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Especial Pan
O balé da esgrimista

Ex-bailarina, a esgrimista e arquiteta Maria Júlia Herklotz diz que teve de vencer a resistência ao
esporte de combate para triunfar na modalidade e fala como é ter um lado do corpo mais musculoso do que o outro
texto Rodrigo Cardoso / foto edu lopes
“Já aconteceu de eu comprar calça jeans e uma das pernas não entrar”, conta a atleta, que tem uma diferença de 5 centímetros no diâmetro de uma perna para a outra

Atenção, adversárias de Maria Júlia Herklotz. Se Maju, como a esgrimista é conhecida, entrar na pista onde as atletas duelam com uma camiseta branca, toda surrada, por baixo da roupa especial de competição, é certo que o páreo será duro. Campeã brasileira em 1999 e 2004, dois Pan-americanos e uma Olimpíada no currículo, o hábito virou sinônimo de vitória quando acompanhada por outro ritual. “Faço duas chiquinhas no cabelo antes de entrar em combate”, conta ela, que no País tem como adversárias de respeito as paulistas Taís Rochel e Marília Mello e a gaúcha Silvia Rothfeld. Combate: eis uma palavra que gerava desconforto em Maju.

Caçula de três filhos do engenheiro Andres Herklotz e da esteticista Maria Lúcia Alterthum, Maju cresceu tocando piano, desenhando e fez aulas de balé dos 6 aos 14 anos. “Não tive dificuldade de aprender e me adaptar à esgrima, mas não gostava do competir”, diz ela, que compete na categoria Florete e é atleta do Esporte Clube Pinheiros. “Eu tinha compleição física para o esporte, mas faltava aptidão em termos de temperamento, personalidade. Eu treinava forte, era disciplinada, só que tinha dificuldade de ganhar.”
A transformação da criança que vivia no universo da dança para uma atleta de um esporte de confronto levou tempo. Maju, porém, foi ganhando confiança e deslanchou na carreira. Ao desembarcar em Atenas, em 2004, ao lado da hoje ex-atleta Élora Pattaro, Maju encerrou um hiato de 78 anos sem participação de uma esgrimista brasileira em jogos olímpicos. “Nunca passou pela minha cabeça que ela conseguisse ir para uma Olimpíada. Ri quando o técnico dela garantiu que iria”, diz a mãe da atleta, Maria Lúcia. “A Maria Júlia passou muitos Natais fora de casa, treinando. Ela mereceu todas as conquistas.”
Casada, Maju não tem patrocínio e banca suas despesas com o esporte. Ela é arquiteta, tem uma empresa, mas comprou o primeiro material para a prática de esgrima depois de trabalhar por quatro meses como baby sitter. Tinha 15 anos, na época. “Cuidava de duas crianças de 8 e 5 anos, acompanhava a lição de inglês...”, lembra.

“Na esgrima você toma um ponto e ele é no teu peito. Não é a bola que caiu no chão, como no vôlei. O ponto é uma ‘facada’ no peito que machuca o ego!’’

Há outros sacrifícios, no entanto. Certa vez, Maju ouviu de uma amiga: “Esgrimista que se preze não tem perna direita e esquerda. Tem perna da frente e perna de trás”. E não teve como discordar. Destra, a atleta estica perna e braço direitos – cujas musculaturas são visivelmente mais desenvolvidas do que as do lado esquerdo. “Esgrima é um esporte unilateral, desenvolve sempre mais um lado do corpo”, afirma ela.

Elegante graças à altura (1,76 metro) e o corpo seco, Maju lista as complicações decorrentes do esporte: “Já aconteceu de eu comprar calça jeans e uma das pernas não entrar”, conta ela, que tem uma diferença de 5 centímetros no diâmetro de uma perna para a outra e uma coleção de jeans stretch no guarda-roupa. “É muito difícil eu usar minissaia. Esgrimista tem a coxa meio grande.” Aos 31 anos, a atleta lamenta ainda o fato de a postura não ser como gostaria. Ela tem um ombro caído para a frente. Sofre com calos, é obrigada a usar unhas curtas, dispensa a chapinha por transpirar demais e lava o cabelo duas vezes por dia. “Também faço muito exercício e o peito diminui”, completa.

Vale o registro: mesmo a arma não sendo pontiaguda, as atletas competem com uma placa de acrílico como protetor de seio. “Na esgrima você toma um ponto e ele é no teu peito. Não é a bola que caiu no chão, como no vôlei. O ponto é uma ‘facada’ no peito que machuca o ego!”.

Agradecimentos: Adriana Degreas, carmim, Rosa Chá, Tutu Ferreira, Água de Coco, Clube Chocolate Produção: Frida Abrahão Hair e make-up: Adílson Vital