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Memórias
Città
di Roma
Zélia Gattai recorda o passado com
muito humor e sentimentalismo
Antonio
Querino Neto
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Divulgação
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Zélia
Gattai: engraçada e
intimista para falar da família
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Num despretensioso e lírico passeio biográfico, com o livro Città
di Roma (Record, 176 págs., R$ 22), Zélia Gattai retorna à
saga de sua própria família. São inúmeros casos breves, contados
com a leveza da autora de Anarquistas Graças a Deus e A
Casa do Rio Vermelho, que englobam grande parte da história
brasileira, abrangendo desde a queda da monarquia (no final do
século 19) até o Estado Novo. Città di Roma era o nome
do navio que conduziu da Itália as famílias Gattai e Da Col, seus
antepassados, numa penosa jornada para a vida nova no Brasil.
Nele, viajaram os anarquistas que fundariam a “Colônia Cecília”
em terras doadas por Dom Pedro II. Seu avô Gattai era um deles
e aqui se estabeleceu ao lado da paciente esposa Argia.
A
prodigiosa memória de Zélia (hoje com 83 anos) detém-se em muitas
curiosidades: as famílias de seus pais – Ernesto e Angelina –
viajaram no mesmo navio mas só vieram a se conhecer depois, e
ambas tiveram uma das filhas morta em decorrência da jornada.
Diferenças também havia: os Gattai eram toscanos e anarquistas,
os Da Col vênetos e católicos. Essa alegre mistura gerou Zélia,
a irmã caçula que, morando na alameda Santos (São Paulo) iluminada
por lampiões a gás, ouvia nos serões a odisséia da própria família,
narrada pela mãe e pelo tio Gerrando. Lá também, ela vai aos primeiros
bailes, tem as primeiras aulas de piano e assiste ao casamento
das irmãs. É com orgulho que descreve o pai Ernesto, que lidava
com conserto e comércio de automóveis. Homem culto e engajado
sem ser sectário, morre aos 54 anos após sofrer na prisão as atrocidades
da ditadura getulista.
Mas
o leitor não deve esperar uma versão literária da grandiosidade
na linha da novela Terra Nostra. Zélia é sempre intimista
e às vezes até anedótica. Entre seus episódios cômicos, está a
história de um tio e sua namorada que recebe o espírito da avó.
Zélia duvida para sempre do espiritismo ao ouvir o inconfundível
sotaque cabloco da “médium” em lugar da elegante fala veneziana
da nonna. Saborosas em sua simplicidade, essas histórias de Zélia
preservam aromas e cores do passado que são tão frágeis quanto
duradouros.
Passado
saboroso
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