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“Me cobrava demais, não dormia antes das competições e tive até uma alteração de tireóide depois de perder em Atenas”, diz Daniele
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Especial
Os ippons de Daniele

Primeira brasileira a conquistar uma medalha em mundial
de judô, aos 15 anos, Daniele Zangrando começou a lutar
para competir com o irmão e conta que namora um homem
17 anos mais velho
texto Rodrigo Cardoso
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Certo dia o treinador de judô Paulo Duarte ouviu do comerciante José Eduardo Zangrando: “Deixa ela ir treinar. Vai dar uma semana, ela vai apanhar bastante e desistirá”. Falava da filha caçula, Daniele, que, aos 5 anos, de tanto assistir ao irmão Dênis lutar no tatame queria treinar também. Mesmo não havendo garotas em sua academia, o professor assentiu com o consentimento de José Eduardo, que errou feio no prognóstico. Aos 27 anos, Daniele tem um currículo de respeito. Hexacampeã paulista, tricampeã brasileira, tem duas medalhas de bronze em dois Pan-americanos, e se tornou a primeira judoca do País na história da modalidade a conquistar uma medalha em campeonato mundial – em 1995, aos 15 anos, ela ganhou o bronze.

A carreira brilhante e precoce – aos 13, ela já competia pela categoria adulta e, dois anos depois, fazia parte da seleção brasileira – já foi um fardo nas derrotas. “Me cobrava demais, não dormia antes das competições e tive até uma alteração de tireóide depois de perder em Atenas. Puramente emocional”, conta ela, que além da Olimpíada de 2004, na Grécia, participou da de Atlanta, em 1996. Hoje, Daniele aprendeu a se divertir mais com o esporte e sorri ao contar que não foi a possibilidade de medalhas que a atraiu para o judô. “Adorei a idéia de bater nos meninos e, principalmente, lutar contra meu irmão”, conta. “Não admitia ser pior do que ele.”

Tratava-se de uma competição caseira saudável. Dênis era o héroi de Daniele, que se interessava por todas as atividades do irmão. “Por causa dele estou aqui”, diz ela, olhos marejados, ao recordar uma carta escrita por Dênis, hoje dentista, elogiando a irmã-judoca. Criada em Santos, a paulistana Daniele entra no tatame sempre com o pé direito e deu um toque feminino ao seu quimono, bordando na faixa a cor pink. É “paty” (patricinha), apesar dos “pés cheios de calos” e das “mãos de pedreiro”. E, no caso dela, tem ainda fã com adoração doentia. A judoca já encarou dois desse tipo. Ano passado, durante um mês e meio, ela foi seguida por um rapaz, que descobriu seu telefone e levou presentes em sua casa. “Eu saía para treinar e ele estava na esquina me esperando”, conta. “De tarde, eu dormia para descansar do treino. Quando acordava, era só acender a luz do quarto que tocava o telefone.”

Daniele resolveu o assunto com uma conversa franca: “Disse ao rapaz que eu tinha namorado e que ele estava confundindo as coisas”. A judoca namora há nove anos o funcionário público Maurício Sanches, de 44 anos, 17 a mais do que ela. No início, José Eduardo, pai dela, achou estranho. Dênis, o irmão, não curtiu a idéia. “O Maurício tinha uma fama de galinha, porque era galinha mesmo!”, diverte-se ela. “Mas foi por ele que me apaixonei.”

Hoje, com o relacionamento sólido, a pressão é por casamento e filhos. “Antes da Olimpíada, me perguntavam se eu ia para a competição. Hoje, as pessoas me encontram e logo querem saber se vou para o Pan, não falam nem ‘oi, tudo bem?’ E quando estou com o Maurício, o questionário é: ‘E aí, não casou ainda? E quando vem o filho?’”, conta Daniele. “A vida é uma eterna cobrança.”

Agradecimentos: Adriana Degreas, Miss Sixty, Tutu Ferreira, Clube Chocolate, Água de Coco, Rosa Chá, Théo Atelier e Fight Company Academia.