer, dormir apertados na boléia e acordar às 5 horas”, lembra. “Percebi que a nossa situação era péssima.”

Mas a estréia como líder aconteceria um ano mais tarde, durante a greve do transporte de combustível da refinaria da Petrobrás em Duque de Caxias (RJ). O sindicalista estava na linha de frente. “Vi o Botelho evitar que a polícia nos dispersasse”, conta Hércules Pereira, 44 anos, também fundador do MUBC. “O comandante da PM atendeu a um pedido dele.”

Mesmo depois da greve de 1985, os caminhoneiros continuaram dispersos. Para mudar esse quadro, começou a idealizar o MUBC. Atualmente, o movimento tem 4.236 organizadores espalhados pelo País. “Nossa maior arma é a mala direta”, diz Botelho. “Juntar operário é mole, basta ficar na saída da fábrica. Caminhoneiro é diferente.” Com a ajuda de secretárias, Nélio responde a 500 cartas por mês e 20 e-mails por dia.

Apesar da popularidade, o líder caminhoneiro não pensa em se candidatar a cargo algum na política nacional. Segundo ele, o MUBC quer eleger dois deputados federais em cada Estado, mas é contra a candidatura de caminhoneiros. “Vamos aproveitar os bons políticos, comprometidos com nossas idéias”, diz. “Podemos ter 50 deputados a nosso favor em Brasília, em vez de um só, que é o que aconteceria se eu fosse candidato.” A confiança no poder da classe é tanta que os caminhoneiros dispensam as centrais sindicais. “Não precisamos disso. Já somos fortes sozinhos.”

Mas Botelho também enfrenta problemas internos. O último deles aconteceu na negociação da greve que terminou no dia 6 de maio. Contrário à proposta do governo, ele não compareceu à reunião marcada para o dia 3 de maio, em Brasília. O presidente da Federação Interestadual de Caminhoneiros Autônomos, José Fonseca Lopes, foi ao encontro e assinou o acordo. “A greve não acabou com o acordo, mas com a violência da polícia”, diz Botelho.

Considerado pelo governo o xiita das estradas, Botelho surpreende ao falar de suas posições. Eleitor de Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998, o líder sindical se diz simpático a políticos da situação e da oposição. “Não gosto de partidos. Procuro selecionar o bom político.” O caminhoneiro também não mede as palavras para defender o regime militar. “Sou contra ditaduras, claro, mas naquela época éramos respeitados.” Outra surpresa: Botelho garante que detesta greves e não gosta de aglomerações.

Botelho parou de estudar no primeiro ano ginasial e teve de sair de casa aos 17 anos porque o pai, ferroviário, passava por dificuldades financeiras. Hoje casado com Ângela, 52 anos, ele mora numa casa com três quartos, na Ilha do Governador, Zona Norte carioca. Com eles, residem três filhos: Eliane, 27, Renato, 24, e Flávia, 22. “Mas ele não pára em casa”, diz Ângela. “Ele não almoça em casa, então compensa no jantar”, conta ela, que faz um autêntico prato de caminhoneiro para receber o marido. “Nisso ele não foge à regra.”

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