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Gilberto Gil

“As drogas me ajudaram”

Para cantor, a maconha abriu sua mente e a morte do filho quase o despedaçou

Gerson Faria

Valter Pontes
“Nos anos 60, vivi a fase de transformação do estado de consciência, nas práticas de uso de maconha, de uso periódico de ácido lisérgico. Depois, não me davam mais nada e parei com tudo.”

Nos bastidores do Teatro Castro Alves, em Salvador, o vai e vem de músicos estrangeiros traduz o clima do festival. É o Percpan – Panorama Percussivo Mundial. Como diretor artístico, Gilberto Gil desdobra-se nos ensaios e prepara a etapa em Paris da sétima edição do Percpan, nos dias 26 e 28, em comemoração aos 500 anos do Descobrimento. No último verão, que seria de férias, Gil assinou a trilha sonora do filme Eu, Tu, Eles, de Andrucha Waddington, começou a gravar um disco com Milton Nascimento e, com a mulher Flora, virou um dos anfitriões do carnaval baiano. “Aqui é meu lugar. Aos poucos estou voltando”, diz.

Aos 57 anos, Gil permanece de bem com a vida. “Trago o meu ego na coleira. Por isso o mundo não se sente incomodado comigo.” Presidente da Fundação Ondazul da Bahia, vice-presidente do afoxé Filhos de Ghandi, escolhido um dos artistas da Unesco, em reconhecimento ao caráter pacifista de seu trabalho, ele diz que a velhice não o assusta. E admite o casamento como um contrato transitório. “A perspectiva de que não vai durar está embutida nas novas uniões”, diz o cantor, quatro casamentos, oito filhos e cinco netos. Um trauma que talvez jamais supere: a morte do filho Pedro, aos 19 anos, em 1990 por acidente de carro. “Tive que segurar o meu ego para que não despedaçasse”, diz, segurando as lágrimas.

Você está próximo de completar 60 anos. A velhice o assusta?
Não, não assusta. É um processo natural, de amadurecimento. Sigo fazendo o meu trabalho.

Mantém seu espírito zen?
É o que Nelson Motta chamava de baiano chinês, né? (risos). A maior inveja que eu tive no mundo foi Dorival Caymmi. Ele é o buda nagô. Prefiro trazer o meu ego na coleira. Porque por mais pitbull que o meu ego se torne, ele não vai machucar ninguém, porque uma parte dele está sob controle. Essa é uma coisa que fui aprendendo ao longo da vida, com a adoção da ioga e da macrobiótica na prisão. O meu ego late muito pouco. Por isso o mundo não se sente muito incomodado comigo. E o mundo não me incomoda também.

“Médicos suspeitaram que eu tinha um câncer linfático. Eu disse: se for câncer não façam nada. Não era, mas reprogramei minha vida”

Você passou por quatro casamentos. Acha que essa ainda é uma forma possível de relacionamento?
Aquela coisa da indissolubilidade do casamento, que era um pouco da coisa católica e foi a tradição da família, não é mais assim. Hoje os casais modernos se dissolvem e se reconstituem. Eu fiz uma família assim, tenho cinco netos de três ramos, são três subgrupos familiares formando uma grande família. E acho que com os meus filhos vai ser assim. Minha filha Preta está no terceiro casamento. Não é mais um casamento, é um contrato de permanência periódica em conjunto. A perspectiva de que aquilo já não dure muito está embutida nas novas uniões. Então todos se preparam para as multifamílias, para as famílias desmembradas, que se juntam no fim de semana.

Você passou por uma perda grave, a morte do seu filho. Como conseguiu superar?
Ali foi um momento da coleira absoluta. Para que o meu ego não se despedaçasse eu tive que segurar... (emocionado, contém as lágrimas) durante alguns dias. Até que Jorge Amado e Chico Buarque me levaram para a Europa uns vinte dias depois. E aí Jorge me levou para Nice, para o Carnaval. Fui com ele, Flora e depois o Chico me levou para uma pequena turnê pela Itália. Aquilo foi me ajudando, e eu fui retomando, reentrando na vida aos poucos. Pedro foi enterrado no dia 2 de fevereiro de 1990. Fez dez anos agora (mais uma vez segura o choro). E ficou aí a saudade dele...

No ano passado teve também alguns problemas de saúde? Está recuperado?
Tive um pólipo, popularmente conhecido como calo, nas cordas vocais e tive que passar por uma cirurgia. Depois apareceu um gânglio e os médicos suspeitaram que eu tinha câncer linfático. Disse tudo bem, se for câncer não me operem, não façam nada. Eles tiraram e não era câncer, mas decidi reprogramar minha vida, minha dieta alimentar. Voltei à minha prisão.

Você já foi um dos mais entusiasmados com as experiências com as drogas. Elas te ajudaram?

Acho que sim. Pelo que ficou gravado no meu corpo, na minha mente e no meu coração, pelo perfume que emana daquela época, sim. Aquilo me fez mais bem do que mal. Poxa! Tanta coisa eu criei sob estímulos de expansão mental e sentimental que as drogas me deram!

“A droga era um fetiche que exorcizava demônios e abria portas para anjos. Pelo perfume que emana da época, ela me fez mais bem do que mal”

Foi a fase dos Rês, dos discos Refazenda, Refavela e Realce?
É. Essa é uma fase marcada pelo gosto da aventura intelectual e estética. Pela transformação do estado de consciência que eu vivia com freqüência, saindo do estado sóbrio para o transformado, naquelas práticas quase que diárias de uso de maconha, de uso periódico de ácido lisérgico, de mescalina. Era um grande fetiche, que exorcizava demônios e abria as portas para anjos. Depois, já não me davam mais nada e eu parei com tudo.

Você voltou para a Bahia?
Escrevi uma canção assim (cantando): Eu vim da Bahia/Mas algum dia eu volto pra lá. O dia está chegando. Antes de sair já intuía isso. Aqui sempre foi meu lugar, a cidade que eu mais gosto no mundo é Salvador. Como se gosta da mãe. Mas também pelo que aprendi a gostar depois que saí dela. Vejo que aquela ligação umbilical era privilégio meu, que a vida tinha me dado. Estou voltando, aos poucos. A Bahia sempre foi a segunda terra de todo mundo. Se a Bahia ficar legal, é sinal de que o resto vai ficar. E a Bahia cresceu. O Olodum foi para o mundo, o Pelourinho se restaurou.

Você se tornou um anfitrião do carnaval baiano?
É. Começou com Tempo Rei, documentário feito há cinco anos pela Conspiração Filmes, um perfil da minha vida. Foi o primeiro trabalho que me trouxe de volta à Bahia. Depois vieram outros documentários, sobre Pierre Verger (antropólogo e fotógrafo), os 50 anos do Filhos do Ghandi, em seguida nós, os tropicalistas, fomos homenageados no Carnaval, o que me deu a oportunidade de fazer um trio elétrico, um trabalho com Moraes Moreira.

E a música?
Participei de um disco em homenagem ao compositor baiano Gordurinha, que viveu e produziu no Rio uma excelente obra. Esse ano fiz a trilha sonora do filme de Andrucha (Waddington), Eu, Tu, Eles, filmado em Juazeiro. Fiz um disco com essas canções do filme, coisas de Luís Gonzaga, gravado aqui, com músicos baianos.

E o disco com o Milton Nascimento?
É o meu projeto principal deste ano. O Milton me convidou há um ano e meio e a gente ficou esperando um tempo na agenda de cada um. Gravamos em Salvador, logo após o Carnaval. Agora vamos retomar no Rio. Queremos ir a Diamantina, pelo menos para fazer um clipe. O disco sai em agosto.

Amigos dizem que você não pára, sempre com projetos simultâneos. É um workaholic?
Sou, mas não deixo o trabalho me intoxicar. A imagem que tenho de mim é de alguém com um saco de sementes nas costas, num grande campo arado, andando e jogando as sementes. Nem me preocupo muito em olhar para trás para saber se nasceram. Isso já é um trabalho de outros.

E como avalia sua experiência na política?
Aquilo serviu para me conscientizar de que não tenho talento para a política. Meu perfil é não-governamental. A política é uma arte marcial. As artes marciais implicam a existência de um inimigo, de um adversário que tem que derrotar. E eu não dou para isso.

Você aprova o governo ACM?
Há a interpretação de que ele é um cacique daqueles e tal. De certa forma é. Ele construiu um mito. ACM é um dado cultural da Bahia. É um realizador de extraordinário fôlego. E sempre teve cuidado de não deixar que o sentido maniqueísta lhe embotasse os sentidos. Era amigo do Glauber Rocha, do Jorge Amado. Quando eu e Caetano chegamos em Salvador em 1969, depois de dois meses presos no Rio, ele nos convidou imediatamente para um jantar na casa dele. Para nos acariciar, para se desculpar em nome do regime, pelo ato brutal. Ele dizia, indignado: “Como prender vocês? Que bobagem!”.

A atual indústria fonográfica abafa novos talentos?
Há um problema de intelligentsia, do departamento de criação, daqueles que devem bolar, prever o futuro. Eles não se preocupam muito. Isso ficou com os independentes, os não-governamentais do setor fonográfico. A grande gravadora acabou. O Harmonia do Samba vendeu quase um milhão de discos piratas. Quando a gravadora descobriu, já era. Não vendeu nada. Antes, esse estrangulamento não existia. Éramos recebidos com tapete vermelho. Os talentos eram reconhecidos imediatamente. Na Polygram, Elis Regina, Maria Bethânia, cada uma tinha o seu altar. Mas foi ficando grosseiramente competitivo. Como galinhas criadas em granjas, alimentadas e mortas para abastecer o mercado. Por que Carla Perez não fica viçosa, bonitinha, de bundinha dura, durante dez anos? O Tchan é para ser o Tchan e pronto. É aquilo: cortou e já vem outra lâmina em seguida para cortar. A primeira faz tchan, a outra tchun, e a terceira, tchan, tchan, tchan, tchan.

Sua música se mantém tropicalista?
Sim, tem um pouco da ousadia, de aventura e de história. A história cultural do País precisa continuar.

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