Entrevista  
“Muitas vezes me confesso com um padre da Opus Dei, porque respeito”, diz padre Marcelo
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padre Marcelo Rossi
‘‘O papa não é uma pessoa fria’’
O sacerdote, que fez o disco mais vendido do País em 2006,
deve cantar para Bento 16, diz que tirou 6.532 fotos com fãs
em um ano e conta que dormia nas aulas de latim
DiÓgenes Campanha

Quando Joseph Ratzinger se tornou Papa, houve quem dissesse que seu conservadorismo seria um obstáculo às missas celebradas pelo padre Marcelo Rossi. O sacerdote, no entanto, nega qualquer conflito com a Igreja. Ele deve cantar na vigília que antecede a missa campal celebrada por Bento 16 em São Paulo, na sexta-feira 11. Ele lembra como se surpreendeu com o então cardeal alemão quando o conheceu, em 2003: “Não acreditei quando ele veio falar comigo, porque passa uma idéia de uma pessoa rígida, mas é o contrário”, diz. No dia 20 de maio, o padre fará 40 anos em meio a projetos e sucessos. Seu último disco, Minha Bênção, foi o mais vendido de 2006, com 867 mil cópias e seu programa de rádio, Momento de Fé, tem média de 2 milhões de ouvintes por minuto. Mas sua meta é terminar a construção do Santuário Mãe de Deus, em São Paulo, que substituirá o galpão do atual Santuário do Terço Bizantino e terá capacidade para mais de 90 mil fiéis.

O que espera da vinda do papa ao Brasil?
Não gosto de comparação, ainda mais pelo carinho que tenho pelo papa João Paulo 2º. Mas, em 2003, fomos entregar o filme Maria, Mãe do Filho de Deus ao Papa e visitamos a Congregação para a Doutrina da Fé. Quando falaram “cardeal Ratzinger”, gelei. Os cardeais me cumprimentaram e fiquei no meu lugar. Ele saiu e fez questão de falar comigo. Uma docilidade, um carinho... Ficamos 15 minutos falando sobre o filme e outras coisas. As pessoas têm a visão de uma pessoa rígida, mas ele é de uma simplicidade incrível. Hoje, a quarta-feira (dia em que o Papa faz audiências públicas no Vaticano) é mais cheia do que com o papa João Paulo II. E não é fácil substituí-lo. É um estilo diferente, não dá para comparar o carisma. Mas a presença dele vai mostrar que o papa não é uma pessoa fria.

Houve alguma restrição ao seu repertório?
Não. Mas sempre tem pessoas com horizonte estreito e, por incrível que pareça, não são os padres, mas uma irmã religiosa, da organização. Ela disse “não pode isso, tem que ser assim...”, então dissemos: “Nos dê o tema e a gente conduz”. O papa é um mensageiro da paz, o repertório seguirá esse tema. Vou cantar muito, só que músicas de louvor.

O papa tem uma visão conservadora da liturgia, contrastando com o despojamento das missas que o senhor celebra. Como vê isso?
Você viu que a queda (do número de fiéis) na Igreja Católica parou e o número de jovens aumentou? Não vou dizer que sou eu, mas ajudamos nisso. Faço missas lotadas aos domingos e, à tarde, faço a Discoteca de Jesus (celebração em que as músicas religiosas são mixadas com ritmos modernos). Você não acredita no número de jovens que está participando. E o papa tem respeito profundo por todos os movimentos. A coisa mais linda na Igreja é a unidade na diversidade. Muitas vezes me confesso com um padre da Opus Dei, porque respeito. As pessoas têm que ter a cabeça aberta, inclusive para a música. Acho canto gregoriano fantástico, mas não vou chegar no Santuário cheio e começar: (imita o canto gregoriano) “Quiriêê”. As pessoas iriam dormir!

O papa apóia sua atuação?
Se não tivesse a aprovação, estaria cantando para ele?

Ele recomendou que algumas missas especiais sejam rezadas com trechos em latim. O que acha?
Fantástico. Mas, sinceramente, não contem comigo para rezar esse tipo de missa. Estudei latim e hebraico e, por incrível que pareça, sei mais o hebraico, porque eu dormia na aula (risos)! O professor era terrível e, se a gente não pratica, esquece. Se me mandarem falar latim, vou fazer: “Au, au, au!”

Sandy e Junior, inicialmente convidados para cantar para ele, acabaram vetados e a Sandy disse que “ninguém é santo, nem o papa”. O que achou disso?
Prefiro não entrar nessa polêmica. Falei tantas coisas quando era jovem que hoje não falaria. É aí que você vê como é importante a prudência, a sabedoria.

O senhor não faz mais missas grandiosas. Sente falta?
Depois daquela da virada do milênio (que levou 2 milhões ao autódromo de Interlagos, em 2000), prometi nunca mais fazer grandes missas, porque toda responsabilidade é minha e, se acontecer alguma coisa, pode dar até cadeia. É melhor fazer várias missas do que uma grande. O carinho é interessante, mas me esgota. Aeroporto, por exemplo, esgota muito. As pessoas tentam me colocar em primeira classe, área vip, mas recuso. Sou padre, não sou artista. E você tem que atender todo mundo. Antes, pediam autógrafos e eu falava: “Se quiser uma bênção, dou com todo carinho”. Hoje tem a bênção e a foto, todo mundo tem máquina. Se você não dá, mesmo cansado, a pessoa nunca mais vai querer saber. Após o lançamento do CD, tirei 6.532 fotos. O meu pai contou o número (risos)!