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Felícitas
Barreto, 90 anos
Dama das selvas e musa dos pincéis
A
bailarina alemã que se tornou amante dos povos indígenas
da Amazônia, teve seu rosto jovem imortalizado por Guignard,
amigo que conheceu nos anos 40
Viviane
Rosalem
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Kiko
Cabral
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“Guignard
tinha o meu temperamento, era sensível e muito
delicado”, diz Felícitas, sobre o amigo pintor
que fez seu retrato. O quadro foi vendido e o
dinheiro a mantém até hoje
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Os 90 anos de Felícitas Barreto não a impedem de fazer
nada. Nem mesmo de subir numa árvore para sentir-se
mais perto da natureza. Pequenina e ágil, a escritora,
pintora e bailarina clássica se destacou sobretudo como
antropóloga autodidata. Na década de 40, começou a percorrer
aldeias indígenas do Brasil, Panamá, México, Colômbia,
Equador e Venezuela. “Conheci um mundo novo, lindo,
em que não precisava gastar um tostão”, conta. Suas
experiências durante 30 anos com os índios foram traduzidas
em sete livros publicados, entre os quais Réquiem para
os Índios, prefaciado por Rachel de Queiroz e Erich
Von Däniken, autor do best seller Eram os Deuses Astronautas?.
Descendente
de ciganos, ela nasceu em 1910, ano em que o mundo pôde
observar uma das passagens do cometa Halley. Natural
de Colônia, na Alemanha, ela passou parte de sua infância
no sítio do avô, um rico fazendeiro da Bavária. “O parque
da casa de meus avós inspirou Mendelsohn a compor Sonhos
de Uma Noite de Verão”, diz.
PICADA
DE COBRA
Felícitas
veio morar no Brasil, depois da Primeira Guerra Mundial,
quando seu pai, um engenheiro industrial alemão, perdeu
o emprego. Assim que chegou, se instalou em Niterói.
“Gostava de ir à praia com minha irmã Liane, hoje já
falecida, para ouvir o atabaque em rituais de candomblé”,
conta. A escritora acredita que vem daí seu fascínio
pelos povos indígenas, já que considera a crença dos
negros similar à dos índios. “Fui picada por uma cobra,
em Roraima, e me curei com um preparado de folhas que
um feiticeiro índio me fez mastigar”, recorda. Seu cardápio
se resumia muitas vezes a um lagarto amarelo de cabeça
preta. “Tinha gosto de queijo”, conta. Para se prevenir
contra cáries, ela mastigava um certo tipo de cipó que
deixava os dentes protegidos.
Além
dos apalaís no Pará e dos xavantes em Mato Grosso, que
a apelidaram de Lua por causa dos longos cabelos brancos,
Felícitas adorou conhecer a tribo wayana, no Maciço
Tumucamaque, na fronteira do Suriname. Lá, se envolveu
com o cacique Aparebé, que, apaixonado por ela, a presenteou
com um tucano de nome Ocururi, que quer dizer arco-íris.
“Era para me dar sorte”, diz. Quando voltou ao Brasil,
em 1972, a escritora trouxe o animal para o seu pequeno
apartamento de quarto e sala em Copacabana, onde mora
até hoje. Construiu um enorme poleiro para o pássaro
e uma piscina para ele beber água e se banhar todas
as manhãs. Ela se tornou figura folclórica no bairro
por desfilar com o tucano no ombro. O animal defendia
sua dona com unhas e dentes. “Certa noite, ele me livrou
de um assalto no meu apartamento. Saiu bicando os assaltantes
e feriu o olho de um deles”, conta. Os dois se separaram
em 1987, quando o tucano fugiu pela janela do carro
de Felícitas. A escritora ficou inconsolável. Teve que
aprender a viver sozinha. Filhos nunca fizeram parte
dos seus planos. “Sempre quis ser livre”, justifica.
Antes
de se aventurar na selva, ela foi bailarina. Em 1928,
chegou a receber elogios da bailarina russa Ana Pavlova,
que assistiu a uma de suas apresentações no Teatro Municipal
do Rio. Na época, Felícitas se dividia entre as aulas
de balé e o circo, onde dançava montada num elefante.
“Tentava ganhar um dinheirinho a mais”, explica. Em
1946, ela criou o primeiro balé folclórico do Brasil.
Anos mais tarde, assumiu a direção do balé do Teatro
da Paz, em Belém, no Pará. Em 1958, ela dançou em Paris,
no Teatro da Academia de Isadora Duncan. “O irmão dela,
Raymundo, me convidou para dirigir a academia, mas recusei
porque não queria ficar presa”, diz. Em 1960, Felícitas
conheceu Che Guevara quando foi a Cuba participar de
uma conferência de dança folclórica. Foi a ele que pediu
autorização para chegar a Havana.
COLCHÃO
DE TÁBUA
Felícitas
também se formou pintora na Escola de Belas Artes do
Rio na década de 40. Lá, conheceu Guignard, que veio
a ser um de seus melhores amigos. “Ele tinha o meu temperamento,
era sensível e muito delicado”, diz. Musa inspiradora
de Guignard, Felícitas revela que é justamente com o
dinheiro da venda do quadro no qual o pintor reproduziu
seu rosto que ela sobrevive hoje em dia. Ela mora sozinha,
não tem televisão e usa apenas um telefone para se comunicar
com os outros. Apesar da idade avançada, Felícitas dorme
numa tábua de madeira, sem colchão ou travesseiro, e
anda pelada dentro de casa. “Me acostumei com os índios”,
diz. “Quando coloco alguma roupa para sair, me sinto
fantasiada”, afirma.
Engajada
na luta mundial em defesa da liberdade dos animais,
Felícitas criou um site na internet, Fauna Free, no
qual recebe o apoio de vários internautas e de organizações
mundiais sem fins lucrativos. “É de cortar o coração
ver os ursos enjaulados na China”, diz. “Trocaria a
minha vida pela liberdade destes animais.”
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