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Dona
Zica, 87 anos
O pacto de amor eterno com a Mangueira
A
personagem mais famosa do morro carioca trabalhou como
doméstica, chegou a apanhar da patroa e começou a namorar
o compositor Cartola num passeio de bonde
Viviane
Rosalem
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André
Durão
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“Este
é o meu lugar e tenho prazer de apresentá-lo ao
mundo inteiro”, diz Dona Zica, que ciceroneou
Carmem Miranda e Bill Clinton no morro da Mangueira.
Abaixo, Dona Zica ao lado de Chico Buarque, que
foi o tema do enredo da escola de samba, durante
ensaio em 1998
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Era uma bela tarde de domingo de Carnaval, em 1913,
quando a menina Euzébia da Silva nasceu. Escolhido pelos
pais, o guarda-freios da Estação da Central do Brasil
Euzébio da Silva e a lavadeira Gertrudes Efigênia dos
Santos, o nome soou estranho para a madrinha, que apelidou-a
imediatamente de Zica. Hoje, aos 87 anos, a viúva de
Cartola, nacionalmente conhecida como Dona Zica, só
se lembra do verdadeiro nome quando apresenta sua carteira
de identidade. “A Euzébia só existe nos documentos”,
diz.
Integrante
da velha guarda da Mangueira, no Rio de Janeiro, Dona
Zica se mudou aos quatro anos de idade com a mãe e os
quatro irmãos mais velhos para o morro de mesmo nome.
Em 1919, ficou quase um ano morando na casa da tia,
no Engenho Novo, subúrbio do Rio, para escapar da epidemia
de varíola que atingia o morro. “Minha mãe me prevenia
da doença me dando banhos de folhas de laranja da terra”,
recorda-se. Aos 7 anos, a menina foi obrigada a trocar
a escola pelo trabalho de empregada doméstica na casa
de uma das patroas da mãe. “Só voltava para o meu barraco
no fim de semana”, conta.
SURRAS
DA PATROA
Para
chegar ao trabalho, pegava dois bondes, de segunda classe.
“Eram mais baratos e conduziam os compradores de jornais
velhos, feirantes, peixeiros e as lavadeiras”, lembra.
Na casa onde trabalhava, chegou a levar surras quando
a patroa não ficava satisfeita com o serviço. “Era tratada
como escrava”, afirma. Mas não podia abrir mão dos cinco
mil réis por mês que recebia para ajudar a pagar o aluguel
do quarto no morro da Mangueira.
Somente
aos 11 anos, ela pediu demissão de seu primeiro emprego.
Passou a ajudar a mãe em casa, cozinhando e lavando
para fora. Desde cedo aprendeu a gostar do Carnaval.
Aos nove anos, desfilou no bloco do tio Júlio, um dos
primeiros a ser fundado no morro da Mangueira. Sua fantasia
se limitava a um pedaço de lençol velho com fitas e
panos coloridos. Quando Cartola, que viria a ser seu
segundo marido, fundou a Escola de Samba Mangueira,
em 1928, ela saiu de baiana. “Era a única ala que a
escola tinha na época e a roupa era feita com chitão,
um pano bem vagabundo”, lembra.
Zica
se casou aos 19 anos com o fundidor Carlos Dias do Nascimento,
com quem teve cinco filhos. A mais velha, Glória Regina,
57 anos, mora ainda hoje com ela. Três morreram quando
ainda eram crianças — um de sarampo, um de infecção
intestinal e outro de pneumonia. A caçula, Vilma, morreu
aos 22 anos, vítima de câncer no pulmão. Pouco antes,
Zica adotara Ronaldo, hoje com 49 anos. Ela é avó de
três netos e tem dois bisnetos.
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Arquivo
Pessoal
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Dona
Zica, com o marido, o compositor Cartola, flagrados
num passeio no Rio de Janeiro, nos anos 60
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“CARTOLA
ERA ESTÉRIL”
Durante o tempo em que foi casada com Carlos,
Zica foi tecelã, cozinheira e lavadeira. “Na época,
eu usava uma tina feita de barril para lavar a roupa
e ferro a carvão para passar”, conta. Em 1948, seu marido
morreu, vítima de tuberculose, e a família, que se mudara
para o Engenho Novo, voltou a morar na favela da Mangueira.
Desde então, não saiu mais. Em 1953, ela lavava roupa
na casa do cunhado, Carlos Cachaça, quando foi surpreendida
com o assédio de Angenor de Oliveira, o Cartola. “Ele
puxou conversa e me convidou para passear de bonde”,
conta. Depois de dois meses de namoro, apaixonados e
viúvos, passaram a morar juntos. Com o compositor, ela
nunca teve filhos. “Cartola era estéril”, explica. Foi
em homenagem a Dona Zica que ele compôs “As Rosas não
Falam”, em 1976, um de seus maiores sucessos. “Eu me
espantei com a quantidade de rosas que nasciam no jardim
e perguntei ao Cartola se ele sabia o motivo”, conta.
“Ele simplesmente me respondeu: “Sei lá, as rosas não
falam”, diz. Quinze dias depois, o samba estava pronto.
Em
1962, Dona Zica e Cartola realizaram um sonho antigo.
Com a ajuda dos amigos, abriram o restaurante Zicartola,
no centro da cidade. “Eu cozinhava e ele tocava”, conta
ela. O local tornou-se ponto de encontro de muitos compositores.
“Lá, Paulinho da Viola fez seu primeiro show e ganhou
seu primeiro cachê”, diz. Zé Kéti foi o diretor artístico
da casa e Nara Leão era freqüentadora assídua. O local
também foi palco do casamento civil de Zica e Cartola,
no dia 24 de outubro de 1964. “Foi uma festança”, lembra.
Ela só lamenta o pouco tempo de vida do restaurante.
“Tivemos que fechar no fim de 1964 por causa das dívidas”,
conta. “Ele deixava os amigos pagarem fiado”.
Mas
a carreira de Cartola ia de vento em popa e Dona Zica
não precisava mais trabalhar. Ela acompanhava o marido
em suas apresentações Brasil afora até 1980, quando
Cartola morreu. Só conseguiu se confortar com o samba
e com o amor que sempre sentiu pela Mangueira. Quando
alguém visita o morro, normalmente é ela quem faz as
honras da casa. “Foi assim com Carmem Miranda na década
de 40, com o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton,
em 1997, e será com quem vier até aqui”, avisa. “Este
é o meu lugar e tenho o maior prazer de apresentá-lo
para o mundo inteiro”, afirma.
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