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Curiosidade

Ô mania de ser esquisito!
O diretor de teatro Cacá Rosset põe anúncio no jornal procurando tipos bizarros, recebe 3 mil interessados e escolhe dois para sua nova peça

Lilian Amarante

Alexandre Tokitaka
Cacá e parte do elenco: mulher barbada, gêmeas siamesas e outros tipos estranhos estão no elenco de 25 pessoas

Quando o diretor de teatro Cacá Rosset resolveu recrutar atores para sua nova peça, Scapino, contava com uma adesão razoável. Só não imaginava que perto de 3 mil pessoas responderiam ao anúncio que ele colocou no jornal e começava assim: “Procura-se gordos, altos, psicóticos, catatônicos...”. Resumindo: na página dos classificados havia um chamado aos esquisitos. “A maior loucura disso tudo foi ver que todas essas pessoas não só se assumiam como esquisitas, mas tinham a coragem de se candidatar a uma vaga dessas”, conta Cacá Rosset.

Como de perto ninguém é normal – diria Caetano Veloso –, Cacá e sua equipe receberam para uma entrevista todo tipo de esquisito assumido. Uma mulher com mais de 2 metros de altura, um gordo com roupa de sumô que cantava o hino nacional gaguejando, uma senhora que gritava histérica por 5 minutos. “As pessoas chegavam lá se dizendo esquisitas, algumas porque ouviam dos outros esse comentário”, conta Wagner Sugamele, diretor de elenco da peça, colaborador antigo de Cacá Rosset e, provavelmente, o mais “estranho” dessa história (leia quadro ao lado).

Na turma dos “esquisitos, sem dúvida nenhuma” apareceu um homem que tinha como hábito estacionar o carro, tirar a roupa e dar uma volta no quarteirão pelado, só com uma mala escondendo parte do corpo. Um outro sapateava em cima da mesa e cantava uma música misturando 12 idiomas imaginários, até terminar a apresentação com um inusitado strip-tease. Mas houve também quem chegasse para o teste sem saber que era esquisito. Ou melhor, sem saber que alguém o classificava assim. “Mais de 200 pessoas apareceram indicadas por parentes ou amigos, sem saber do que se tratava, apenas com o nosso endereço nas mãos e a promessa de um emprego perfeito para elas”, conta Wagner. O trote não perdoou nem os supostamente mais antenados. Segundo Wagner, seis pessoas da Rede Globo ligaram pedindo informações por indicação dos colegas. Nenhum se candidatou, claro.

Dos 3 mil aspirantes, apenas 300 fizeram o teste para participar da peça Scapino, há duas semanas em cartaz no teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, e só dois foram selecionados: Ronaldo Santos, um anão com talento e desenvoltura para um strip-tease, e Ana Saguia, que de diferente tem apenas o excesso de peso – o que atualmente é algo bem natural.

“A idéia não era encontrar esquisitos no sentido de bizarros ou deformados, mas no sentido que a palavra tem em inglês, que é precioso, raro ”, explica Cacá Rosset. No palco, essa turma é coadjuvante na história, centrada no personagem Scapino, do ator Eduardo Silva. No texto de Molière, Scapino é um criado muito esperto, capaz de manobrar os demais personagens ora para ajudá-los, ora para prejudicá-los. Uma comédia bem ao gosto do irreverente Cacá Rosset, que aos 41 anos já montou com sua companhia, o Teatro do Ornitorrinco, 18 espetáculos, entre eles o famoso Ubu, Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes, em 1985. Com 25 atores em cena, música ao vivo, dança e coreografias circenses, Scapino é uma das maiores montagens que Cacá Rosset já dirigiu.

Do hospício para o teatro

Rogério Albuquerque

Quem recebeu os candidatos atraídos pelo anúncio de jornal foi o ator paulistano Wagner Sugamele. O local escolhido para a seleção foi seu escritório de despachante, no centro de São Paulo, o que muita gente achou estranho. O que os candidatos não sabiam é que o mais esquisito naquela situação não era o local, mas o próprio Wagner, um verdadeiro personagem de comédia pastelão. Ele conheceu Cacá Rosset na década de 80, num hospício do interior de São Paulo, onde a família o internou porque falava sozinho. Lá, Wagner montou um grupo de teatro que chamou a atenção do diretor. Cacá passou alguns dias na clínica para dirigir a peça dos internos e acabou, sem querer, dando o passaporte que Wagner tanto queria. No papel de um enfermeiro, ele usou a fantasia para fugir do hospício. Anos depois, os dois se encontraram e passaram a trabalhar juntos em performances de rua. Líder comunitário do bairro paulista do Cambuci, Wagner levou Cacá para apresentações na Câmara Municipal – ora fantasiados de caça-fantasmas, ora de Nero, ora de mendigos famintos. Autor do troféu Porcolino, que há 15 anos premia os políticos que mais sujam a cidade durante as campanhas, ele se auto-intitula um anarquista. E esquisito? “Só um pouquinho”, confessa Wagner.

Selecionados pela esquisitice

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O paulista Ronaldo (2), caçula e único anão da família Santos, pretendia seguir carreira em computação até ver no jornal o anúncio de Cacá Rosset. Mostrou no teste a brincadeira que costumava fazer com os amigos, um divertido strip-tease. Hoje, no teatro, o público aplaude Ronaldo em cena aberta e o diretor já pensa em mantê-lo na Companhia. A atriz Ana Saguia (1) nunca se achou esquisita, mas se interessou pelo anúncio e, como Ronaldo, transformou o teste em strip-tease, sem timidez pelo excesso de peso. Na peça, ela é uma enfermeira. A atriz Maíra Leme já era do grupo quando começou a seleção. Nem pensou em se candidatar, mas Cacá descobriu a brincadeira que ela fazia nos bastidores: engolir a mão. Virou uma das esquisitas.

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